“O próximo capítulo do nosso momentum em IA”. Esse foi o título de um comunicado divulgado pelo Google na quarta-feira, 5 de agosto, no episódio mais recente de uma onda de reformulações nas lideranças da Google Deep Mind, divisão que concentra seus esforços de inteligência artificial (IA).
Na nota, a big tech anunciou que Demis Hassabis está deixando o cargo de CEO da Google Deep Mind para assumir as posições de chairman e de cientista-chefe da operação. E que Koray Kavukcuoglu, chefe de tecnologia da unidade, passará a comandar todo o desenvolvimento de modelos de IA da empresa.
As mudanças não param por aí. Desde 1999 no Google e com o status de ser o 30º funcionário integrado à empresa, o cientista-chefe Jeff Dean está se desligando da companhia juntamente com Oriol Vinyals, Quoc Le e Sanjay Ghemawat, outros três veteranos da casa.
Presente nas listas dos pesquisadores mais citados do mundo, o quarteto terá como destino uma nova startup, criada por eles e que também será centrada em IA. Batizada de Discovery Loop, seu foco será aplicar essa tecnologia para automatizar tarefas complexas nas áreas de ciência e engenharia.
“Acreditamos que, ao automatizar muitos dos aspectos clássicos do ciclo experimental com modelos de aprendizado de máquina, complementando o trabalho de cientistas e engenheiros, seremos capazes de explorar mais o espaço em amplas áreas da ciência para acelerar as descobertas”, disse Dean, em entrevista ao The Wall Street Journal.
Ele observou que começou a considerar seriamente o projeto há cinco semanas, quando entrou em contato com Vinyals, seu colega e principal colaborador do AlphaFold, um famoso programa de IA que prevê estruturas de proteínas e que ganhou o Prêmio Nobel de 2024.
A dupla se conectou então com Le e Ghemawat e começou a discutir o desenvolvimento da infraestrutura necessária para permitir que mais ramos da ciência fossem automatizados e o que seria necessário para viabilizar tal projeto.
Em comunicado, a Discovery Loop afirmou que, inicialmente, se concentrará na automatização de processos por meio de sua própria plataforma de tecnologia. E que, eventualmente, planeja aplicá-la a diversas áreas, entre elas, design de hardware e descoberta de medicamentos.
A startup informou ainda que a Alphabet, holding do Google, está fornecendo capacidade de computação e de nuvem para a sua operação e é também uma das investidoras em uma rodada seed em fase de captação. O aporte será coliderado pela Radical Ventures e a Khosla Ventures.
Por trás do projeto, os quatro pesquisadores se conhecem há mais de uma década. Le foi coautor e consultor dos sistemas de IA do Google que conquistaram medalha de ouro na Olimpíada Internacional de Matemática.
Ao lado de Dean, Le também foi um dos fundadores do Google Brain, a equipe pioneira de pesquisa em IA da empresa, em 2011. Dois anos depois, Vinyals se juntou a esse time que, em 2023, se fundiu a outras áreas de pesquisa da big tech e passou a operar como uma única organização.
Dean, por sua vez, também liderou o desenvolvimento das unidades de processamento de tensores do Google, os chips que alimentam seus modelos de linguagem e outras tecnologias vendidas atualmente para outras empresas.
Já Ghemawat, assim como Dean, também foi um dos primeiros funcionários da big tech. Juntos, eles ajudaram a criar os sistemas distribuídos do Google no início dos anos 2000. E, em 2012, foram reconhecidos pela Association for Computing Machinery por seus trabalhos.
Agora, o quarteto entendeu que era hora de deixar o Google para se dedicar à nova missão. “Queríamos construir algo diferente da forma como as coisas são construídas no Google atualmente”, disse Ghemawat, ao jornal americano.
Ele explicou que a infraestrutura do Google funciona bem para grandes aplicativos voltados ao consumidor, grandes sistemas de busca e de publicidade. Mas que ela tem “requisitos muito diferentes” do tipo de infraestrutura que eles querem construir para pesquisa.
Já Sundar Pichai, CEO da Alphabet, ressaltou que Dean e Ghemawat ajudaram a impulsionar algumas das transições tecnológicas mais significativas, desde a infraestrutura inicial dos serviços de busca até as redes neurais que ajudaram a criar a “era moderna da IA”.
“Em termos pessoais, foi um privilégio trabalhar ao lado de Jeff e Sanjay, e desejo a eles tudo de bom. Continuaremos a trabalhar com eles como investidores e parceiros de nuvem, e a colaborar em uma estrutura de pesquisa para sistemas de aprendizado de máquina e avanços de infraestrutura relacionados”, afirmou Pichai, no comunicado do Google.
O fato é que, elogios à parte, a saída do quarteto engrossa a lista de talentos de ponta em IA que o Google perdeu nos últimos meses. Esse cenário coincide com questões como os atrasos no lançamento de um novo modelo de IA capaz de competir de igual para igual com a OpenAI e a Anthropic.
Após ter avançado nessa corrida com uma versão atualizada do Gemini, o seu modelo de IA, no segundo semestre de 2025, o Google acabou perdendo fôlego para as duas rivais. E, em alguns casos, até mesmo modelos da Meta têm superado a aposta do Google nesse páreo.
Nesse contexto, antes de Dean e companhia, a relação de talentos que deixaram o Google incluiu nomes como Noam Shazeer, que se juntou recentemente à OpenAI. E John Jumper, que trocou a big tech justamente pela Anthropic.