A ISA Energia tem avançado em um modelo de construção de linhões de energia elétrica diferente do usual. Em vez de torres aéreas, a empresa está implementando um sistema de linhas subterrâneas no mercado brasileiro.

Nesse sentido, a companhia, que detém 30% do sistema de transmissão no Brasil e 95% em São Paulo, acaba de concluir um ciclo de investimento de R$ 1,1 bilhão no maior projeto no Brasil de linha de transmissão embaixo da terra.

O sistema, uma espécie de “rodoanel subterrâneo”, tem 44,6 quilômetros de extensão e liga o bairro do Cambuci, na cidade de São Paulo, ao município de São Caetano do Sul, no Grande ABC.

Diferentemente do modelo tradicional, em que grandes torres são instaladas em áreas extensas e que necessitam de terrenos representativos para sua implementação, o subterrâneo é utilizado em áreas mais adensadas, com poucos terrenos disponíveis, como regiões metropolitanas.

“O modelo serve quando é necessário transpor obstáculos importantes ou quando temos problemas de ocupação urbana. Na capital paulista, hoje é muito difícil imaginar uma linha de transmissão rasgando a cidade. Por isso, usamos as linhas subterrâneas, com cabos modernos e seguros”, diz Rui Chammas, CEO da ISA Energia Brasil, em entrevista ao NeoFeed.

O projeto Rio Grande, entregue no fim de março deste ano, amplia a segurança do fornecimento de energia para cerca de dois milhões de moradores da Região Metropolitana de São Paulo. Além do linhão subterrâneo, o sistema também conta com nove quilômetros de linhas aéreas.

Ainda que represente um custo um pouco maior do que a operação aérea, o executivo afirma que, em algumas situações, é a solução possível para o avanço de energia elétrica. O leilão desta linha ocorreu em janeiro de 2020, com um deságio de 57,9%.

O sistema subterrâneo ainda representa uma pequena parcela da operação da ISA Energia no Brasil. Mas a tendência é de crescimento, ainda que ele possa representar um custo um pouco maior do que a torre tradicional.

Hoje, o sistema elétrico da companhia é composto por mais de 23 mil quilômetros de circuitos aéreos, 153 quilômetros de transmissão subterrânea e 26 quilômetros no modelo subaquático.

“É uma linha longa subterrânea, que nasce a partir do projeto de trazer maior robustez para a região metropolitana. Parte dessas linhas está em circuitos radiais, e o projeto permite fechar esses anéis, garantir mais segurança e atender uma maior carga. No fim, todas essas linhas se conectam”, afirma Chammas.

Sob a terra

Na prática, o sistema começou a operar em outubro, cinco meses antes do prazo estabelecido pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), mas ainda não estava em plena capacidade - o uso da totalidade dependia da conexão de uma distribuidora em seu sistema, que ocorreu no início deste ano.

O projeto envolve uma receita anual de R$ 93,1 milhões para a companhia, levando em conta o ciclo tarifário 2025/2026. Além da linha subterrânea, a ISA Energia também entregou uma nova subestação com 800 megavolt-ampere (MVA) de potência em São Caetano do Sul, além da ampliação de duas existentes, na capital paulista.

Segundo o CEO, a necessidade de implementação deste modelo também tem relação direta ao crescimento de demanda por energia, a partir do crescimento econômico da região, o avanço da necessidade do uso em eletromobilidade, a partir de veículos elétricos, e pela implementação de data centers.

Além do avanço subterrâneo, a companhia tem outros planos de investimentos para os próximos anos. Até 2030, a empresa trabalha com um pipeline de R$ 12,3 bilhões em aportes. Deste total, R$ 6 bilhões são para quatro projetos greenfield a partir de concessões conquistadas em leilões, e mais R$ 6,3 bilhões para renovação de parques já instalados.

Os quatro projetos em construção - Piraquê (Minas Gerais e Espírito Santo), Jacarandá (São Paulo), Serra Dourada (Bahia e Minas Gerais) e Itatiaia (Minas Gerais e Rio de Janeiro) - envolvem expansão de linhas aéreas de transmissão e uma soma de receita anual de R$ 826 milhões, à medida que entrem em operação.

Segundo Chammas, com o aumento da transição energética para um modelo mais sustentável no Brasil nos últimos anos, a partir de leilões de fontes renováveis, principalmente na conexão entre o Nordeste e o Centro-Sul, houve a necessidade de mais investimentos para justamente atender este aumento de demanda nacional. Isso explica o aporte bilionário em melhorias.

Somente no ano passado, a companhia alcançou volume de R$ 5,1 bilhões em investimentos para melhorar a segurança do Sistema Interligado Nacional (SIN), gerenciado pelo Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS). Deste volume, R$ 1,7 bilhão foram em projetos de melhorias no estado de São Paulo.

Entre 2013 e 2026, o portfólio da companhia mais que dobrou, passando de 15 para 34 concessões no Brasil. Isso não significa, no entanto, segundo o CEO, que o foco da ISA Energia esteja exclusivamente em quantidade.

“Muita gente acha que ganhar leilão é fazer a empresa crescer. E não é isso. O que faz a companhia crescer é estudar muito bem o lote, ganhar e, de forma competitiva, conseguir entregar o projeto”, explica.

A empresa, que não participou do último leilão de transmissão, realizado em março, com mais de 38 mil quilômetros de linhões previstos no Brasil até 2034, enxerga três regras para justificar sua presença nos certames: que os projetos sejam rentáveis, que a disciplina financeira seja respeitada e que não afetem a prática de pagamentos de proventos previstos aos acionistas.

“A gente precisa ser muito cuidadoso na alavancagem da companhia nos próximos anos. Com o volume de R$ 12,3 bilhões até 2030, nossa alavancagem deve chegar perto de 4 vezes, e não queremos ultrapassar essa marca”, diz. Ao fim de 2025, a relação dívida líquida versus Ebitda da ISA Energia chegou a 3,63 vezes.

Com esta perspectiva de crescimento, o Bank of America (BofA) reportou, em relatório publicado na segunda-feira, 13 de abril, upgrade na avaliação das ações da companhia, passando de venda para compra. Os analistas projetaram aumento também no preço-alvo de 12 meses, passando de R$ 26 para R$ 35.

Armazenamento de baterias

Por isso, segundo o executivo, a empresa não tem “nenhuma paixão”, em suas palavras, por algum tipo de tecnologia específica. Para ele, o importante é que o modelo possa ser rentável para a companhia.

Neste sentido, para o executivo da ISA, não há preocupação no fato de 2026 ser um ano eleitoral, porque, segundo ele, as regras para o setor elétrico brasileiro são muito bem estabelecidas, com segurança jurídica estabelecida.

De qualquer forma, Chammas reconhece que a ISA Energia está atenta ao provável leilão de reserva de energia por meio de bateria, que deve ter edital publicado ainda neste mês.

“Entendo que esta poderá ser uma solução importante para esta necessidade de potência que a gente tem, ao final de cada dia. A gente busca ser pioneiro, porque quem tem o pioneirismo acaba aprendendo mais rápido”, afirma o CEO.

Neste quesito, a ISA Energia tem um diferencial em relação aos seus potenciais clientes. A empresa implementou uma espécie de projeto-piloto de transmissão, por meio de bateria, na cidade de Registro, no Vale do Ribeira, em São Paulo. É o primeiro projeto de armazenamento desta modalidade em larga escala no Brasil.

“As baterias podem fazer o papel de atender o aumento da demanda, principalmente no fim da tarde. Por isso, é necessário esta reserva de capacidade. Vejo com bons olhos o estudo do uso da bateria para resolver este problema no País.”

A energização começou em novembro de 2022, com investimentos de R$ 146 milhões. O projeto atende cerca de dois milhões de moradores do Litoral Sul de São Paulo.

Em 2025, a receita da ISA Energia foi de R$ 4,35 bilhões, uma redução de 4,5% sobre o ano anterior. O lucro líquido foi de R$ 1,62 bilhão, redução de 21,7%. Em compensação, o capex no ano cresceu 40,4%.

No acumulado de 12 meses, as ações da ISA Energia na B3 registram valorização de 41,4%. Em 2026, a alta é de 17,2%. A companhia tem valor de mercado de R$ 21,7 bilhões.