Nova York – No salão do Harvard Club, um governador e outro ex-governador estiveram no palco do Brazilian Regional Markets, promovido pela Apex Partners, e dividiram diagnósticos parecidos sobre o Brasil, embora com estilos políticos diferentes.

Eduardo Leite, do Rio Grande do Sul (PSD-RS), e Romeu Zema, que deixou o governo de Minas Gerais (Novo-MG) para concorrer à presidência, falaram para uma plateia formada por gestores, empresários e investidores em um momento em que o mercado tenta entender se existe espaço, em 2026, para uma candidatura de centro-direita ou de direita capaz de escapar da polarização entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e Flávio Bolsonaro.

De acordo com pesquisa nacional feita pela Futura Inteligência, instituto do grupo Apex, realizada entre 4 e 8 de maio de 2026 com duas mil entrevistas, a corrida eleitoral aparece competitiva e volátil. Lula e Flávio Bolsonaro estão tecnicamente empatados no primeiro turno e, no cenário mais testado para o segundo turno, Bolsonaro tem vantagem estreita — 46,9% contra 44,4%.

“O brasileiro só vai se preocupar com eleição na véspera”, disse Zema, que, em tom de campanha presidencial, misturou discurso liberal, antipetismo e narrativa de outsider.

Provocado sobre a possibilidade de compor uma chapa presidencial como vice, Zema respondeu, em tom de brincadeira, que tinha “uma notícia boa e uma ruim”. “Estaremos juntos no segundo turno”, disse, arrancando risos da plateia.

Depois, citou o exemplo do Chile, onde candidatos de direita disputaram separados no primeiro turno antes de se unirem posteriormente. Ele também ironizou rumores sobre negociações políticas ao afirmar que “o único convite” feito foi o dele para Flávio Bolsonaro — e que nunca recebeu resposta formal. Sobre o contrário, afirmou que foi apenas “falação”.

Vencido por Ronaldo Caiado na corrida interna do PSD, Leite não decidiu qual caminho irá tomar nestas eleições. Por isso, apareceu como gestor institucional tentando vender o Rio Grande do Sul como laboratório de governança, concessões e reorganização fiscal.

“Quero chamar a atenção para o ajuste fiscal, que parece algo extremamente duro e antipático. E é. Mas fica em um debate como se não fosse”, afirmou Leite. “O Estado brasileiro, se promover ajuste, vai ser mais ausente na vida das pessoas? Não, ao contrário, estará presente com força.”

A seguir, os principais destaques da participação de Zema e Leite.

Privatizações: ruptura política, não financeira

Eduardo Leite, governador do RS
Eduardo Leite, governador do RS

Com a chegada das eleições, o tema privatização entra no centro dos debates em razão da agenda dos candidatos de direita sobre empresas públicas.

Leite defendeu as privatizações feitas no Rio Grande do Sul como mudança estrutural no papel do Estado e não apenas agenda fiscal.

“Uma empresa pública sempre vai ser privatizada, de alguma forma. Ou ela vai ser capturada pelo sindicato dos servidores, atendendo interesses corporativos, ou vai ser capturada por um partido político. E a gente vê isso no nível nacional também”, disse o governador do Rio Grande do Sul.

“Então, público no sentido de ser do povo, não é. A verdade é essa. Só que o problema é o seguinte: quem está lá não é responsável diretamente porque o prejuízo vai ser arcado pelo povo também”, complementou.

Leite citou como exemplo a privatização das companhias de energia, gás e saneamento do Estado. Segundo ele, a Corsan investia cerca de R$ 400 milhões por ano em seu melhor momento sob controle estatal. Após a privatização, os investimentos saltaram para aproximadamente R$ 1,5 bilhão ao ano.

Segundo Leite, governos deveriam concentrar energia política em áreas como segurança pública, educação e infraestrutura, e não na administração de conflitos internos de estatais.

Na agenda econômica, o debate sobre segurança pública

A segurança pública apareceu como eixo econômico na fala de Eduardo Leite, que associou diretamente combate ao crime, atração de investimentos e retenção de talentos.

Segundo Leite, o Brasil precisará tratar segurança pública como agenda nacional coordenada pelo presidente da República, mas respeitando a autonomia dos estados.

“Não é escolher entre combater o crime na periferia ou os crimes financeiros. Tem que enfrentar os dois”, disse Leite.

O governador afirmou que o crime organizado já ultrapassa as periferias e alcança setores sofisticados da economia.

Segundo ele, o diferencial não foi nova legislação, mas uma estrutura permanente de monitoramento de dados, cobrança de resultados e integração entre forças de segurança, Ministério Público e Judiciário.

“Não é sobre ter mais uma lei. É sobre dinâmica de governança”, afirmou.

A terceira via entre rejeição e admiração

A pesquisa nacional feita pela Futura Inteligência, com margem de erro de 2,2 pontos percentuais, mostra que a disputa não é apenas numericamente apertada, mas também marcada por alta rejeição aos principais nomes e por ambiente institucional tenso.

A aprovação do presidente Lula aparece abaixo de 50%, enquanto o Supremo Tribunal Federal (STF) e o Congresso Nacional registram índices significativamente menores, o que coloca temas institucionais no centro da disputa eleitoral.

A dinâmica indica que a eleição tende a ser decidida mais por quem consegue reduzir rejeição do que por quem amplia base de apoio.

“O brasileiro só vai se preocupar com eleição na véspera. Mês que vem nós temos Copa do Mundo e a maioria dos brasileiros está mais do que atarefada fazendo bico para sobreviver. Então, o brasileiro vai se conectar na eleição na véspera”, disse Zema.

“Eleição, eu posso dizer de camarote, é algo totalmente incerto e imprevisível. Não estou falando que este ano é repetição. Cada eleição tem suas particularidades. Mas, há mais de 20 anos, o brasileiro só vota contra alguém ou contra alguma coisa. Ele vai mais pela rejeição do que pela admiração”, complementou.

A “nova CLT” e o fim da escala 6x1

Romeu Zema, ex-governador de MG
Romeu Zema, ex-governador de MG

Enquanto o Congresso Nacional decide sobre o fim da escala 6x1, Romeu Zema criticou as propostas defendidas pelo governo federal.

Segundo Zema, medidas trabalhistas discutidas às vésperas da eleição têm forte componente populista e não atacam o principal problema da economia brasileira, que é a baixa produtividade.

O ex-governador afirmou que o trabalhador brasileiro precisa de mais renda e defendeu a criação de novos formatos de contratação além da CLT.

“Hoje, para trabalhar, só existe um sistema. Mas deveríamos ter contratos por hora, como já existe em diversos países”, afirmou Zema.

A proposta defendida pelo candidato do Novo à presidência seria manter a CLT atual, mas permitir modelos paralelos mais flexíveis, negociados diretamente entre empresas e trabalhadores.

O ex-governador também afirmou que a legislação trabalhista brasileira se tornou excessivamente rígida e criticou decisões da Justiça do Trabalho que, segundo ele, enfraqueceram avanços promovidos pela reforma trabalhista de 2017.

O desenrola febril

Com o endividamento das famílias brasileiras superando 80%, Zema foi questionado sobre o Desenrola 2.0, programa do governo federal para reduzir o peso dos juros no bolso das pessoas.

Para Zema, o programa é como colocar um paciente febril em uma banheira de gelo: a febre baixa, mas o problema não é atacado.

“No dia que o Brasil tiver esse choque que eu falo, que é o plano implacável: poupar, privatizar, não roubar e prosperar, nós vamos adiante”, disse o ex-governador.

“É plenamente possível uma taxa de juros de 6% no Brasil. Na hora em que houver queda na taxa de juros, projetos que hoje não são viáveis começam a ser viáveis. O investimento sobe. Quando o investimento sobe, a indústria se moderniza, fica mais competitiva, mais produtiva e, consequentemente, a renda aumenta. É deixar o círculo vicioso e entrar no círculo virtuoso”, complementou.