A bola com que Diego Maradona marcou o “gol com a mão de Deus” e o “gol do século” na partida entre Argentina e Inglaterra na Copa de 1986 foi arrematada por US$ 3,35 milhões em um leilão realizado no último dia 22. É muito dinheiro para qualquer mortal, mas quase um “liquida tudo” no novo mercado bilionário de memorabilia esportiva.
A famosa Adidas Azteca valeu menos que a camisa que o próprio argentino usou naquele jogo ou a que Pelé vestiu na final da Copa de 1958, disputada na Suécia.
A ascensão de Lionel Messi, a virada geracional dos colecionadores e a transformação de itens esportivos em ativos financeiros ajudam a explicar por que a bola de Maradona valeu menos do que todo mundo esperava.
A bola ficou com o árbitro daquela partida, o tunisiano Ali Bin Nasser, justamente o homem que não viu a malandragem do baixinho camisa 10 ao usar a mão para ganhar a disputa no alto contra o goleiro inglês Peter Shilton.
Em um intervalo de apenas quatro minutos, a Adidas Azteca esteve no centro de dois dos lances mais célebres da história das Copas do Mundo.
Depois do “gol com a mão de Deus”, aos seis minutos do segundo tempo, Maradona recebeu a bola ainda no campo de defesa, perto da linha do meio-campo. Em uma velocidade impressionante, percorreu 68 metros, driblou cinco adversários, incluindo Shilton, e marcou. Por 2 a 1, a Argentina se classificou para as semifinais.
Quando Bin Nasser resolveu levar a bola a leilão, o mercado já esfregava as mãos. Afinal, aquele confronto nas quartas de final de 1986 não foi só uma partida de futebol: foi um acerto de contas simbólico depois da Guerra das Malvinas e o auge da mitologia de Diego Armando Maradona. Tinha, portanto, ingredientes de sobra para virar recorde.
Obsessão por intimidade
A expectativa era que a Adidas Azteca fosse arrematada por, no mínimo, US$ 6,5 milhões. Mas o valor final da venda promovida pela Heritage Auctions ficou pela metade do esperado. Para quem acompanha de perto o mercado bilionário e hiperativo de ativos alternativos, o valor soou quase como item em promoção relâmpago.
Basta espiar o histórico recente de leilões esportivos para entender o tamanho do contraste. A camisa que Maradona vestiu naquele mesmo jogo passou dos US$ 9,3 milhões na Sotheby's.
O lote de camisas de Messi na Copa de 2022 bateu US$ 7,8 milhões. A camisa de Michael Jordan na final de 1998 superou US$ 10,1 milhões. Até um card de beisebol do lendário Mickey Mantle já foi arrematado por US$ 12,6 milhões (veja na sequência de fotos abaixo).
Nada supera, no entanto, o recorde da camisa de Babe Ruth, astro da equipe de beisebol New York Yankees na década de 1930, a memorabilia esportiva mais cara já vendida em um leilão. Ela foi arrematada por US$ 24,12 milhões em 2024.
Então por que a bola que sintetiza o momento mais icônico do esporte mais popular do planeta saiu tão mais barata? Maradona perdeu prestígio no circuito global do capital esportivo? A supremacia estatística de Messi começou a ofuscar o Pibe de Oro? Ou o que estamos vendo é uma mudança estrutural em como a nova geração de investidores enxerga o esporte?
Para responder, é preciso deixar a nostalgia de lado e olhar a memorabilia esportiva pelo que ela virou: uma classe de ativos dominada por family offices, fundos de private equity e uma elite global de colecionadores que analisa item esportivo como quem analisa balanço trimestral.
Nas contas da consultoria americana Market Research, o mercado de colecionáveis esportivos movimenta US$ 61 milhões por ano, cresce 12,1% a cada ano e deve chegar a mais de US$ 70 milhões na próxima Copa do Mundo, em 2030.
O primeiro motivo pela discrepância de preço está na própria lógica da memorabilia moderna: a obsessão por intimidade, por aquilo que tocou o corpo do ídolo. É por isso que uma camisa vale muito mais do que uma bola.
O mercado dos uniformes de jogo pagou US$ 9,3 milhões pela camisa de Maradona porque aquele tecido carregava suor, poeira e a silhueta do próprio mito. Já a bola, por mais histórica que seja, é um objeto instrumental e impessoal e que ainda ficou décadas guardada num armário na casa do árbitro. Virou uma bola murcha.
Sim, qualquer objeto ligado a Maradona naquele jogo de 1986 tem um peso no registro histórico. No livro Maradona Rebelde con Causa (1996), o jornalista Sergio Levinsky descreve o lance como a jogada que resumiu tudo: a virada argentina, o duelo com o "pirata" inglês, a vitória da astúcia sobre a força:
"Era o gol perfeito, a 'avivada' argentina, a jogada contra o 'pirata', o sonho do pibe, o de vencer pela astúcia. Isto simboliza ao máximo o ponto pela representatividade que adquire este acontecimento [...] Maradona conseguiu fazer com que sua mão fosse imperceptível, o que, mais do que ilegalidade, constituía em legítimo a arte de fazê-lo."
Ele destaca como o próprio Maradona soube, na hora, transformar em arte o que poderia ter sido só uma trapaça descarada. Segundo o livro, ao final da partida o próprio jogador cravou a frase que entraria para a história, atribuindo o gol a uma intervenção divina e jurando não ter percebido que havia tocado a bola com a mão. “Foi com a mão de Deus”, disse.
A "Messificação" do capital esportivo
Maradona morreu em 25 de novembro de 2020, aos 60 anos, após sofrer uma parada cardiorrespiratória em sua casa na cidade de Tigre, na Argentina, em plena pandemia. Sua força e suas lembranças foram sendo ofuscadas à medida que outro camisa 10 brilhava com a seleção Argentina. A ascensão de Messi ao topo absoluto do futebol, coroada com o título mundial no Catar em 2022, reconfigurou de forma silenciosa o apetite dos compradores.
Messi bateu os recordes de Maradona em gols, jogos, participações em copas, assistências, presença em finais. E o público que consome futebol mudou radicalmente.
O capital que hoje movimenta leilões em casas como Sotheby's, Christie's e Heritage vêm, em boa parte, de jovens executivos de tecnologia, gestores de fundos cripto, investidores asiáticos e herdeiros de fortunas que cresceram assistindo à rivalidade Messi x Cristiano Ronaldo. Para esse público, a régua de "grandeza" mudou de figura.
Diego Maradona é um mito analógico. Lionel Messi é um produto genuinamente digital, hipermensurável, transmitido em alta definição para bilhões de telas pelos smartphones.
A narrativa de Maradona vinha carregada de tragédia, caos e contradições, o que não combina com as marcas preocupadas com os riscos de imagem. Messi, ao contrário, representa consistência, profissionalismo e uma globalização impecável.
O lote de seis camisas que Messi usou em 2022 vendido por US$ 7,8 milhões mostra um mercado que hoje prefere a eficiência ao caos genial. Maradona não perdeu relevância histórica, mas só encontrou um teto de comprador mais estreito diante da liquidez global que cerca o nome de Messi.