A crise dos fundos multimercados está provocando uma profunda reestruturação na SPX Capital, com a saída de sócios relevantes e a revisão do escritório da gestora de Rogério Xavier em Londres.
Marcelo Castro, sócio relevante da SPX Capital e um dos principais nomes da gestora em na capital da Inglaterra, anunciou sua saída da casa após seis anos. A comunicação foi feita pelo próprio executivo em um post no LinkedIn, no qual agradeceu aos sócios fundadores, à equipe, aos investidores e aos bancos com os quais se relacionou ao longo do período.
“Foi uma jornada intensa. Já me sinto vazio sem o zumbido diário da minha equipe e o diálogo com dealers e investidores”, escreveu Castro.
No texto, o gestor afirmou que pretende fazer uma pausa para passar mais tempo com a família, recarregar as energias e dedicar-se ao aprendizado de novas habilidades, em especial diante das mudanças provocadas pela inteligência artificial na indústria de investimentos.
A saída, no entanto, acontece em um momento de reorganização mais ampla da SPX, que tem R$ 54,7 bilhões sob gestão. Segundo apurou o NeoFeed, a gestora vinha discutindo uma revisão estrutural de seus multimercados depois de um período de performance mais fraca, que reacendeu internamente o debate sobre governança, alocação de risco e grau de autonomia dos gestores.
Os principais fundos da SPX estão abaixo do CDI nos últimos 12 meses: o Raptor acumula 5,97% de rentabilidade e o Nimitz, 9,46%, contra um CDI de 14,8%. E a gestora tem sido uma das que mais perdeu total sob gestão nos últimos anos, como mostrou o NeoFeed.
O ponto central dessa reorganização teria sido a criação de uma função de chief investment officer (CIO), desenhada para reforçar o controle agregado dos fundos, reduzir a dispersão entre os books e dar mais disciplina à distribuição de risco. Castro chegou a ser considerado para esse papel, mas a discussão esbarrou em uma divergência sobre o desenho da nova estrutura.
De um lado, estava uma visão mais inclinada à centralização, com risco, economics e decisões de portfólio mais integrados. De outro, a ideia de criar uma figura de CIO com capacidade de olhar o todo, distribuir mais ou menos risco entre os gestores e coordenar melhor o portfólio, mas preservando a independência operacional dos books.
A segunda proposta foi a vencedora e Castro não teria aceitado esse desenho, por isso sua decisão de deixar a gestora. Com sua saída, Bruno Pandolfi, um dos fundadores da SPX, deve assumir a nova função de CIO e passar a ter papel central na reorganização dos multimercados.
A missão de Pandolfi será repensar books, rever quais estratégias seguem fazendo sentido, redistribuir risco e aproximar os gestores de uma dinâmica mais coordenada.
A reflexão pública de Castro contrasta com a leitura interna de que sua saída precipitou decisões que já estavam em curso. Além dele, Marcella Libardoni, sócia antiga da casa e ligada ao book de renda fixa de Xavier, também deixou a gestora em um movimento descrito como parte do ajuste de performance e estrutura, ainda que tenha sido atropelado pelo timing da saída de Castro.
Segundo fontes ouvidas pelo NeoFeed, a gestora decidiu reduzir o risco do book de Xavier, que vinha crescendo, mas com baixa performance. E a nova acomodação sugere uma equipe menor para mais eficiência. O risco deve ser repassado para o book de equities.
Dentro da SPX, a orientação é descrita como uma volta ao que a casa sempre fez bem, com maior proximidade entre os times, mais sinergia operacional e disciplina na tomada de risco.
A discussão ganhou força após um período de performance considerado aquém do esperado. Segundo a apuração do NeoFeed, a gestora já vinha reavaliando estratégias que não justificavam capital, estudando uma estrutura mais enxuta e discutindo uma redução do risco total, com realocação para os books remanescentes.
O diagnóstico interno era que o modelo de múltiplas “caixinhas” independentes preservava a especialização, mas deixava uma lacuna de coordenação no nível do fundo.
O feedback de grandes alocadores da gestora apontava nessa direção: a autonomia dos gestores fazia sentido, mas faltava alguém olhando o todo, especialmente para conter grandes drawdowns.
Castro tinha cerca de 15% do risco das estratégias multimercado. Com sua saída, a SPX passou a zerar posições associadas ao seu book e ainda avalia como fará a redistribuição. A tendência, segundo pessoas a par do tema, é que equities receba mais risco do que antes, câmbio siga como uma das principais frentes e rates tenha algum ajuste para baixo.
A saída de Castro também acelera uma discussão sobre o escritório em Londres, que por questões tributárias ficou caro de se manter. Ele era o principal sócio que ainda permanecia na capital inglesa, depois de outros nomes importantes terem voltado ao Brasil ou se deslocado para outras geografias. A presença internacional da SPX não deve desaparecer, mas tende a ser mais seletiva.
Singapura deve continuar sendo estratégica, pela relevância do time asiático e da operação local. Londres, por outro lado, perdeu atratividade por uma combinação de custo, tributação e menor necessidade operacional. O contrato do escritório vence no começo do próximo ano, e a não renovação é uma possibilidade em discussão. O restante das pessoas em Londres deve ser realocado ao longo dos próximos seis meses, caso faça sentido mantê-las.
A decisão também depende de disposição individual para voltar ao Brasil, já que a nova liderança e a preferência operacional estão concentradas no país.
Procurada pelo NeoFeed, a SPX Capital ainda não retornou aos pedidos de entrevista.