Depois de chegar a um acordo com os credores para avançar com a maior recuperação extrajudicial da história corporativa brasileira, a Raízen segue reduzindo seu portfólio de ativos, de olho em aliviar sua situação financeira.
A companhia anunciou na segunda-feira, 20 de julho, um contrato para vender a Usina Caarapó, localizada no município de Caarapó (MS), para a Adecoagro Vale do Ivinhema, por R$ 760 milhões, valor que será pago à vista na data de fechamento da operação.
A operação inclui a cessão da cana-de-açúcar própria e dos contratos com fornecedores vinculados à unidade, que processou cerca de 3,5 milhões de toneladas de cana na safra 2025/26. O fechamento da transação está condicionado à aprovação do Cade e ao cumprimento das demais condições contratuais.
A operação integra um movimento da Raízen para ajustar seu portfólio, tendo a venda de ativos como um dos pilares do plano de recuperação da companhia, que considera uma alavancagem financeira entre 2,0 e 2,5 vezes como o nível ideal. No terceiro trimestre do ano-safra 2025/26, encerrado em dezembro, a relação entre dívida líquida e Ebitda atingiu 5,3 vezes.
A principal venda realizada pela companhia foi a dos ativos na Argentina, anunciada no começo de junho. A empresa acertou o repasse das operações de downstream (refino e comercialização de combustíveis) para a Latam Downstream Holdings e a Silver Projects I, sociedades controladas pela Mercuria Energy Group, multinacional suíça de comércio de commodities, por US$ 1,42 bilhão.
O segmento de açúcar e etanol também tem colaborado para o plano de desinvestimento, com a Raízen reduzindo o número de usinas sob sua gestão. Com isso, a companhia passou a contar com 23 unidades, com capacidade de moagem estimada em 69 milhões de toneladas por safra.
Entre as operações envolvendo ativos agroindustriais estão a venda da Usina de Leme, em maio do ano passado, por R$ 425 milhões, e das usinas de Rio Brilhante e Passa Tempo, também em 2025, em uma operação que totalizou R$ 1,54 bilhão.
Considerando todas as vendas realizadas até o terceiro trimestre do ano-safra 2025/26, que incluem ativos não core, como as usinas de geração distribuída, mas não contabilizam a operação com os ativos argentinos, a Raízen conseguiu injetar aproximadamente R$ 5 bilhões em caixa.
As vendas e a reestruturação das operações, por si sós, não são suficientes para resolver os problemas da empresa, que ainda precisa de uma injeção de capital.
No começo de junho, a Raízen apresentou um plano de recuperação extrajudicial para reestruturar cerca de R$ 65 bilhões em dívidas. Em linhas gerais, a proposta prevê que a Shell realizará um aporte de R$ 3,5 bilhões, correspondente ao valor da conversão de 45% da dívida em ações, enquanto a Aguassanta Investimentos, da família de Rubens Ometto, poderá aportar outros R$ 500 milhões.
O plano prevê a conversão de 45% da dívida total reestruturada em ações, ao preço de R$ 0,25 por papel, e de 55% da dívida total reestruturada em novos instrumentos de dívida, alocados entre a Raízen Combustíveis e a Raízen Energia.
A Raízen elaborou também duas alternativas de pagamento. Em uma delas, a empresa propõe um deságio de 80% sobre o valor do crédito sujeito à reestruturação, com pagamento em parcela única, vencível em 31 de março de 2047.
Na outra, está previsto o pagamento em caixa equivalente ao menor valor entre 75% dos respectivos créditos ou R$ 9.750,00, sujeito a um limite agregado de R$ 150 milhões.
Em meados de junho, a Raízen informou que o plano contava com o apoio de credores que representam 80,1% dos créditos a serem reestruturados.
As ações da Raízen fecharam o pregão de sexta-feira, 17 de julho, cotadas abaixo de R$ 1. No ano, os papéis acumulam queda de 63,7%, reduzindo o valor de mercado da companhia para R$ 394 milhões.