O governo federal anunciou na quarta-feira, 29 de julho, a liberação de R$ 1,3 bilhão do Orçamento especificamente para combater os possíveis efeitos do El Niño – fenômeno climático marcado pelo aquecimento anormal das águas do Pacífico Equatorial, que deve chegar com força no País no segundo semestre.

A perspectiva de um "super El Niño", uma versão ainda mais forte do fenômeno climático, prevista para setembro, elevou a preocupação do governo com a redução das chuvas em parte das regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste e com o aumento do risco de incêndios florestais na Amazônia, no Cerrado e na Caatinga.

A maior parte da verba, cerca de R$ 1 bilhão, será destinada a ações nas áreas de abastecimento de alimentos, segurança alimentar, saúde e monitoramento hidrológico.

Os R$ 337 milhões restantes já eram de conhecimento desde a semana passada e correspondem ao crédito extraordinário aberto por medida provisória (MP) para o Ministério do Meio Ambiente financiar ações de prevenção e combate a incêndios florestais, além de reforçar a fiscalização ambiental.

Reportagem do NeoFeed publicada no início da semana mostrou que o Brasil ainda carece de políticas públicas consistentes de longo prazo para enfrentar eventos climáticos extremos, como o El Niño.

Relatório divulgado pelo Tribunal de Contas da União (TCU), citado na reportagem, mostra que, desde 2012, a União gastou cerca de três vezes mais com ações de resposta e recuperação - após inundações e deslizamentos, o equivalente a R$ 21,5 bilhões - do que com medidas para preveni-los (R$ 6,8 bilhões).

Somando todas as pastas, a atual gestão federal destina cerca de R$ 20 bilhões por ano em ações ligadas às mudanças climáticas. Relatório do Banco Mundial divulgado em fevereiro, porém, afirma que apenas as perdas anuais por desastres naturais no Brasil somam R$ 19,5 bilhões.

Ao fazer o anúncio da liberação de R$ 1,3 bilhão, a ministra da Casa Civil, Miriam Belchior, disse que o governo deverá comprar 301 mil toneladas de arroz e 180 mil toneladas de milho para fazer frente à possível falta desses produtos.

"Com essas chuvas, há risco de quebra de safra no Rio Grande do Sul", afirmou a ministra. Além disso, o governo antecipou a distribuição de 160 mil cestas básicas e ampliou para 350 mil o total de cestas destinadas a povos indígenas, quilombolas, ribeirinhos e outros grupos vulneráveis.

Em amplo relatório divulgado na quarta, 29, no qual avalia as potenciais consequências do El Niño, a XP adverte que a inflação de alimentos deve acelerar a partir do quarto trimestre, à medida que as disrupções climáticas afetam a produção agrícola.

Do lado da atividade econômica, o impacto sobre o crescimento deve ser mais limitado. De acordo com a XP, preços mais altos de alimentos podem atrasar o processo de desinflação e manter as condições monetárias apertadas por mais tempo.

Exposição geográfica

Com 35 páginas, o relatório do banco de investimento analisa os efeitos do El Niño em vários setores, como agro, alimentos & bebidas, utilities, transportes e varejo. Todos estão expostos, criando tanto riscos quanto oportunidades de investimento, dependendo da exposição geográfica e do modelo de negócios.

No setor de utilidade pública, por exemplo, o banco vê efeitos potencialmente positivos: “Chuvas acima da média sobre a bacia do Sul/Paraná reabastecem Itaipu e os reservatórios do Sudeste e Centro-Oeste, com cerca de 70% do armazenamento, tendem a pressionar para baixo o PLD”, diz o relatório, referindo-se ao Preço de Liquidação das Diferenças, preço da energia no mercado de curto prazo do setor elétrico brasileiro.

Por outro lado, adverte o estudo, as implicações para a inflação de alimentos no Brasil são relevantes, porém, não devem ser superdimensionadas.

Nesse aspecto, os analistas da XP fazem duas ressalvas. Na primeira delas, a magnitude do impacto dependerá das condições de contorno macroeconômicas — trajetória da taxa de câmbio, preços de diesel e de fertilizantes, além do ciclo da atividade doméstica.

“Em episódios passados, esses fatores frequentemente dominaram o efeito climático; se a taxa de câmbio seguir no patamar atual, o impacto líquido sobre alimentos pode ser significativamente menor do que a simples extrapolação das estatísticas climáticas”, diz o relatório.

Outra ressalva diz respeito à reversão de preços prevista pelos modelos após o pico do El Niño, que de acordo com o estudo raramente se materializa de forma limpa no agregado: “Em 3 de 4 episódios históricos, a inflação de alimentação no domicílio continuou subindo nos trimestres seguintes ao pico do El Niño.”

Do lado da atividade econômica, o El Niño tende a impactar os resultados do PIB da Agropecuária. Na visão dos analistas da XP, a expectativa de alta intensidade do fenômeno climático deve derrubar a produtividade das principais safras do Brasil –estimativa em linha com a previsão do governo federal.

“Segundo nossos cálculos, a produtividade média das culturas agrícolas pode declinar cerca de 3% em comparação a um cenário sem anomalia climática”, diz o estudo. “Com isso, o PIB da Agropecuária contrairia em 2027 entre 1% e 2%”, estima a XP.

A inflação de alimentos, por sinal, deve causar o impacto mais direto do El Niño sobre o varejo. “Safras menores devem reduzir a oferta, enquanto insumos mais caros devem pressionar ainda mais as commodities agrícolas, com o repasse mais rápido aparecendo em produtos frescos e itens mais expostos a fertilizantes e petróleo, como carnes, laticínios, panificados e óleos comestíveis”, diz o estudo.

“Um inverno mais ameno no Sul, por outro lado, favorece o vestuário, enquanto o Sul/Sudeste mais úmido e quente eleva a demanda por farmácias impulsionada pela dengue”, prossegue o relatório ao se referir ao varejo.

No setor de transportes, os analistas da XP veem a Rumo e a Hidrovias do Brasil como as empresas mais expostas aos efeitos relacionados ao El Niño, dada a sua exposição relevante ao transporte de grãos e as potenciais implicações para as safras de soja e milho 2026/27.

Para a Hidrovias do Brasil, o El Niño pode ter implicações negativas. “Nas Operações Norte, o menor volume de chuvas pode afetar as condições de navegação no rio Tapajós no quarto trimestre, pressionando potencialmente volumes e margens”, diz um trecho do relatório.

Nas Operações Sul, prossegue o relatório, os anos recentes de El Niño mostraram calados mais baixos na hidrovia Paraguai–Paraná: “Isso cria riscos potenciais de navegabilidade para as operações de minério de ferro da HBSA, que são a principal exposição na região.”

Para a Rumo, a expectativa é inversa. “Vemos a companhia como provável beneficiária, já que condições mais secas no Norte podem restringir um dos seus principais corredores concorrentes de exportação de grãos”, prevê o estudo. “Isso pode sustentar um melhor ambiente de preços, em função da menor capacidade logística e de maiores volumes, especialmente com o ramp up do seu primeiro terminal em Lucas do Rio Verde.”