Depois de tentativas sem sucesso em Nova York e Londres, a varejista de fast fashion online Shein finalmente caminha para chegar à Bolsa. Após quase dois anos, a companhia recebeu a aprovação da Comissão Reguladora de Valores Mobiliários da China (CSRC) para avançar com a oferta pública inicial de ações (IPO) em Hong Kong.
A perspectiva é que o início da listagem ocorra entre setembro e outubro. A companhia deve buscar um valuation de US$ 40 bilhões a US$ 50 bilhões. É um número bem abaixo da avaliação de US$ 100 bilhões obtido em rodada privada, em 2022, mas ainda assim a colocaria como uma das varejistas de moda mais bem avaliadas do mundo.
Para o BTG Pactual, a estratégia da empresa terá impacto no mercado brasileiro. A tendência é que, com a entrada de mais recursos, a plataforma ganhe ainda mais vantagem, em termos de preço, sobre as varejistas nacionais, como Renner, C&A e Riachuelo.
“A transação deve reforçar a importância estratégica de uma das plataformas de moda que mais crescem no País. A Shein continua a manter uma vantagem significativa de preço de dois dígitos em relação às varejistas de vestuário brasileiras listadas em bolsa”, diz o relatório do banco.
Na visão da instituição financeira, a empresa conseguiu se adaptar ao cenário estabelecido no Brasil em 2024, com a implementação da “taxa das blusinhas”, que consistia na aplicação de um imposto de importação de 20% para compras de até US$ 50.
Com a revogação da cobrança, em maio deste ano, determinada pelo próprio governo federal, que foi quem criou a cobrança, a tendência, segundo o BTG, é que a vantagem competitiva da Shein, que já era expressiva, continue em ampliação.
Após a implementação do programa, a empresa ajustou preços, expandiu iniciativas de fornecimento local e otimizou sua rede logística justamente para manter a competitividade no mercado nacional.
“Para o e-commerce brasileiro, o IPO da Shein reforça a ideia de que a competição internacional está se tornando cada vez mais estrutural, e não cíclica. A empresa ainda mantém uma vantagem significativa de preço sobre os varejistas de vestuário locais, sugerindo que a pressão competitiva dificilmente diminuirá”
A visão dos analistas do BTG é de que o Brasil se tornou um dos exemplos mais claros da flexibilidade operacional da Shein, levando em conta toda sua atuação global.
“A revogação do imposto federal sobre compras internacionais elegíveis criou um ambiente operacional mais favorável, permitindo que o crescimento se acelerasse novamente”, completam os analistas Luiz Guanais, Yan Cesquim e Beatriz Cendon, que assinam o relatório.
Mas, na prática, o fim da taxa gerou um ruído enorme entre o governo federal e as principais companhias de moda que operam no mercado brasileiro.
Em maio, o NeoFeed revelou que a Riachuelo avaliava cortes de funcionários e a implementação do modelo cross-border, após o fim da medida.
“Se a gente chegar à conclusão que esta decisão de acabar com a taxa das blusinhas será mantida, vamos ter que começar a demitir pessoas. Não tem milagre”, disse na ocasião André Farber, CEO da Riachuelo.
Segundo o BTG, a base de usuários ativos mensais da Shein no Brasil cresceu 34% no segundo trimestre de 2026, em comparação ao mesmo período do ano passado.
É o maior crescimento apontado entre as principais plataformas de e-commerce analisadas pelo banco. No mesmo período, AliExpress cresceu 27%; Mercado Livre, 17%; Amazon, 16%; e a Shopee avançou 9%.
“A combinação de preços agressivos, execução localizada e uma cadeia de suprimentos altamente responsiva continua a atrair a base de consumidores brasileiros sensíveis a preços”, afirma o banco.
Segundo os analistas, a próxima fase da competição, principalmente no Brasil, será definida pela força do ecossistema, eficiência logística, comércio liderado por criadores de conteúdo, monetização de marketplaces e descoberta de produtos impulsionada por inteligência artificial (IA).
Neste sentido, o BTG enxerga o e-commerce brasileiro como um dos mais atraentes do mundo no longo prazo. Por isso o cenário de preocupação a partir do avanço da plataforma asiática.
A abertura de capital da Shein em Hong Honk consolidaria uma jornada de IPO, que naufragou nas duas primeiras tentativas. Em novembro de 2023, a empresa entrou com pedido nos Estados Unidos, mas enfrentou resistência de órgãos reguladores.
A Shein então mirou Londres, em junho de 2024. Embora a Autoridade de Conduta Financeira do Reino Unido tenha um projeto de prospecto, a Comissão Reguladora de Serviços de Comércio e Indústria (CSRC) brecou o avanço.
Fundada em 2008 por Xu Yangtian na cidade chinesa de Nanjing, hoje, a empresa tem sede em Singapura, vende para mais de 160 países e gera receita anual de cerca de US$ 38 bilhões.