O segmento de pesquisa e desenvolvimento de inteligência artificial (IA) está provocando um dos maiores choques de investimento setorial da história do capitalismo nos Estados Unidos.

A OpenAI, startup de pesquisa e implementação de IA criada em 2015, reflete esse boom, se consolidando como uma das empresas privadas mais valiosas da história – e ajudando seus funcionários a enriquecerem, por meio do pacote de ações que oferece a executivos, cientistas e pesquisadores mais qualificados.

A OpenAI autorizou mais de 600 funcionários atuais e antigos da OpenAI a venderem ações da empresa em outubro passado, arrecadando coletivamente US$ 6,6 bilhões, segundo o jornal The Wall Street Journal (WSJ).

Para se ter uma ideia da valorização dos papéis da empresa, desde que a OpenAI emitiu suas primeiras ações, há sete anos, os funcionários mais veteranos viram o valor de suas ações crescer mais de 100 vezes. Em comparação, o índice Nasdaq Composite praticamente triplicou no mesmo período.

No atual lote negociado, cada funcionário tinha permissão para vender suas ações até o limite de US$ 30 milhões. Um grupo de 75 desses funcionários atingiu esse teto.

O WSJ resumiu a venda de ações da OpenAI por seus funcionários como parte do maior boom de criação de riqueza na história da tecnologia.

A OpenAI exigiu que os funcionários esperassem dois anos antes de poderem vender seus papéis, o que significa que a venda de ações marcou a primeira vez que muitos que ingressaram na empresa após o lançamento do ChatGPT puderam embolsar o dinheiro.

O caso chamou a atenção porque centenas de empresas abriram capital durante o boom da internet, mas, na maioria dos casos, seus funcionários tiveram que esperar um longo período, mesmo após o IPO, para receber seus lucros. Para alguns, a bolha estourou antes que pudessem realizar os lucros, e boa parte nunca chegou a concretizar a riqueza potencial.

Por outro lado, a venda de ações da OpenAI oferece uma prévia da enxurrada de dinheiro que deverá gerar com o IPO que a empresa está programando - aguardado como um dos maiores da história -, permitindo que seus funcionários vendam suas ações, transformando muitos deles em multimilionários.

Os lucros superlativos obtidos por funcionários da OpenAI também servem para entender o crescimento acelerado de receita e financiamento massivo causado pela corrida das empresas de tecnologia pelo desenvolvimento da IA.

As “Big Techs” (Microsoft, Meta, Alphabet/Google, Amazon) aumentam suas projeções de despesas de capital para mais de US$ 650 bilhões em 2026, focando pesadamente na construção de infraestrutura de data centers, GPUs e modelos de linguagem.

Avaliada em US$ 852 bilhões após a rodada de financiamento de março de 2026 – quando recebeu US$ 122 bilhões em aportes de empresas como Microsoft, Amazon e NVIDIA -, a OpenAI passou de uma entidade sem fins lucrativos para uma gigante do setor em apenas 10 anos.

Em 2024, a empresa valia cerca de US$ 157 bilhões, saltando para US$ 400 bilhões no final de 2025, até atingir, este ano, a marca próxima do trilhão de dólares.

Em novembro, a OpenAI ultrapassou a marca de 1 milhão de clientes corporativos em todo o mundo, consolidando-se como a plataforma de negócios que mais cresce na história. A lista inclui gigantes como American Express, Cisco, Lowe’s, Morgan Stanley, T-Mobile e Target, entre outras.

Nesta segunda, 11, Greg Brockman – que ajudou a fundar a OpenAI, juntamente com Sam Altman e Elon Musk – admitiu durante depoimento judicial no julgamento que opõe Musk e a OpenAI que detém uma participação na startup, onde ocupa o cargo de presidente, avaliada em cerca de US$ 30 bilhões.

Concorrência pesada

A OpenAI não está sozinha nesse crescimento acelerado de investimentos em IA. Estimativas indicam que entre 40% e 60% de todo o capital de risco nos EUA está sendo direcionado para startups e projetos de IA.

Como era de se esperar, os aportes em empresas do Vale do Silício de olho no desenvolvimento de IA estão causando uma grande transformação no mercado de trabalho.

A escala dos pacotes de remuneração para profissionais de IA altamente especializados não tem precedentes na história moderna. A guerra entre algumas das empresas mais ricas do planeta pelas melhores profissionais de IA estão tornando-os tão ricos quanto jogadores da NBA e estrelas de Hollywood.

Esse movimento de recrutamento milionário de talentos é liderado por Mark Zuckerberg, que está pessoalmente montando sua equipe dos sonhos de IA. Zuckerberg tem feito ofertas relâmpago, que expiram em poucos dias, para dificultar que os concorrentes da Meta negociem contrapropostas eficazes.

Para sua nova divisão de IA focada em superinteligência, ou seja, IA mais inteligente que os humanos, Zuckerberg contratou profissionais da Anthropic, Google DeepMind e Apple, e trouxe pelo menos uma dúzia de funcionários da OpenAI.

Zuckerberg escolheu Alexandr Wang para liderar o novo laboratório. Para contratá-lo, a Meta pagou US$ 14 bilhões por uma participação na Scale AI, a startup de rotulagem de dados fundada pelo empreendedor de 28 anos.

A nova estratégia levou o setor a questionar se o contrato social no Vale do Silício, que priorizava a missão e unia fundadores e funcionários, está se desfazendo. Enquanto isso, alguns executivos lamentam a erosão do que antes era um princípio fundamental do setor tech americano: seja um missionário, não um mercenário - sendo o missionário um sinônimo de adesão a empresas com propósito, com sede não apenas por ganhar dinheiro, mas por construir um significado.

Na prática, isso está definitivamente ficando no passado. Zuckerberg ofereceu a mais de 10 pesquisadores da OpenAI pacotes salariais exorbitantes de US$ 300 milhões ao longo de quatro anos, incluindo US$ 100 milhões no primeiro ano.

Ou seja, a corrida por talentos de IA está reformulando o velho princípio no Vale do Silício – se for para ser mercenário, que seja para se tornar um milionário.