Uma semana após o setor elétrico sair chamuscado do leilão de reserva de capacidade (LRCAP) - que apesar de ter gerado investimento recorde de R$ 33 bilhões, ofereceu ágio considerado pífio, de 5,2%, e uma série de problemas que devem acabar na Justiça -, coube ao segmento das linhas de transmissão trazer um alento, em um momento em que as empresas de energia sofrem com cortes de geração renovável, desinvestimento e margens estreitas.

Com ágio médio de 50,7%, o maior dos últimos cinco anos, o primeiro leilão de sistemas de transmissão de energia elétrica do ano, realizado na sexta-feira, 27 de março, terminou com todos os cinco lotes arrematados após forte concorrência.

A Engie foi uma das vencedoras, arrematando dois dos cinco lotes leiloados – em um deles, levou os quatro sublotes. A Cymi, vencedora de outros dois blocos, também teve destaque. O lote restante foi arrematado pelo Consórcio BR2LT Transmissora.

Mesmo com uma matriz de riscos elevada, a aposta da Engie em leilões de linhas de transmissão mostra que o segmento é certeza de retorno e de receita de longo prazo.

"A participação neste certame reforça nosso interesse em acelerar a expansão da infraestrutura elétrica nacional, contribuindo para um sistema mais integrado, estável e preparado para o crescimento da geração renovável”, declarou Eduardo Sattamini, CEO da Engie Brasil.

No total, o leilão ofereceu a construção de 798 km de cinco novas linhas de transmissão e nove subestações, somando 2.150 megavolt-ampere (MVA, unidade para medir a potência dos linhões), além da instalação de compensadores síncronos.

O volume de investimentos previstos, de R$ 3,3 bilhões, parece irrisório diante dos registrados pelo LRCAP, que teve outra destinação – contratar hidrelétricas térmicas a gás, carvão, óleo e biodiesel para oferecer potência firme suficiente para atender à demanda nos horários de pico.

Mas a acirrada concorrência do certame reforçou a certeza de que o investimento nos linhões – estruturas gigantescas que transmitem energia elétrica cruzando os estados – está se transformando numa solução não só para reduzir o curtailment, os cortes de geração por parte do órgão regulador das usinas solares e eólicas centralizadas, operadas pelas empresas de energia.

“Este leilão representa um marco para o setor elétrico brasileiro e foi promovido em um momento estratégico em que a expansão do sistema de transmissão se torna essencial para mitigar os impactos do curtailment e assegurar o escoamento eficiente de energia", afirmou Sattamini.

Os linhões representam o único segmento do setor elétrico que não tem subsídio e entrega deságio em concorridos leilões, nos quais o vencedor ganha um contrato de 30 anos indexado ao IPCA sem nenhum risco de inadimplência, graças à segurança jurídica oferecida pelos editais.

Além disso, os projetos de linhas de transmissão estão ajudando as gigantes do setor a contornar os prejuízos gerados pela oscilação do mercado de energia, já impactado pelo curtailment – que drenou R$ 6,5 bilhões de receita das cerca de 1.500 usinas renováveis centralizadas no ano passado, causando cancelamento de projetos de plantas solares.

“Em um momento de desinvestimento em outros segmentos, como renováveis e comercializadoras, a transmissão se tornou uma das poucas ‘portas abertas’ do setor elétrico”, afirma Donato Filho, diretor-executivo da consultoria Volt Robotics.

“Além de players tradicionais, já é possível detectar a chegada de novos entrantes, como construtoras que aprenderam a executar as obras de transmissão e agora desejam ser proprietárias dos ativos", complementa.

‘Curtailment’ na mira

A bonança do setor começou a ganhar corpo a partir de 2017, após uma reforma regulatória que mudou os editais, atraindo investidores estrangeiros. Até então, de cada três lotes, só um era arrematado.

Entre 2022 e 2025, por exemplo, os investimentos em novos leilões, sempre com ágio na faixa de 50%, somaram cerca de R$ 86 bilhões. O cenário do médio prazo desse segmento é de um aumento significativo de novas linhas de transmissão cruzando os céus do País.

Além do leilão da sexta, 27, outro agendado para o segundo semestre deve atrair ainda mais concorrência, com previsão de movimentar R$ 20 bilhões de investimentos – no que seria um dos certames de transmissão mais relevantes dos últimos anos.

O edital, já analisado pela Aneel, a agência reguladora do setor elétrico, e encaminhado ao TCU, contempla entre seis e 11 lotes, reunindo aproximadamente 1.958 km de novas linhas de transmissão e a instalação ou ampliação de até nove subestações em diferentes regiões do País.

A licitação busca aliviar gargalos estruturais do Sistema Interligado Nacional (SIN), especialmente em áreas que registram forte expansão da geração renovável, como o Nordeste e o Centro-Oeste, além de reforçar o atendimento às regiões Sudeste e Sul, onde a demanda industrial segue em alta.

Para 2027, o Ministério de Minas e Energia (MME) está planejando levar a leilão o projeto do Corredor Expresso Bipolo Nordeste 2, um linhão de mais de 2 mil km de extensão que vai de Angicos, no Rio Grande do Norte, até Itaporanga, no Paraná. Orçado em R$ 17 bilhões, o projeto visa a se tornar a maior iniciativa para reduzir o desperdício de geração eólica e solar do Nordeste.

O Brasil possui aproximadamente 190 mil km de linhões. Dados da Aneel indicam 137 obras de transmissão em implantação, das quais 88% estão no prazo ou adiantadas – as empresas se empenham em antecipar o início das obras, pois só após vencida a parte burocrática, que inclui licenciamento ambiental, desapropriações e outras exigências, a vencedora começa a receber a receita do contrato, que é paga até o fim do prazo, de 30 anos.

“O plano decenal de expansão projeta um acréscimo de 40 mil km de linhas até 2035, com investimento estimado em R$ 148 bilhões — média de 4 mil km por ano, alinhados à necessidade de escoar energia gerada pelas usinas renováveis do Nordeste, região mais afetada pelo curtailment”, afirma Talita Porto, presidente-executiva da Abrate, associação que reúne as empresas transmissoras de energia.

Robson Campos, vice-presidente de engenharia da Axia Energia, afirma que até pelo fato de o segmento de linhas de transmissão exigir investimentos parrudos e de longo prazo demanda que a empresa estude minuciosamente custos, prazos e riscos – especialmente de licenciamento e de implantação – antes de decidir participar de um leilão.

Entre as gigantes do setor, a Axia é uma das mais ativas no negócio dos linhões. A empresa está tocando simultaneamente obras em sete lotes – um arrematado no leilão de 2023, quatro do certame de março de 2024 e dois lotes de setembro de 2025, subdivididos em quatro sublotes. Ao todo, quatro projetos estão no Nordeste, dois no Sudeste e um no Sul.

“As energizações no Nordeste começam no fim deste ano, com entradas ao longo de 2027 e início de 2028”, diz o executivo da Axia. “A expansão de escoamento deve mitigar, mas não eliminar, o curtailment, dado o crescimento contínuo da geração e projetos de terceiros”, emenda, reforçando a percepção de que os linhões acabam sendo um enxuga-gelo dos cortes das renováveis, cujos processos de construção avançam mais rápido (2 anos, em média) do que dos linhões (de quatro a cinco anos).

Logística complexa

Segundo Campos, o destaque da atuação da Axia no segmento dos linhões são as obras de transmissão no Nordeste (dois lotes do leilão de 2024), com investimento de R$ 3,6 bilhões - que representam cerca de 40% do portfólio recente da Axia -, incluindo a Nova Era Integração, um megacinturão de 1.116 km e 500 quilovolts (kV, medida de tensão elétrica) que cruza Ceará, Paraíba, Pernambuco, Alagoas, Bahia e Piauí.

Para se ter uma ideia da complexidade de tocar obras em várias frentes, dois blocos da Nova Era Integração já foram iniciados, outro está em processo de licenciamento e um quarto, já liberado pelo Ibama, tem previsão de início de obra para julho.

Na prática, a logística é fundamental no negócio das linhas de transmissão. Em áreas sensíveis, soluções de engenharia incluem linhas totalmente aéreas, com torres acima de 100 m de altura, que chegam a pesar 25 toneladas e custo unitário de R$ 300 mil, com lançamento de cabos por helicóptero ou drone e mínima intervenção no solo, para reduzir desmate e impacto ambiental, boa parte em regiões de mata fechada.

“Terrenos montanhosos e remotos exigem logística intensiva, com transporte por helicóptero, frentes de trabalho sequenciais - supressão, fundações, pré-montagem, içamento, montagem final, lançamento e comissionamento - e infraestrutura de apoio, ‘pequenas cidades’ para acomodar de mil a 2 mil trabalhadores”, diz o executivo.

Para Campos, o licenciamento ambiental é a principal fonte de incerteza de um projeto de linha de transmissão. Segundo ele, o licenciamento estadual (quando o linhão é restrito a um estado) costuma levar de 12 a 16 meses. “Quando é federal, a cargo do Ibama, o prazo pode atingir 20 meses - muitas vezes com intervenientes como IPHAN, Funai, Incra, áreas quilombolas e unidades de proteção”, diz.

O maior projeto de linhão do País está lidando com esse problema. Denominado Graça Aranha-Silvânia e tocado pela chinesa State Grid, o linhão terá 2.960 km de extensão cruzando Maranhão, Tocantins e Goiás, com orçamento de R$ 18 bilhões e previsão de entrar em operação em 2030.

De acordo com o último relatório trimestral do MME, o projeto aguarda licenciamento de quatro órgãos diferentes, dois deles federais (Ibama e Incra). O Ibama solicitou estudos de seis possíveis alterações de traçado, impactando 380 km, o que vai gerar retrabalho de topografia, sondagem e projeto executivo.

A Engie enfrentou problema semelhante no projeto Asa Branca, um sistema de transmissão de energia de 1 mil km que passa por Bahia, Minas Gerais e Espírito Santo, com R$ 2,67 bilhões em investimentos. O primeiro trecho, de 334 km (Morro do Chapéu–Poções, na Bahia) iniciou operação em novembro de 2025, escoando energia renovável, com conclusão total prevista para 2029.

Em dezembro, a Engie recebeu devolutiva formal do Ibama, que não emitiu a licença de instalação de um outro trecho, solicitando complementações, o que atrasou a previsão de início de obras, em janeiro.

“A companhia já protocolou um relatório de atendimento aos itens apontados e, em fevereiro, recebemos do próprio Ibama a autorização para mobilização de todos os canteiros de obras e início da construção da Subestação Medeiros Neto II”, diz a Engie em nota. “A previsão é de que o restante das obras tenha início ainda no próximo trimestre de 2026.”