Considerada pelo mercado como a “joia da coroa” da Compass, do grupo Cosan, a Edge, pioneira no mercado livre de gás natural liquefeito (GNL), tem um plano traçado para capturar oportunidades de fornecimento a indústrias a partir da distribuição muito além dos gasodutos disponíveis no Brasil, que ainda têm baixa cobertura.
Para isso, a empresa decidiu investir cerca de R$ 2 bilhões em sua própria infraestrutura, para garantir o abastecimento do GNL por meio de envio em caminhões e ampliar a oferta ao setor industrial. Hoje, a companhia tem 70 clientes em 11 estados, de oito setores da indústria - atende, por exemplo, a Vale e a Saint-Gobain.
O maior volume deste investimento - cerca de R$ 1 bilhão - foi aportado na construção do terminal de regaseificação de GNL de São Paulo (TRSP), um navio de 294 metros de comprimento que fica ancorado no porto de Santos, envia o produto via balsas, que depois é transferido para os caminhões, até o cliente final.
O gás fica armazenado a uma temperatura de -163 graus Celsius, para reduzir seu volume em cerca de 600 vezes. A autorização para realizar esta modalidade foi dada pela Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) em janeiro deste ano.
A Edge é uma subsidiária da Compass, companhia que também é dona da Comgas e da Commit Gás e que ealizou IPO na B3 em 11 de maio deste ano.
A aposta dos analistas financeiros na empresa de GNL está justamente na avenida de crescimento desenhada a partir de um novo mercado para o setor, e que foi só implementado há dois anos – a Edge foi a primeira a atuar no segmento, com o primeiro contrato assinado em julho de 2024.
“Este ciclo de investimentos já trouxe resultados para a companhia. Estamos expandindo o mercado off grid [fora da rede de gasodutos]. A empresa tem muita ambição a partir das oportunidades que ainda vão surgir”, diz Demétrio Magalhães, CEO da Edge, em entrevista ao NeoFeed.
O avanço do abastecimento pelo modal rodoviário é estratégico justamente pelo gargalo hoje vivido pelo setor, ainda que ele esteja em franco crescimento. Não há muitas rotas de envio via dutos no Brasil, o que trava o avanço do GNL de forma direta.
Segundo dados da Associação Brasileira das Empresas Distribuidoras de Gás Canalizado (Abegás), a rede de distribuição hoje no país é de apenas 47 mil quilômetros de extensão, sendo que 76% (36,1 mil quilômetros) destes dutos estão na Região Sudeste. Hoje, o volume industrial no mercado livre de gás natural está em 15 milhões de m³ por dia.
Mas o maior problema está no volume de gasodutos de transporte, que é aquela etapa final, que faz com que o gás chegue, de fato, nas empresas. Este ramal é de apenas 9,4 mil quilômetros no Brasil. Para se ter uma ideia, os Estados Unidos têm 480 mil quilômetros de gasodutos, 51 vezes mais do que a infraestrutura brasileira.
Na prática, só 5% do mercado brasileiro consegue ter acesso aos gasodutos. Em São Paulo, por exemplo, a penetração não alcança 30%. Por isso que o modelo off grid, com os caminhões, se tornou uma alternativa da Edge para crescimento geográfico e de geração de receita. Mas também há limites operacionais, principalmente em relação à autonomia do caminhão e o custo do combustível.
O transporte rodoviário com o GNL consegue atender a um raio de 1,2 mil quilômetros, a partir de Santos. Isso significa que é possível entregar o produto a cidades do sul da Bahia, parte do Paraná e de Santa Catarina, Centro-Oeste, além de todo o Sudeste.
De qualquer forma, na visão do CEO da Edge, esse traçado rodoviário deve servir como parâmetro de alta demanda para que as distribuidoras possam ampliar os investimentos estruturais do setor.
“Por isso que há muito espaço para continuar as construções de redes de transporte e distribuição. Na hora que levo o GNL para o cliente que não é atendido por gasodutos, começo a justificar investimentos em gasodutos. É uma forma de ampliar a cultura do mercado de gás natural, que é muito competitivo”, afirma Magalhães.
Em julho deste ano, a empresa alcançou a marca de 500 caminhões enviados para a LD Celulose, no Triângulo Mineiro, em seis meses. No período, foram movimentados 16 milhões de m³ de GNL.
Além do terminal de Santos, a companhia iniciou recentemente a operação da planta de purificação de biometano, em Paulínia, no interior de São Paulo. Hoje em fase de ramp up, a unidade recebeu aportes de R$ 450 milhões, a maior parte via Fundo Clima, do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).
Fato é que a ampliação da operação no mercado livre de GNL da empresa, que tem Ometto como presidente do conselho de administração, ocorre justamente no momento em que a Cosan enfrenta uma crise de endividamento.
Nos últimos meses, a holding de Ometto realizou uma série de ações, como realizar mudanças nos conselhos das suas empresas, vender sua participação na Vale, buscar recursos no mercado para diminuir o endividamento e, entrar com pedido de recuperação extrajudicial da Raízen, a maior da história, que tem R$ 65 bilhões em dívidas.
Neste sentido, o próprio IPO da Compass, que levantou R$ 3,2 bilhões, a partir do lote principal (R$ 2,8 bilhões) e de extras, conseguiu garantir um volume expressivo para o caixa da Cosan - a participação consolidada do grupo equivale a 76,18% das ações. A abertura da capital foi a primeira na B3 após cinco anos.
“Uma abertura de capital apresenta novas fontes de financiamento. E, para um grupo em crescimento, é sempre interessante. A Edge sempre vai buscar as melhores formas de financiamento para o nosso plano de expansão”, afirma o CEO.
O erro de precificação
Se no asfalto a operação já mostra tração, na Faria Lima o potencial da empresa ainda está por ser totalmente descoberto. Recentemente, cinco grandes bancos de investimento - BTG Pactual, Citi, Itaú BBA, Bradesco BBI e J.P. Morgan - iniciaram a cobertura das ações da Compass com recomendação de compra, projetando uma valorização de até 49% nas ações.
Em relatório, o Citi classificou como um “erro do mercado” a precificação da Edge, ignorando seu papel de catalisadora de crescimento da holding, com potencial para multiplicar seu volume comercializado de 6 milhões para 22 milhões de m³/dia até 2030.
“Uma importante fonte de potencial de valorização reside no segmento Edge da subsidiária Compass, já que, em nossa opinião, o mercado está atribuindo pouco valor a esse segmento atualmente”, diz relatório do Citi.
Na visão do banco, a bolsa tem precificado a Compass focando excessivamente nas suas concessões de distribuição tradicional por dutos (como a Comgás) - o que o BTG define como um negócio “entediante, mas excelente” pela geração previsível de caixa.
Os números operacionais ajudam a dar suporte à tese dos bancos. No primeiro trimestre, a Edge registrou um Ebitda de R$ 187 milhões, alta de 36% em relação ao mesmo período do ano anterior, impulsionado por um volume de comercialização de 416 milhões de m³ de gás.
A reavaliação da Edge no mercado financeiro tem efeito direto no plano de voo da Cosan, holding liderada por Rubens Ometto. Em um momento no qual o conglomerado busca alternativas para reduzir o endividamento e acelerar sua desalavancagem, o destravamento de valor da subsidiária vira peça-chave.
O reconhecimento do mercado gera dois efeitos imediatos para a matriz: primeiro, reduz o desconto histórico aplicado às ações da Cosan ao repaginar o valor patrimonial de seu principal ativo.
Segundo, a combinação entre a estabilidade da distribuição e a expansão acelerada do modelo off grid da Edge sustenta projeções de dividend yield próximas a 9% ao ano para a Compass - proventos que irrigarão diretamente o caixa da Cosan.
Para o BTG Pactual, o ponto-chave do IPO da dona da Edge foi contribuir para a redução da dívida líquida da Cosan. A empresa encerrou o primeiro trimestre com dívida bruta de R$ 15,2 bilhões e caixa de R$ 7,7 bilhões, resultando em dívida líquida de R$ 7,5 bilhões.
“Embora a avaliação tenha ficado abaixo das expectativas iniciais do mercado, a transação trouxe benefícios importantes. Ela atribuiu um valor de mercado ao maior ativo da holding, ajudando os investidores a avaliar melhor o desconto da participação da Cosan”, diz o relatório do BTG.
Magalhães aponta a resiliência do novo mercado, justamente no período em que a ampliação precisou enfrentar os desafios causados por duas guerras desde 2024: a da Ucrânia e da Rússia, e a dos Estados Unidos contra o Irã.
Com os preços mais altos do petróleo, e com a oportunidade de diversificação da matéria-prima, a companhia conseguiu crescer mesmo com a volatilidade do mercado internacional. A empresa hoje recebe gás natural de várias origens, como da Argentina, Bolívia, e da bacia do pré-sal, no Brasil.
Os investimentos realizados, somados às oportunidades a partir de um mercado estressado, fez com que o volume de comercialização registrasse alta de 27% no primeiro trimestre. No período, a empresa vendeu 416 milhões de m³, contra 317 milhões de m³ comercializados sobre a mesma base do ano anterior.
Desde que abriu o capital, a Compass acumula queda de 7,9% na B3. O valor de mercado da dona da Edge e da Comgas é de R$ 18 bilhões.