O Brasil está no radar da gigante suíça de eletrificação ABB. O cenário para a companhia é de oportunidades, principalmente na instalação de data centers. A empresa preparou um ciclo de investimentos de US$ 45 milhões no País, para expansão de portfólio e melhorias operacionais na fábrica de Sorocaba, em São Paulo.
No ano passado, a companhia registrou crescimento de 9% no Brasil, explicado pelo aumento da necessidade de eletrificação por parte do setor produtivo, e da busca por uma eficiência energética sustentável. A empresa não revela receita por país, mas o Brasil está no top 10 dos principais mercados da ABB.
A unidade de eletrificação, que responde por metade da receita da companhia, integra iniciativas como automação de edifícios e instalação de sistemas de energia em data centers. E é este segmento que irá receber a maior parte dos aportes da companhia.
“Há espaço para crescer no mercado brasileiro de automação com energia renovável e em data centers, puxada pelo avanço da inteligência artificial e do aumento de dados transacionais. Hoje este segmento já responde por 10% dos pedidos de eletrificação na receita do país”, diz Luciano Nassif, CEO da ABB no Brasil, em entrevista ao NeoFeed.
Dados da consultoria global Data Center Map mostram que há hoje no Brasil 206 data centers em operação em 34 cidades. São Paulo lidera, com 59 empreendimentos, seguido por Rio de Janeiro, com 24, e Porto Alegre, com 14. E este mercado vai sustentar o avanço em receita neste ano.
“A gente prevê um crescimento de um dígito neste ano. Há escala no Brasil, principalmente quando a gente observa o crescimento de segmentos como o mercado financeiro e plataformas de e-commerce. O país está entre os maiores do mundo em dados transacionados. E isso vai aumentar”, explica.
Na avaliação dele, há caminhos inclusive para que o Brasil possa exportar serviços de transferência de dados para países da África e América Latina, principalmente a partir de data centers instalados no Nordeste. Fortaleza, por exemplo, tem 12 equipamentos.
“Isso é um fator de atração para o desenvolvimento deste mercado. O custo da energia elétrica é um componente extremamente custoso para estes equipamentos. E com a energia renovável, o Brasil oferece condições mais vantajosas”, afirma Nassif.
E é justamente no Ceará, no Porto do Pecém, que a ABB também vem expandindo sua atuação, com instalação de infraestrutura para subestações elétricas, além de empreendimentos em São Paulo.
Só que, junto com as oportunidades desenhadas, há preocupações que podem afetar o avanço deste mercado no Brasil. A principal delas é em relação à demora para avançar, no Congresso Nacional, o projeto que estabelece o Regime Especial de Tributação para Serviços de Data Center (Redata). A iniciativa ainda está longe de ser aprovada.
“Isso pode retardar investimentos. O nível de demanda, provocado pela inteligência artificial, está grande. Todo o mercado quer que toda essa regulamentação esteja definida o mais rápido possível”, afirma o executivo.
Em fevereiro, caducou a medida provisória (MP) do governo federal que ditava as regras e garantia os benefícios fiscais para a instalação dos centros de dados no país. A Câmara Federal, então, aprovou um projeto de lei retomando a medida, só que o Senado não discutiu o projeto, e sequer há data para votação no plenário. Agora, com a proximidade do período eleitoral, há o risco real de que a medida só avance no ano que vem.
“Preocupa sim [essa demora]. Se tiver uma regulamentação definida, que é o que todo mercado espera, este ritmo de investimentos vai ser acelerado no Brasil. Essa falta de um projeto aprovado vai retardar, mas entendo que por enquanto não vai paralisar o mercado”, diz Nassif.
Avanço lento dos linhões
Outra preocupação apontada pelo CEO da ABB está no descompasso do avanço, por parte do governo federal, da infraestrutura na transmissão de energia elétrica no Brasil, ao contrário de geração, que cresceu nos últimos anos, principalmente nos sistemas eólico e fotovoltaico.
“Quando se fala em infraestrutura de data center, é fundamental que haja disponibilidade de energia. E como isso vai ser fornecido. São pontos relevantes que impactam no avanço de investimentos. Quanto mais rápido a gente estabilizar a nossa matriz elétrica, mais rápido estes projetos vão avançar”, afirma Nassif.
Segundo a Agência Nacional de Energia Elétrica, o Brasil alcançou, em março, 217,9 mil megawatts (MW) de potência fiscalizada. Deste volume, 84,73% são provenientes de usinas renováveis. Metade é de energia hidrelétrica, seguida por termelétrica, eólica e solar.
Fato é que, hoje, as linhas de transmissão existentes não são suficientes para escoar toda a energia produzida no Brasil. Atualmente, são 176 mil quilômetros de linhas, com crescimento de menos de 30% em seis anos. Só que a capacidade eólica, por exemplo, dobrou no mesmo intervalo. Este desarranjo, segundo Nassif, é um gargalo para expansão de projetos para a empresa.
Neste sentido, ele entende que o possível leilão de armazenamento de energia por baterias, que deve ter seu edital lançado nas próximas semanas, é uma janela de crescimento para a ABB.
“Estamos avaliando de que forma a empresa irá participar deste mercado. Indiretamente, a ABB vai participar, oferecendo infraestrutura para as empresas que poderão estar neste processo. Essa é uma boa maneira de aproveitar a energia que está sendo desperdiçada”, afirma Nassif.
Um dos caminhos estudados é por meio de subcontratos com as concessionárias vencedoras do certame. Mas também há um ponto de atenção sobre o curtailment, a interrupção forçada a partir da falta de capacidade do sistema nacional em receber toda essa carga.
Já em outro segmento, segundo Nassif, a ABB tem menos preocupação de crescimento, que é o do avanço dos veículos elétricos no Brasil. Ao contrário do mercado americano, em que montadoras registram baixas contábeis por causa da queda nas vendas, o consumidor brasileiro aceitou este produto.
Segundo a Associação Brasileira de Veículo Elétrico (ABVE), a perspectiva é que os veículos eletrificados híbridos e plug-in devem representar 15% do mercado brasileiro em 2026. No ano passado, o crescimento da eletrificação foi de 26%. Com mais carros a bateria, há mais necessidade de carregadores em postos e em edifícios.
No primeiro trimestre de 2026, a ABB registrou globalmente US$ 11,3 bilhões de volume de pedidos, alta de 32% sobre a mesma base de 2025. A receita líquida no período foi de US$ 8,7 bilhões, alta de 11%.
O continente americano foi o que mais cresceu no período. A região, que respondeu por US$ 3,4 bilhões da receita, avançou 21% no período. A Europa cresceu 17% (US$ 2,9 bilhões), seguido por Ásia, Oriente Médio e África, que subiram 16% (US$ 2,3 bilhões).
Na Bolsa de Zurique, as ações da ABB acumulam valorização de 24,8% em 2026. Em um ano, o crescimento é de 76%. O valor de mercado da ABB é de 139,45 bilhões de francos suíços (US$ 176,7 bilhões).