Os Estados Unidos funcionaram como um ímã para o capital global nos últimos anos. Mas, recentemente, esse magnetismo tem passado por um rebalanceamento, com os mercados emergentes atraindo parte do portfólio dos investidores.
Nesse contexto, o Brasil voltou ao radar e alguns gestores estão conseguindo capturar esse movimento - mesmo que o País ainda seja visto com cautela em razão de não existir no País fundamentos fortes para justificar uma boa performance dos ativos nos próximos anos.
Para entender o que esse investidor global está procurando, o NeoFeed conversou com os Third Parties Distributions (TPD), instituições que fazem a conexão entre investidores e gestores de investimento, e também gestoras de recursos.
“Temos observado um interesse renovado de investidores internacionais pelo Brasil via veículos listados, em busca de liquidez, escala e acesso eficiente a emergentes”, afirma Axel Christensen, estrategista-chefe da BlackRock para América Latina.
“Esses fluxos, porém, não refletem uma aposta direcional única, mas estratégias diversificadas com exposição à bolsa brasileira dentro de uma alocação global”, complementa.
O ponto é que não há um interesse em sobrealocar no Brasil, porém a classe de mercados emergentes está muito subalocada, assim como também a América Latina. E com a guerra no Oriente Médio e a volatilidade nos países desenvolvidos, os investidores despertaram para a diversificação de classes e de regiões como hedge.
O fluxo para fundos de mercados emergentes bateu semanas de recordes desde o início do ano. Segundo dados do J. P. Morgan, os fundos de ações de mercados emergentes acumularam mais de US$ 39 bilhões em entradas no mês de janeiro, no que o banco classificou como um dos melhores inícios de ano para a classe em mais de duas décadas.
Segundo dados da LSEG Lipper, os fundos de emergentes líquidos acumularam neste ano até 22 de abril uma entrada líquida de cerca de US$ 79 bilhões em ações e US$ 15 bilhões em renda fixa, somando cerca de US$ 94 bilhões no ano.
Como o Brasil representa cerca de 5% do principal índice de ações para mercados emergentes (MSCI Emerging Markets), usado também por muitos fundos ativos como benchmark, uma estimativa é de que tenha entrado cerca de US$ 4 bilhões no Brasil em ações.
Já para bonds, o Brasil tem cerca de 9% do principal índice para alocação em títulos públicos emergentes (JPMorgan GBI-EM Global Diversified), podendo-se estimar uma entrada de US$ 1,4 bilhão nesse mercado no ano.
Segundo os agentes de mercado consultados pelo NeoFeed, basicamente o que se nota é que a maior parte dessa alocação vem de estratégias líquidas e passivas.
Em vez de selecionar gestores para gerar alfa na bolsa de valores ou na renda fixa, a maioria dos investidores globais estão em busca de beta por eficiência e praticidade. Quem tem capturado isso são os grandes gestores de ETFs, como a BlackRock.
Mas quando se olha a carteira dos investidores mais sofisticados, eles estão buscando investir em teses de investimento alternativas e descorrelacionadas com regiões em guerra.
Algumas que estão em alta entre emergentes são infraestrutura, mineração (metais preciosos e terras raras), commodities e ativos reais. Nessas teses, enquanto o Brasil ganha espaço, Rússia e China continuam com o alerta de "não investíveis" por muitos investidores.
“Há dois anos, se eu falasse com 100 investidores internacionais, encontraria um interessado no Brasil. Hoje em dia, se eu falo com 100, mais de 10 têm interesse”, diz Daniel Rummery, confudador da Brunel Partners, agent placement britânico que atua na América Latina.
A empresa conseguiu captar, nos últimos 12 meses, quase R$ 3 bilhões para fundos de gestoras brasileiras ou coinvestimentos.
Entre os exemplos estão um aporte de US$ 40 milhões de um endowment americano na CapSigma, investimentos no Starboard Fund IV, da Starboard Asset; um cheque de US$ 15 milhões de um endowment americano no OneVC Fund III, da OneVC; e também US$ 15 milhões em um club deal com a HIX Capital.
Para os próximos três a quatro meses, há um pipeline adicional de R$ 2 bilhões a R$ 3 bilhões com demanda para fundos e club deals de infraestrutura, além de minerais críticos, ou estratégias de crédito e special situations na América Latina.
“Os perfis de investidores que já estão fazendo coisas são family offices, endowments e fundos soberanos. O que ainda não apareceu são os fundos de pensão internacionais. Eles tendem a ser os últimos, os caras mais lentos. Não vão ser os que investem no começo do ponto de entrada, mas vão chegar”, afirma Rummery.
A Capital Strategies, third party europeu, afirma que o capital estrangeiro tem buscado hoje alternativas mais específicas, com menos correlação com Estados Unidos e Europa, o que acaba abrindo espaço para o Brasil em frentes nas quais o País tem escala e ativos relevantes. E conversas estão em andamento.
“O que eu tenho sentido é uma demanda por assets descorrelacionados com os grandes mercados, desde fundos de arbitragem e frontier markets até estratégias ligadas a ativos reais", diz Leonardo Lombardi, business partner da Capital Strategies.
"O Brasil aparece com possibilidade em infraestrutura, em especial energia, real assets e special situations”, complementa.
Mas quem tem relacionamentos mais antigos com o investidor global tem conseguido capturar investimentos chamados de plain vanilla (expressão para classificar algo simples, não sofisticado). A Capital Strategies, por exemplo, ajudou a Bradesco Asset a captar para um fundo de renda ativo Brasil UCITS em dólar.
"Temos observado um aumento relevante do interesse de investidores estrangeiros pelo Brasil, que para nós tem chegado pela demanda em nossas estratégias de renda fixa ativa Brasil, estruturadas em veículos UCITS e com exposição ao real", diz Ricardo Eleutério, diretor da Bradesco Asset.
"O interesse é global, com destaque para investidores institucionais, como fundos de pensão e seguradoras", complementa.
A asset do Bradesco tem uma plataforma UCITS em Luxemburgo há quase duas décadas. Em 2024, reforçou essa estratégia alinhada ao movimento de internacionalização do banco.
Gestores despreparados
O investidor estrangeiro parece estar menos preocupado com o resultado das eleições presidenciais deste ano do que os brasileiros. A justificativa é que não veem uma grande possibilidade de mudança para pior.
Há, inclusive, uma pequena aposta de que pode vir um governo mais austero, algo que ajudaria a valorizar os ativos. Por isso, a lógica do investimento é uma realocação para um portfólio neutro e equilibrado no Brasil.
Por outro lado, há outro aspecto macro global positivo: a tendência de enfraquecimento do dólar e valorização de outras moedas, para os emergentes. O que dá um incentivo a mais para tirar mercados emergentes do subalocado para o neutro.
A questão é que mesmo que o movimento de escolha de gestores ativos esteja por enquanto concentrado em investidores sofisticados, o movimento poderia estar sendo colhido melhor pela indústria local se ela estivesse preparada para esse investidor.
“A verdade é que o investidor global do mundo desenvolvido encontra uma indústria despreparada no Brasil para o que ele precisa e muito desatualizada”, Leonardo Camozzato, CEO da HMC Capital no Brasil.
A primeira razão é o mandato. O investidor estrangeiro tende a preferir teses da América Latina, e não um mandato estritamente brasileiro - algo que os gestores locais insistem em fazer e vender para os estrangeiros.
A segunda é a estrutura dos produtos: taxas de administração caras, veículos pouco acessíveis ao investimento global não sendo UCITS, exigindo adaptações demais de quem investe lá fora.
E a terceira é a própria governança, com materiais, controles, monitoramento, comunicação e time que nem sempre operam no padrão internacional que esse investidor espera encontrar.
Na avaliação de Camozzato, esse descompasso entre o que o investidor global procura e o que boa parte da indústria local oferece ajuda a explicar por que o interesse pelo Brasil ainda não se traduziu em uma onda mais ampla de captação para fundos locais - apesar de as conversas terem voltado à mesa.
Dessa forma, o Brasil ganha espaço nos portfólios, mas quem mais está capturando com isso são as grandes gestoras globais com mandatos de emerging markets, América Latina e no formato e no custo atrativo para esses investidores.
Mas essas assets têm buscado os gestores brasileiros para capturar oportunidades através de coinvestimentos, principalmente com gestoras de grandes bancos, que podem fazer veículos em Luxemburgo e têm estrutura para ter o padrão internacional.
“Se o coinvestimento funcionar e o investidor estrangeiro conhecer melhor o gestor, a chance de daqui a alguns anos ele investir no fundo é maior”, diz Camozzato. “E se ele começar a ter esse gringo como investidor, a barra de serviço dele vai subir de forma natural”.
Assim, os gestores locais começam a ter a chance de trabalhar como originadores de grandes assets, o que pode ser um passo importante para o amadurecimento da indústria local. Quem pegar esse bonde de realocação agora e se desenvolver com isso, sai na frente para quando a demanda for realmente de aposta no Brasil.