Uma receita de R$ 2,5 bilhões em dois anos. Para chegar a essa cifra, contabilizada em 2025, a Porto Serviço teve como principal motor o ecossistema do grupo Porto, onde nasceu, no fim de 2023, como um braço para a oferta de serviços residenciais e automotivos. Boa parte deles, emergenciais.
O aquário de mais de 18 milhões de clientes da holding não foi, porém, a única fonte desse crescimento. Pouco a pouco, com parcerias, a empresa vem criando outras vias – e vida própria – fora desse ambiente. E agora, está virando definitivamente essa chave para avançar de vez também no chamado “mar aberto”.
Essa estratégia tem como ponto de partida um novo modelo de negócio: fechar parcerias com administradores de condomínios residenciais e comerciais, além dos shopping centers. Levando-se em conta apenas a primeira frente, trata-se de um mercado endereçável de R$ 4,5 bilhões.
Já no portfólio, a linha para entrar nesses novos espaços leva o nome de Casa em Dia. Lançada há um mês, ela permite que qualquer cliente contrate um profissional da rede da Porto Serviço para prestar uma série de serviços em uma única visita, no dia e horário de sua preferência.
“Agora, estamos começando conseguir atender a diversos públicos”, diz Lene Araújo, CEO da Porto Serviço, ao NeoFeed. “E de acordo com o que o cliente precisa e não com o que nós idealizamos. Ele vai escolher o que e quando contratar. Essa é a mudança de paradigma”.
Nesse contexto, Luiz Nunes, diretor de negócios digitais e tecnologia da Porto Serviço, traz um outro dado que pode mudar os ponteiros para a empresa: nos condomínios, a recorrência na contratação de serviços é de 4,5 vezes ao ano.
“Essa é a nossa grande aposta”, afirma Nunes. “Estamos buscando clientes que não são da Porto e vamos fazer esse go to market em arenas nas quais o grupo ainda não chegou. Com isso, nós viramos um braço estratégico de aquisição, inclusive, para esse ecossistema”.
Se, nessa virada, os principais apelos para os clientes são conveniência e personalização, para os parceiros, o argumento é o uso da plataforma para atrair e reter moradores, lojistas e locatários. Além de cashbacks para seus empreendimentos, por meio de serviços de manutenção em suas instalações.
“O morador vê que, no caso de qualquer problema, seja na academia ou em outra área, rapidamente tem um prestador de serviço para resolver”, diz Araújo. “Então, isso vai criando uma fatura de retenção. É um ganha-ganha dentro desse ecossistema”.
Com esses ganchos, a Porto Serviço já tem duas grandes parcerias que estão sendo usadas como projetos-piloto desse modelo, a princípio, no Rio de Janeiro. A primeira envolve o shopping Downtwon, que abriga cerca de três mil lojistas. E onde a própria companhia terá um ponto de venda.
“Isso tem um efeito viral. Porque dentro do shopping tem lojistas, donos de franquias e de salas comerciais”, diz Nunes. “E essas pessoas podem nos levar para outros condomínios, shoppings e mesmo para suas casas. É um custo de aquisição super baixo e uma escala que eu não teria só no digital”.
A segunda parceria é com a BCF, administradora que, segundo o diretor, está colocando à disposição um portfólio de centenas de condomínios no Rio de Janeiro, que somam 35 mil imóveis.
“Imagine o potencial de receita recorrente se fecharmos três, quatro players do setor”, diz Nunes. Para se ter uma dimensão do que está em jogo, ele diz que, apenas em condomínios, o mercado endereçável é de R$ 4,5 bilhões, dentro de um mercado potencial total de R$ 40 bilhões da Porto Serviço.
Próximos passos
Depois do mercado carioca, a segundo destino será São Paulo, onde a empresa já mantém negociações com uma administradora. Os planos também incluem ampliar, gradativamente, os serviços à disposição no Casa em Dia.
Nesse lançamento, a plataforma inclui serviços de elétrica, hidráulica, fixação e desentupimento. Em linha com o avanço dos canais digitais da operação, a contratação é feita por meio do e-commerce ou do aplicativo da companhia. O preço varia conforme os serviços escolhidos pelo cliente.
Hoje, o portfólio completo da Porto Serviço inclui mais de 70 ofertas. E para adicionar mais opções ao cardápio da Casa em Dia, a empresa já está mapeando profissionais capazes de realizar leques de serviços correlatos.
Atualmente, a rede da companhia é composta por 13,5 mil prestadores de serviço, dos quais, 4 mil já estão incluídos nesse lançamento da linha.
O uso de inteligência artificial para ajudar os clientes a montarem seus pacotes é um outro recurso prestes a ser embarcado. Um dos principais passos no radar, porém, é a oferta da Casa em Dia no modelo de assinatura, um formato já adotado em outras linhas do portfólio desde o fim de 2025.
Com todos esses esforços, o objetivo é claro. “A nossa tese é converter esse cliente para um assinante com um LTV (lifetime value) alto”, diz Nunes. “Quando virar meu assinante, ele pode ficar na minha base por muitos anos. E se mudar de residência ou comprar outro imóvel, pode nos levar com ele”.
No caminho para materializar essa tese, a nova plataforma e as parcerias com condomínios e shopping centers são vistos como o atalho ideal para combinar ganho de escala e recorrência com velocidade e personalização. E, ao mesmo tempo, reduzir o custo de aquisição dos clientes.
“Eu não consigo saber o que cada morador precisa em um condomínio, em cada momento. Para isso, eu preciso ter um produto em que ele monte o seu combo”, afirma Nunes.
Ao mesmo tempo, ele ressalta que, a partir da identificação de demandas em comum nos empreendimentos, a ideia é criar, em uma segunda etapa, criar pacotes específicos de serviços de acordo com o perfil de cada empreendimento.
“Eu consigo pegar o Casa em Dia, configurar para as necessidades de um condomínio ou shopping, dar um nome para essa família, precificar e colocar na prateleira”, explica. “No fim do dia, ele vira um chassi de plataformas”.
Além de condomínios e shoppings, esse horizonte inclui a perspectiva de criar, já no curto prazo, linhas dedicadas a segmentos como casas de veraneio e terceira idade, bem como para o setor automotivo.
Essa diversificação já vem da origem da própria Porto Serviço. Juntamente com o Porto Bank e a Porto Saúde, a criação da empresa foi fruto justamente da tese da Porto Seguro de distribuir seus negócios em novas cestas e dar mais autonomia a essas operações.
O resultado contabilizado até aqui por essa estratégia foi destacado em um relatório do BTG Pactual sobre o ano consolidado de 2025. O banco ressaltou a relevância crescente das três companhias no resultado da holding.
“De modo geral, a diversificação desempenhou um papel fundamental ao longo de 2025. Todas as verticais apresentaram um ROAE superior a 23% ano e a contribuição conjunta da Porto Saúde, Porto Bank e Porto Serviço alcançou 49% no lucro do período”, pontuou o banco.
A Porto encerrou o ano passado com um lucro líquido de R$ 3,38 bilhões, o que representou um crescimento de 27,8% sobre o resultado reportado em 2024. Já a receita total do grupo no período avançou 11,2%, para R$ 41 bilhões.