O dólar já caiu cerca de 35 centavos em relação ao real desde o início de 2026, acumulando uma queda próxima de 7% — e ainda há espaço para cair mais.
A projeção é de Alfredo Menezes, sócio-fundador e CEO da Armor Capital e um dos traders mais respeitados do mercado brasileiro. Sua casa, com cerca de R$ 1,7 bilhão sob gestão, é especialista em investimentos em ativos ligados à macroeconomia, como juros e câmbio.
“Acho que o real é o melhor ativo do Brasil, porque tem melhorado muito o fluxo de dólar. Não só o preço do petróleo, mas o investimento da China está vindo bombando. E ainda tem a Selic de 14,25%, que ainda é monstruosa”, afirma ele em entrevista ao NeoFeed.
Ex-chefe da tesouraria do Bradesco, Menezes é conhecido no mercado como “Mão de Ferro” — apelido que ganhou pela forma como operava o dólar na época de banco.
O efeito sazonal, que geralmente derruba o preço do real no segundo semestre, segundo Menezes, deverá ser bem mais fraco este ano por um fator atípico.
Isso, explicou, se deve ao efeito da Lei 15.270/2025, que passou a cobrar 10% de Imposto de Renda Retido na Fonte (IRRF) sobre remessas de lucros e dividendos ao exterior e que levou muitas empresas a anteciparem o envio de remessas.
Por outro lado, Menezes se diz pessimista com a bolsa de valores e acredita que os múltiplos relativamente baixos do mercado local são reflexo do juro real elevado — consequência do desarranjo fiscal.
“São poucas empresas que conseguem pagar um juro de 20% ao ano (considerando os spreads). A tendência é aumento de inadimplência a médio e longo prazo, principalmente em empresas de capital intensivo”, afirma.
O gestor acredita que setores como os de infraestrutura, construção, alimentação e agronegócio podem estar entre os mais comprometidos pelo nível da Selic, que, segundo ele, deve estacionar em 14%, sem qualquer perspectiva de um ciclo longo de cortes.
Para a política monetária americana, sua projeção é de duas altas de 0,25 p.p. até o fim do ano. Mas acredita que o cenário pode ficar ainda mais complexo se o partido de Donald Trump sair derrotado nas eleições de meio de mandato do Congresso e decidir intensificar a guerra contra o Irã. Nesse caso, diz, o mundo todo sairia perdendo, com mais juros e inflação.
Leia, a seguir, os principais trechos da entrevista.

O Tesouro tem reduzido as emissões de NTN-B e chegou a cancelar um leilão no mês passado. Deve seguir nesse ritmo mesmo?
Deve tirar o pé da LTN e NTN-B. Até porque agora não é mais questão de preço. Você não tem demanda mesmo. Se ele insistir em vender mais LTN e NTN-B do jeito que está o mercado, vai deteriorar de tal forma que cada vez vai ser mais difícil. O que não é certo é ter um monte de papel isento competindo. É uma grande burrice. Seria muito melhor o governo dar um subsídio para alguns setores. Sairia muito mais barato do que deixar isento para rodar.
Tem algum efeito de atuação do Tesouro para recomprar títulos de NTN-B no mercado para baixar a taxa?
Acho que ele só entra se der branco no mercado. Mas é pontual. Não vai resolver o problema, até porque o risco sistêmico é muito grande. Pode comprar, mas não resolve a longo prazo. É uma aspirina para quem está doente. O que resolve é um ajuste fiscal, que acho que não vai ter. Acho que a insegurança no mercado só tende a aumentar.
E quais as consequências para o mercado? Esse nível de taxa tende a travar o mercado de crédito?
São poucas empresas que conseguem pagar um juro de 20% ao ano (considerando os spreads). São pouquíssimas que conseguem ter esse dinheiro. A tendência é aumento de inadimplência a médio e longo prazo, principalmente em empresas de capital intensivo.
"Aqui no Brasil não acho que sobe [a taxa de juros]. O BC vem com mais um corte de 0,25 ponto percentual (p.p.) e para"
Quais setores, por exemplo?
Infraestrutura, construtoras, empresas de alimentação. E acho que o agro vai ceder bastante — a própria subida de preços de fertilizantes. O pessoal não está capitalizado e não aguenta essa taxa de juros.
Taxa de juros sobe?
Aqui no Brasil não acho que sobe. O BC vem com mais um corte de 0,25 ponto percentual (p.p.) e para. Não vejo subindo mais os juros, até porque subir agora vai dar mais clima de desconfiança fiscal do que efeito na curva de juros longa. A curva de juros já subiu muito, então já fez o trabalho do Banco Central.
Lá fora sobe?
Sobe. Acho que são duas de 0,25 p.p. até o fim do ano — porque eu espero que o conflito seja mais demorado (nesta quarta-feira, 29 de julho, o Fed manteve a taxas de juros nos EUA). Se o Trump tiver preocupado com as eleições, com o Congresso, com o Senado americano, não gostaria de ver a bolsa lá para baixo e o petróleo lá embaixo. Mas isso tem que ser meio breve, porque ele já subiu tudo do país. Mas, se não tiver nada a perder, acredito que ele vai estrangular economicamente o Irã.
Aí a economia global sofre junto?
Mais inflação, mais juros.
E bolsa do Brasil, qual é a perspectiva?
Sou mais pessimista. Existe a perspectiva de que a bolsa do Brasil está barata em relação às outras ao redor do mundo, mas com preço sobre o lucro (P/L) de 9 a 10 enquanto os EUA tá em 20. Só que aqui o juro real é 9 pontos percentuais, lá nos EUA é 2 pontos percentuais. Isso justifica os múltiplos diferentes. Mas sinto o mercado mais otimista em bolsa; eu estou mais pessimista.
"Sinto o mercado mais otimista em bolsa; eu estou mais pessimista"
Tem algum setor que salve?
Tem a Petrobras, que está em um setor que vai ter um fluxo maior neste ano. Não estou acreditando em alternância de poder, então para mim prefiro ficar de fora da bolsa.
Dólar para cima então?
O preço do petróleo melhorou em R$ 20 bilhões a balança. A parte de investimento direto está muito boa, e é normal em novembro ou dezembro ter um fluxo de saída muito grande. Mas este ano será atípico, por causa da mudança de tributação para o ano que vem — muita gente antecipou essa remessa. Então, não acredito que seja dólar para cima. Pode ter alguma [alta], mas não vejo subir muito, até pelo tamanho da taxa de juros.
Mesmo com os EUA subindo, o câmbio ainda se sustenta?
Acho que o real é o melhor ativo do Brasil, porque tem melhorado muito o fluxo de dólar. Não só o preço do petróleo, mas o investimento da China está vindo bombando. E ainda tem a Selic de 14,25%, que ainda é monstruosa.
Está vendido em dólar?
Ultimamente não faço dólar contra real. Faço real contra peso mexicano. Então, estou comprado no real e vendido no euro e no peso mexicano. Dificilmente opero real seco.
Por quê?
Quando faço isso, não estou exposto diretamente ao dólar. Mas como estou no real, então, indiretamente, estou [exposto em dólar].