O sucesso comercial da Copa do Mundo de 2026 fez com que a Fifa colocasse em marcha um plano para levantar cerca de US$ 4,2 bilhões em investimentos externos, em um movimento que marca uma mudança na forma como a entidade máxima do futebol, uma organização sem fins lucrativos, se financia há quase 122 anos.

Segundo apurações da Bloomberg e do Financial Times (FT), a Fifa planeja vender uma participação minoritária significativa em uma nova entidade comercial avaliada em cerca de US$ 20 bilhões. Essa empresa reunirá os principais ativos comerciais da Fifa, incluindo direitos de mídia e patrocínios, segundo as fontes ouvidas pelas duas publicações.

A captação, que está sendo organizada pela Fifa em parceria com o J.P. Morgan, já atraiu interessados. Joshua Kushner, investidor especializado em tecnologia cujo irmão mais velho, Jared Kushner, é casado com Ivanka Trump, filha do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, negocia liderar a operação por meio de seu fundo Thrive Eternal.

De acordo com a reportagem da Bloomberg, a estrutura em estudo para a chamada Fifa Forward Enterprise prevê que os investidores não receberão dividendos nem distribuições regulares de caixa. O potencial retorno viria de uma eventual valorização da entidade, permitindo que os investidores vendessem posteriormente suas participações.

A Fifa repassaria o dinheiro arrecadado com a venda da participação na entidade para seus associados, disse uma das fontes ouvidas pelo FT. Cada um dos 211 membros recebe atualmente cerca de US$ 2 milhões por ano, independentemente do seu tamanho.

A iniciativa ocorre em um momento de alta demanda por eventos esportivos no mundo, com o futebol como carro-chefe. A Fifa deve encerrar o atual ciclo de quatro anos com cerca de US$ 13 bilhões em receita, ante US$ 7,6 bilhões no ciclo anterior, impulsionada pelo sucesso comercial da última Copa do Mundo masculina.

Para o próximo ciclo, que termina com a Copa do Mundo na Espanha, Portugal e Marrocos, a entidade deve arrecadar pelo menos US$ 14 bilhões, segundo o FT.

O sucesso do torneio fortaleceu o presidente da Fifa, Gianni Infantino, que vem buscando formas de elevar as receitas da organização. Além de ter liderado a expansão da Copa do Mundo masculina de 32 para 48 seleções e já ter sinalizado a possibilidade de o torneio chegar a 64 equipes no futuro, Infantino relançou o Mundial de Clubes em um formato semelhante ao da Copa.

Ao mesmo tempo em que ganha força, Infantino também enfrenta um aumento das críticas. O foco na maximização das receitas da última Copa do Mundo, com ingressos significativamente mais caros do que os de edições anteriores e a retenção de uma parcela das vendas no mercado secundário, provocou protestos de grupos de torcedores e atraiu a atenção de diversos estados americanos.

Autoridades de Nova York e Nova Jersey enviaram intimações formais à Fifa, questionando a entidade sobre suposta manipulação de preços de ingressos e mapas de assentos, em maio, antes do início da competição.

A relação de Infantino com Trump também é alvo de críticas. Em dezembro, a Fifa concedeu ao presidente americano seu primeiro "prêmio da paz", o que, segundo os críticos, contrariava as regras da entidade sobre neutralidade política.

Durante o torneio, o comitê disciplinar da Fifa reverteu unilateralmente a suspensão do jogador americano Folarin Balogun após pressão da Casa Branca. A relação entre Infantino e Trump é alvo de inquérito no Congresso americano.