Os planos de previdência privada sempre foram conhecidos pelo diferencial da tributação em meio à acumulação de recursos para a aposentadoria. Mas, após as mudanças regulatórias no VGBL, a captação bruta no setor caiu R$ 157 bilhões em 12 meses até janeiro, segundo dados da Fenaprevi.
De olho em uma nova avenida de crescimento após essas mudanças, a Bradesco Vida e Previdência está lançando um produto de previdência chamado de Proteção a Dois. Ele combina cobertura de morte e invalidez com formação de reserva financeira para duas pessoas dentro de um único contrato.
Diferentemente dos PGBL/VGBLs, a proposta não é uma renda de aposentadoria, mas proteger os segurados em caso de sinistro, funcionando mais como um seguro e não precisando ter todo o valor acumulado para sacar o valor de proteção.
Ao mesmo tempo, tem a possibilidade de resgate do valor acumulado a qualquer momento, conforme regras do plano contratado. Aportes de acumulação podem ser feitos mensalmente ou em aporte único. O produto não está atrelado a fundos de investimento e sua rentabilidade é fixa em IPCA+2,5%.
“A beleza do produto é que ele é cerca de 30% a 40% mais barato do que você contratar individualmente dois seguros de vida, em que um cobre o outro. Além de também formar uma reserva financeira como um seguro resgatável”, diz Estevão Scripilliti, diretor da Bradesco Vida e Previdência.
A estrutura foge do modelo tradicional que domina o setor. Segundo Scripilliti, o mercado de previdência hoje está muito concentrado nos produtos de acumulação com característica mais financeira do que atuarial, como os PGBLs e VGBLs.
Mas, segundo ele, nem sempre foi assim. Nas décadas de 1980 e 1990, a previdência tinha mais cara de cobertura de risco, com produtos voltados ao pagamento de pecúlio e pensão. Foi só depois que o mercado passou a se concentrar nos planos de acumulação.
“A nossa intenção é cada vez mais complementar os PGBLs e VGBLs com outras possibilidades de solução dentro da previdência. Coberturas de risco, com a engenharia mais criativa possível, para atender necessidades que vão além de aposentadoria e sucessão”, diz o executivo.
O produto atende a um público mais amplo do que a imagem clássica do casal com filhos que pretende se aposentar ou que tem foco sucessório que marcou boa parte da expansão da previdência privada no Brasil nos últimos anos. Ele mira o que nos Estados Unidos é chamado de DINK, sigla para double income, no kids, que são casais sem filhos. Perfil que vem crescendo no país.

Dados do último Censo divulgados pelo IBGE mostram que os casais sem filhos representavam 24% dos lares brasileiros, ou 13,9 milhões de famílias, e se tornaram a composição que mais cresceu desde 2000.
“Se a gente conseguir 10% desse mercado endereçável, já seria bastante coisa. E ainda acreditamos que esse perfil familiar pode crescer ao longo do tempo”, afirma Scripilliti.
O plano de previdência vai além de casais para qualquer relação de dependência financeira mútua, como pais e filhos, irmãos, amigos e, principalmente, pequenos negócios com dois sócios.
Ao mesmo tempo, o lançamento é uma resposta a uma necessidade do mercado de encontrar novas originações em um momento em que o VGBL perdeu fôlego – já que ele corresponde a cerca de 90% do mercado de previdência.
Como o NeoFeed mostrou, a taxação de IOF de 5% sobre grandes aportes no VGBL interrompeu o ciclo de expansão da indústria e colocou a previdência em “modo rouba-monte”, com competição mais centrada em portabilidade e migração de patrimônio já existente.
O Bradesco entende que a Proteção a Dois não irá compensar as perdas do VGBL no curto prazo, um produto já maduro e com muita reserva de capital. Mas é o início de uma diversificação que a seguradora quer fazer.