Nova York – O fio condutor do Brazilian Regional Markets (BRM), evento organizado pela Apex Partners, é que o Brasil está sendo mal precificado. E quem perceber isso antes terá uma janela rara de oportunidade.
Em meio à divulgação do estudo sobre as onças regionais, ao qual o NeoFeed teve acesso em primeira mão, essa convicção apareceu na apresentação de gestores que decidiram recolocar capital no Brasil e de empreendedores que estão longe dos principais centros do País.
"Quando todo mundo desistiu do Brasil, eu voltei a investir", disse Cristiano Souza, fundador da Zeno Equity Partners e que foi cofundador da gestora Dynamo, que vive há mais de uma década em Londres e tcuja gestora tem US$ 300 milhões sob gestão.
Assim como ele, outros participantes do BRM buscaram falar sobre a assimetria macroeconômica, a geopolítica da energia e as vantagens brasileiras dos recursos naturais, a democratização do mercado de capitais e a fronteira científica. "Não há como negar: o Brasil é um berço de oportunidades. É a cereja do bolo", diz. "Quando todo mundo desistiu do Brasil, eu voltei a investir."
Depois de passar 11 anos sem investir no Brasil, Souza decidiu mudar de posição justamente no momento em que o pessimismo com o País parecia atingir o ápice.
O fundador da Zeno Equity Partners contou que voltou a alocar capital na América Latina no fim de 2024 e início de 2025, um período marcado pelo dólar acima de R$ 6, bolsa pressionada e discursos negativos sobre o Brasil por parte de grandes investidores.
"Quando o Stuhlberger falou mal do Brasil, o Rogério Xavier falou mal do Brasil, o Márcio Appel falou mal do Brasil, eu parei e pensei: 'Está na hora de olhar o Brasil de novo'", afirmou o investidor.
Segundo ele, o movimento resultou em uma realocação relevante do fundo global que administra. Hoje, cerca de 25% do portfólio está na América Latina, majoritariamente no Brasil, além de uma posição menor na Argentina.
A decisão, segundo Souza, veio da percepção de que o mercado brasileiro entrou em um momento raro de assimetria: excesso de pessimismo sobre os riscos e pouca valorização das oportunidades.
"Os riscos estão superestimados e os retornos, subestimados"
Para complementar sua tese sobre o momento do Brasil, o fundador da Zeno Equity Partners afirmou que uma das combinações mais atraentes para um investidor de longo prazo está na combinação de riscos superestimados e retornos subestimados.
"O que eu procuro como investidor são situações em que os riscos estão superestimados e os retornos, subestimados", disse Souza.
Na visão dele, isso acontece hoje no mercado brasileiro. Souza citou como exemplo o momento em que comprou ações da Localiza a R$ 27. "Era óbvio que ali havia riscos superestimados e retornos subestimados", afirmou, abrindo uma de suas posições.
O investidor fez um contraponto com os Estados Unidos, especialmente com o entusiasmo global em torno da inteligência artificial. Para ele, embora a revolução tecnológica seja real, há atualmente um desequilíbrio nas expectativas.
"Ninguém vai dizer que inteligência artificial não é uma revolução inacreditável. Mas, claramente, os riscos estão subestimados e os retornos, superestimados."
"O mundo está short em energia; o Brasil, long"
Diante dessa tese, o Brasil vive hoje um momento de grande desalinhamento entre percepção e realidade econômica, criando oportunidades relevantes para investidores.
A tese geopolítica, por exemplo, está no centro dessas oportunidades. Para o fundador da Zeno, o mundo vive hoje uma escassez estrutural de energia (especialmente na Ásia e na Europa), enquanto a América Latina ocupa posição oposta.
"O mundo está cada vez mais short em energia", afirmou Souza. "A Ásia inteira está short em energia. A Europa está short em energia."
Do outro lado, argumentou, está a América Latina, especialmente Brasil e Argentina, com capacidade excedente, recursos ainda não explorados e maior estabilidade institucional.
"Qual é o lugar onde eu consigo ter acesso à energia em um ambiente geopoliticamente estável? Só tem um lugar no mundo", disse.
"O juro no Brasil está errado"
Souza afirmou que investidores estrangeiros enxergam um desalinhamento evidente entre inflação e juros no Brasil. "O consenso lá fora é que o juro no Brasil está errado", disse.
O fundador da Zeno Equity Partners comparou o cenário brasileiro ao americano. Segundo ele, a inflação brasileira roda perto de 4%, enquanto nos Estados Unidos está em torno de 3%. "Tem 1 ponto percentual de diferença só. E os juros em um lugar são 4%; no outro, 14%. Está errado", disse ele.
Na visão dele, esse diferencial exagerado ajuda a explicar por que ativos brasileiros ficaram excessivamente descontados nos últimos anos. E também por que o Brasil voltou a entrar no radar de investidores globais.
"Ninguém fica rico investindo no CDI"
O debate sobre o excesso de conservadorismo do investidor brasileiro apareceu em tom provocativo durante o BRM.
O fundador e CEO da Apex Partners, Fernando Cinelli, cobrou uma mudança cultural no mercado de capitais brasileiro ao criticar a obsessão nacional pelo CDI e pelos títulos públicos. "O brasileiro precisa parar de se comparar com o CDI", afirmou ele.
Segundo ele, o País continuará preso a juros elevados enquanto a maior parte da poupança doméstica continuar financiando o governo em vez de empresas e projetos produtivos.
"O CDI vai ficar no patamar em que está enquanto a gente continuar emprestando dinheiro para o governo. Ninguém fica rico investindo no CDI. CDI é para quem já é rico", afirmou Cinelli.
Para o fundador da Apex, o Brasil precisa migrar para uma lógica de investimento mais parecida com a de economias desenvolvidas, com horizonte de décadas e foco em construção de patrimônio produtivo.
"Os europeus, asiáticos e americanos pensam retorno em décadas ou séculos. Precisamos quebrar essa mentalidade de curto prazo", complementou.