O prospecto do IPO da Shein responde várias perguntas que o mercado faz há anos sobre a empresa chinesa de fast fashion. Ele revela desde os números da “caixa-preta” financeira da companhia até o que ela pretende ser nos próximos anos.
Em cerca de 700 páginas, o texto mostra que a receita líquida no ano passado foi de US$ 41,8 bilhões, para um lucro líquido de US$ 2,06 bilhões. Esses números vieram de 273 milhões de clientes ativos distribuídos por aproximadamente 160 mercados.
Com um caixa de US$ 4,5 bilhões e aplicações financeiras de quase US$ 10 bilhões no fim de 2025, a Shein pretende levantar entre US$ 2 bilhões e US$ 3 bilhões para um valuation de US$ 40 bilhões a US$ 50 bilhões - bem abaixo dos cerca de US$ 100 bilhões de rodadas privadas anteriores.
Se a partir do conhecimento desses números, que eram guardados a sete-chaves, investidores passam a fazer as contas da capacidade de a empresa que reinventou o fast fashion continuar entregando resultados, a tese para o IPO em Hong Kong vai além.
A partir da abertura de capital, a Shein quer ser vista como uma empresa de tecnologia. A ideia da empresa chinesa é convencer os investidores de que seu negócio deixou de ser apenas vender roupas e está em transformação para uma plataforma tecnológica que opera uma infraestrutura global que conecta fornecedores, marcas e consumidores.
Na visão da Shein, essa é uma maneira de mexer nos múltiplos que o mercado está disposto a pagar por ela, afinal, empresas de varejo negociam com múltiplos mais modestos que as de tecnologia.
Ao mostrar que sua plataforma oferece mais de 2 milhões de produtos e adiciona, aproximadamente, 4,7 mil novos modelos por dia em uma cadeia de suprimentos de mais de 7,5 mil fabricantes (a maioria na China), a Shein dedica muitas linhas do prospecto para se mostrar o seu modelo operacional.
Chamado de LATR (Large-scale Automated Test and Reorder), o texto explica que esse sistema utiliza dados em tempo real para lançar pequenos lotes de produtos, medir instantaneamente a reação dos consumidores e só então ampliar a produção dos itens vencedores.
É com base nessa engrenagem que a Shein diz reduzir estoques, acelerar o giro das coleções e responder às tendências praticamente em tempo real.
Guardadas as devidas proporções, é o mesmo que outras redes de varejo de moda também fazem. Mas, para a Shein, o seu diferencial de crescimento é o Xcelerator Programme, uma iniciativa criada para oferecer sua estrutura tecnológica, logística, de desenvolvimento de produtos e de cadeia de suprimentos para outras marcas.
Essa terceirização, que a Shein classifica de tecnológica, teria margem operacional aproximadamente duas vezes superior à margem consolidada do grupo.
Mas o Xcelerator Programme ainda é um ponto pequeno no presente da Shein. O prospecto mostra que essa vertical representou 1% da receita líquida em 2025 e também no primeiro trimestre de 2026.
Mercados globais
Ao mesmo tempo em que tenta vender eficiência produtiva como outras gigantes da tecnologia na sua precificação, a Shein explica no prospecto por que está ficando "menos chinesa".
A estrutura jurídica da companhia está espalhada por Singapura, Irlanda, Estados Unidos, Reino Unido, Emirados Árabes e Ilhas Cayman.
Em paralelo a essa “deschinização” da organização, os mercados emergentes ganharam importância crescente na estratégia da companhia em meio ao aumento das tarifas e ao custo regulatório crescente - principalmente nos EUA e Europa.
Embora o documento não destaque países específicos como pilares de expansão, o Brasil se tornou um dos mercados mais relevantes para a empresa fora da Ásia.
Em relatório recente, o BTG Pactual afirmou que a tendência é que, com a entrada de mais recursos financeiros, a plataforma chinesa de fast fashion ganhe ainda mais vantagem, em termos de preço sobre as varejistas nacionais, como Renner, C&A e Riachuelo.
“A transação deve reforçar a importância estratégica de uma das plataformas de moda que mais crescem no País. A Shein continua a manter uma vantagem significativa de preço de dois dígitos em relação às varejistas de vestuário brasileiras listadas em bolsa”, escreveram os analistas Luiz Guanais, Yan Cesquim e Beatriz Cendon.
Nos últimos anos, a Shein acelerou a nacionalização de sua operação, ampliou a produção com fornecedores brasileiros, estruturou centros logísticos locais e passou a competir diretamente com varejistas nacionais, ao mesmo tempo em que buscava reduzir riscos regulatórios e logísticos associados ao comércio internacional.
Na visão do BTG, a empresa conseguiu se adaptar ao cenário estabelecido no Brasil em 2024, com a implementação da “taxa das blusinhas”, que consistia na aplicação de um imposto de importação de 20% para compras de até US$ 50.
Como fatores de risco, a Shein, dedica dezenas de páginas dos prospecto às mudanças tarifárias, tensões geopolíticas, regulamentações comerciais, questões relacionadas à cadeia de fornecedores e a investigação conduzida pela Federal Trade Commission (FTC).
No documento não se sabe o que a FTC está investigando, apenas que é a primeira vez que essa informação vem a público.
“Estamos cooperando ativamente com a FTC (...) Embora seja possível que cheguemos a um acordo com a FTC em relação à investigação, atualmente não podemos prever o provável resultado da investigação e o momento em que esse resultado ocorrerá, e não podemos descartar que tal resultado possa ocorrer em breve”, escreveu Shein.
“O resultado da investigação, seja por meio de um acordo ou de outra forma, pode exigir que façamos pagamentos monetários significativos, o que poderia ter um efeito adverso relevante em nossa situação financeira e resultados operacionais”, complementou a empresa.
A expectativa é que o IPO da Shein na bolsa de Hong Kong aconteça entre o fim de agosto e o início de setembro deste ano.