Em um movimento pouco comum nos últimos três anos, as ações da Americanas dispararam no pregão da B3 na manhã de quinta-feira, 26 de março, um dia após a varejista divulgar seus resultados do quarto trimestre e do ano consolidado de 2025.

Após abrirem o dia com alta de mais de 14%, os papéis registravam uma valorização de 19,8% por volta das 13h, cotados a R$ 6,17. No ano, as ações sobem mais de 20%, avaliando a companhia em R$ 1,23 bilhão.

Mais que os números do período, uma outra entrega explica esse rali. Juntamente com o balanço, a Americanas divulgou que protocolou ontem o pedido para sair da recuperação judicial, um processo que teve como origem uma fraude contábil de R$ 25 bilhões descoberta no início de 2023.

“Ainda precisamos da aprovação do juiz, mas não dá para negar que é um dia muito especial”, disse Fernando Soares, CEO da Americanas, em call com analistas na quinta, onde ressaltou três pilares por trás da decisão de solicitar o fim desse processo.

“Nós cumprimos as obrigações previstas no plano da RJ e executamos um plano de transformação bastante relevante da companhia, tanto do ponto de vista operacional como estratégico”, afirmou. “E, por fim, encerramos 2025 com números bastante consistentes.”

O executivo destacou alguns dos movimentos que unem essas três frentes e que tinham como norte o plano de recuperação judicial aprovado com credores no fim de 2023 e colocado em execução em fevereiro de 2024.

Um dos principais pontos foi a decisão de eleger as lojas físicas como o centro do negócio, em detrimento dos canais digitais que, até então, dividiam a atenção da varejista e operavam de forma apartada, com investimentos e estratégias isoladas.

A companhia também colocou à venda negócios que compunham o seu ecossistema. Em outubro de 2025, encaminhou a venda da Uni.Co, dona das marcas Imaginarium, Puket e Lovebrand. E segue avançando no processo para se desfazer do Hortifruti Natural da Terra.

Já no que diz respeito à estrutura de capital, um dos números destacados em 2025 a partir do plano foi o fato de que a rede encerrou o ano com uma dívida bruta de R$ 2 bilhões, valor integralmente referente a debêntures.

Na outra ponta, a Americanas fechou 2025 com uma disponibilidade total de caixa de R$ 2,5 bilhões, sendo R$ 1,1 bilhão de disponibilidade e R$ 1,4 bilhão em recebíveis de cartões. O que permitiu à empresa virar o ano com caixa líquido de R$ 488 milhões.

A partir desses avanços e de outros indicadores, e da perspectiva de deixar para trás a recuperação judicial, a varejista já tem traçado os novos passos a serem cumpridos nos próximos quatro anos, dentro do que batizou de Plano 100, em uma referência aos 100 anos que completaram em 2029.

O plano em questão envolve algumas avenidas prioritárias. A primeira é seguir aprimorando o roteiro das lojas físicas como pilar central do negócio, com base em estudos que, entre outras frentes, já envolveram entrevistas com mais de 10 mil consumidores.

Nesse espaço, a Americanas voltou, por exemplo, a abrir lojas, na contramão do fechamento massivo de unidades dos últimos três anos – e que não está mais no escopo. Foram 6 inaugurações em 2025 e outras três já em 2026.

Em outro passo recente e que é mais um pilar do novo plano, a Americanas lançou o Americanas Ads, seu braço de retail media, em fevereiro desse ano. E vem buscando se aproximar da indústria para começar a alavancar essa estratégia.

“Temos quase 1,5 mil lojas, em 800 cidades, mais de 40 categorias, mais de 95 milhões de visitas e o maior volume de seguidores do varejo em redes sociais”, disse Soares. “Então, temos um potencial enorme para explorar.”

Uma terceira avenida passa pelos negócios digitais e de serviços financeiros, que, entre outras iniciativas, contou com o lançamento do cartão de crédito da rede – mais de 1,5 mil já foram emitidos, e o relançamento do programa de fidelidade, batizado como Cliente A.

“Nós turbinamos o nosso CRM e hoje temos mais de 36 milhões de clientes identificados”, afirmou o CEO. “O cliente do programa gasta três vezes mais. Queremos garantir frequência e aumento de tíquete. E isso passa por uma relação mais próxima com essa base e menos com a aquisição de clientes novos.”

A Americanas também está testando novas ofertas para serem incorporadas ao portfólio de serviços financeiros. Entre elas, um crediário, com a possibilidade de parcelar as compras em até dez vezes. E que já está sendo testado em parte das lojas da rede.

No balanço

Em paralelo ao desenvolvimento desses novos planos, a Americanas fechou o quarto trimestre de 2025 com um prejuízo líquido de R$ 44 milhões, o equivalente a uma melhora de 92,5% sobre a perda de R$ 586 milhões reportada em igual período, um ano antes.

No ano, o prejuízo reportado foi de R$ 271 milhões, contra um lucro de R$ 8,3 bilhões, um ano antes. Essa última cifra, porém, de 2024, foi impulsionada por efeitos extraordinários relacionados à recuperação judicial.

A receita líquida trimestral, por sua vez, teve uma retração de 3,8%, para R$ 3,6 bilhões. Enquanto no consolidado do ano, o recuo foi de 1,2%, para R$ 12,3 bilhões. Entre outubro e dezembro, o volume bruto de mercadorias (GMV) caiu 5,6%, para R$ 5,1 bilhões e, em 2025, 9,1%, para R$ 17 bilhões.

Em contrapartida, o Ebitda da operação no trimestre foi de R$ 376 milhões, contra o Ebitda negativo em R$ 141 milhões apurado no mesmo intervalo de 2024. Já no balanço de 2025, o indicador registrou queda de 33,2%, para R$ 1,13 bilhão.

Já o Ebitda ajustado, que exclui as despesas e eventos relacionados à RJ e, foi de R$ 276 milhões no trimestre, alta de 1,9%, e de R$ 1,1 bilhão no ano, o que representou um crescimento de 11,6% sobre 2024.

Em outros indicadores, no trimestre, as despesas com vendas caíram 12,4%, para R$ 760 milhões, e as despesas gerais e administrativas recuaram 49,6%, para R$ 324 milhões.