Se a OpenAI deu a largada e disparou na dianteira da corrida da inteligência artificial (IA) no fim de 2022, com o lançamento do ChatGPT, a Anthropic vem acelerando e reduzindo essa distância. E, ao que tudo indica, está prestes a ganhar bastante fôlego para superar a rival.

Segundo o jornal britânico Financial Times, a companhia americana está avaliando levantar uma nova rodada de até US$ 50 bilhões, em um passo que avaliaria a empresa em cerca de US$ 900 bilhões e a colocaria a caminho da marca de US$ 1 trilhão e à frente da OpenAI, avaliada em US$ 852 bilhões.

Em uma base de comparação para além dessa rivalidade, ainda restrita ao mercado privado, a relação de empresas listadas com valor de mercado acima de US$ 1 trilhão conta atualmente com 12 empresas. Ainda restrito, esse clube já foi mais seleto, mas tem ganho corpo justamente com o impulso da IA.

É o caso da Nvidia, que está no topo desse ranking, com um valor de mercado acima de US$ 5 trilhões, acima de companhias como Alphabet, Apple, Microsoft e Amazon. Entre os nomes que ascenderam a esse patamar com um bom impulso da IA estão a Broadcom e a TSMC.

Em outro dado que, guardadas as devidas dinâmicas dos mercados privado e de capitais, dá uma medida do quanto a IA está movimentando rapidamente os ponteiros, a Alphabet, em segundo lugar nesse pódio, avaliada em US$ 4,7 trilhões, levou cerca de 21 anos para alcançar seu primeiro trilhão.

Fundada em 2021 e com mais de US$ 78 bilhões já captados, a Anthropic, por sua vez, tem construído esse caminho a partir do interesse de investidores como Dragoneer, General Catalyst e Lightspeed Venture Partners, segundo pessoas próximas à companhia.

A Dragoneer foi uma das gestoras que participaram da rodada de US$ 30 bilhões captada pela Anthropic em fevereiro deste ano, quando a empresa foi avaliada em US$ 30 bilhões. O aporte foi liderado pela Coatue Management e o Fundo Soberano de Cingapura (GIC).

Posteriormente, em abril, a companhia levantou outros dois cheques. O primeiro, de US$ 5 bilhões, com a Amazon, que já investe há tempos na operação. E, o segundo, de US$ 10 bilhões, com o Google, num acordo que inclui a possibilidade de um cheque adicional de US$ 30 bilhões.

De acordo com as fontes citadas pelo Financial Times, um dos fatores que têm alimentado o interesse pela startup é o seu crescimento acelerado. Nessa direção, a expectativa é que, em breve, a receita anualizada da companhia ultrapasse a casa de US$ 45 bilhões, contra US$ 9 bilhões no fim de 2025.

“Há pessoas dispostas a investir qualquer quantia na Anthropic. É só uma questão de tempo até que a empresa mostre que está pronta”, disse um investidor em entrevista ao jornal britânico.

Essa ansiedade em torno da startup está conectada com o desejo dos investidores de consolidarem suas posições antes de uma oferta pública inicial de ações da Anthropic. Previsto para acontecer nesse ano, o IPO da companhia é, ao lado das listagens da OpenAI e da SpaceX, um dos mais aguardados de 2026.

Segundo as fontes, dado o tamanho esperado da oferta, a Anthropic dará preferência a investidores com experiência em investimentos tanto no setor privado quando no mercado de capitais.

Todo esse hype sobre a companhia também vem sendo alimentado pelos avanços em novas versões de ferramentas do seu portfólio, como o Claude. O que tem ajudado a empresa a ganhar terreno na disputa com a OpenAI especialmente entre os clientes corporativos.

No início de 2026, esses lançamentos ajudaram a alimentar, inclusive, as discussões sobre a possibilidade de a inteligência artificial generativa matar o software, sustentadas por argumentos de que a tecnologia criaria um atalho para que qualquer usuário desenvolvesse seus próprios sistemas.

Como já se tornou uma tônica nesse espaço, a busca por captar recursos cada vez mais expressivos é, no entanto, essencial para que a companhia siga nessa toada, muito em função da infraestrutura e da capacidade computacional necessária para evoluir e operacionalizar essas tecnologias.

Essa demanda deve ganhar ainda mais força com o lançamento do Mythos, novo modelo de IA da Anthopic, ainda disponível para uma base seleta de parceiros. Nesse contexto, a empresa fechou acordos recentes com SpaceX, Google, Broadcom e AWS para assegurar essa capacidade.

“A Anthropic resolveu o maior gargalo e potencial fonte de fragilidade, que era a capacidade computacional”, afirmou outro investidor da empresa.

Isso não significa que o percurso da Anthropic esteja livre de barreiras. A empresa tem enfrentado, por exemplo, uma série de atritos de cunhos políticos e ideológicos com o governo do presidente Donald Trump, com reflexos tensos nessa relação. E também em seus negócios.

Também no início de 2026, em um dos episódios desse imbróglio, a Anthropic se recusou a remover os guard rails dos seus modelos para permitir o acesso irrestrito aos militares americanos. Em resposta, Trump ordenou que todas as agências federais suspendessem o uso das tecnologias da companhia.