A crise diplomática entre Brasil e Argentina, sem precedentes na história da relação bilateral, fez soar um alerta no setor automotivo dos dois países, cujas cadeias produtivas são profundamente integradas e movimentam mais de US$ 5 bilhões por ano.

Cerca de 60% dos carros vendidos no mercado argentino são fabricados no País, enquanto 67% dos veículos exportados pela Argentina têm o Brasil como destino. Se a crise escalar para o terreno comercial, é esse setor, incluindo o de autopeças, que tende a se ressentir primeiro - e com dano assimétrico em desfavor da Argentina.

A Argentina é atualmente o terceiro maior parceiro comercial do Brasil (US$ 31 bilhões em 2025), embora bem atrás da China (US$ 171 bilhões) e dos Estados Unidos (US$ 83 bilhões).

O Brasil responde por 14,5% de todas as exportações argentinas, bem mais do que no caminho inverso - a participação do país vizinho nas exportações brasileiras chegou a 5,2% no ano passado, o maior patamar desde 2018.

Dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) mostram que, no total, as exportações brasileiras para a Argentina somaram US$ 18,1 bilhões em 2025, crescimento de 31,4% em relação ao ano anterior. Além do setor automotivo, o comércio bilateral abrange também máquinas, equipamentos, produtos químicos e commodities.

Como o Brasil e a Argentina têm um acordo automotivo que beneficia as duas indústrias, a maior parte das exportações de ambos os países envolve carros, caminhões e autopeças.

Neste sentido, a crise diplomática recente causou uma nova camada de preocupação – tanto a indústria automotiva argentina quanto a brasileira já vinham sofrendo com outro problema de peso, a invasão de carros elétricos chineses.

Diplomatas e empresários dos dois países, além de especialistas ouvidos pelo NeoFeed, porém, afirmam que a troca de farpas diplomáticas tende a ter repercussão econômica limitada no curto prazo, até porque ambos os governos sinalizam querer manter as divergências no campo político.

Frederico Favacho, sócio do escritório Santos Neto Advogados e especialista em Direito Internacional, observa que as críticas do presidente Javier Milei ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva e ao ministro do STF Alexandre de Moraes não tiveram respaldo dos empresários argentinos.

“É essencial não dar importância demasiada a esse factoide diplomático, o momento atual é interessante por mostrar a importância de um país para o outro”, afirma Favacho. “O setor automotivo dos dois países é interdependente e ambos enfrentam a concorrência chinesa que vai além de carros e autopeças, abrangendo também máquinas agrícolas.”

“Fator China”

Na prática, o chamado “fator China” preocupa mais a indústria automotiva de Brasil e da Argentina do que escaramuças diplomáticas bilaterais.

No agregado das exportações brasileiras para a Argentina (todos os setores), houve queda de 19,4% no primeiro semestre deste ano em relação ao mesmo período de 2025, mas o setor automotivo foi o mais afetado - as exportações brasileiras de veículos de passageiros para a Argentina caíram 28,2% de janeiro a junho deste ano.

Além disso, as exportações de autopeças para o mercado argentino — que compõem outra parte relevante da cadeia automotiva — despencaram 22,7% no mesmo período. A Argentina é responsável por cerca de 30% das exportações brasileiras de autopeças, o que amplifica o impacto da retração.

Essa queda está ligada à forte contração da indústria automotiva argentina, cuja produção recuou 19,3% no semestre.

Parte desse recuo é atribuída à abertura das importações do governo Milei, que criou uma cota de 50 mil unidades por ano para entrada de veículos elétricos e híbridos com tarifa zero do exterior, sendo que metade pode vir de marcas da China. O governo também facilitou a entrada de autopeças sem necessidade de validação extra de selos de segurança e meio ambiente.

Apesar do avanço chinês, Andrés Civetta, economista da consultoria argentina Abeceb, também não acredita que a rusga diplomática afete os fluxos comerciais do setor automotivo dos dois países.

“O Brasil é e continuará sendo o principal parceiro da Argentina no setor automotivo”, assegura Civetta ao NeoFeed. Segundo ele, fora dessa cota de veículos elétricos, o setor automotivo argentino não acredita que haverá um fluxo maior de veículos de origem chinesa deslocando a oferta brasileira.

“Pode haver uma pequena perda de participação dos veículos brasileiros no mercado argentino, mas isso não se deve a condições diplomáticas ou à relação entre os dois países, e sim a uma questão de mercado”, acrescenta Civetta.