Com passagens por gestoras como Tarpon, Kamaroopin e Patria, José Eduardo Andrade gostaria de investir parte do patrimônio de sua família em casas que oferecessem acesso qualificado a gestores internacionais e que apostavam em tendências seculares, aqueles movimentos que independem de ciclos econômicos de curto prazo.
Depois de tanto procurar, Andrade diz que não encontrou nenhuma casa que atendesse aos seus critérios. “A conclusão a que eu cheguei é que não tinha. E eu falei, acho que está na hora de eu empreender”, diz Andrade, ao NeoFeed.
Foi assim que surgiu a Why Capital, gestora que tem foco exclusivo em investimentos internacionais em ações, mas com duas estratégias diferentes.
A primeira é que 70% da alocação de recursos será destinada a três a cinco gestores de ponta dos Estados Unidos e Europa. A segunda é destinar 30% em coinvestimentos diretos com empresas que estão alinhadas às tendências seculares.
O molho que une essas duas estratégias é a filosofia de Andrade: investimentos de longo prazo (ele se diz discípulo de Warren Buffett), portfólios concentrados, foco em growth com margens altas e ROIC (Retorno Sobre o Capital Investido)
elevado e acesso difícil.
Por esse motivo, o foco da Why Capital é buscar LPs institucionais e estáveis, que entendam a filosofia que mistura investimentos em bolsa (portanto, líquidos), mas que têm a prazo de fundos de private equity ou venture capital para dar retorno. Quem aloca recursos na gestora, por exemplo, tem um lock-up de três anos.
Nesse primeiro momento, a Why Capital – cujo nome vem do acentuado sotaque mineiro de Andrade e da razão de fazer muitas perguntas quando era criança – surge com US$ 10 milhões sob gestão, uma espécie de seed money que veio de family and friends e do patrimônio de sua família – ele é neto de Eduardo Borges de Andrade, que fundou a CCR (hoje rebatizada de Motiva) com Andrade Gutierrez, Camargo Corrêa e Odebrecht.
Nos últimos 12 meses, Andrade mergulhou de cabeça na gestora. Com a ajuda da ferramenta de inteligência artificial Claude (que ele chama de “Claudinho”), Andrade avaliou 1.900 fundos, estudou 40 com profundidade e aprovou três.
Os três escolhidos são ValueAct Capital, dos EUA, que é um fundo ativista que participa de boards (Microsoft, Salesforce, Visa), Valley Forge Capital, de Miami, que é mais passivo e conta com um portfólio concentrado, e TCI Management, de Londres, famosa globalmente por sua estratégia de investimento ativista e focada em valor a longo prazo.
No caso de investimentos diretos, Andrade selecionou empresas como Visa, Vail Resorts, ASML e Synopsys. “São empresas que estão debaixo do radar, com exceção da Visa, mas que têm monopólios não regulados”, afirma ele.
No caso da Visa, a razão do investimento é que a companhia está criando uma infraestrutura para pagamentos digitais. Já a Vail Resorts é uma tese de resiliência climática e baseada na tendência de as pessoas gastarem mais com experiências do que objetos. “Ela tem 35% do mercado de esqui dos Estados Unidos.”
A holandesa ASML, por sua vez, tem monopólio global em máquinas de litografia, equipamentos de alta precisão de US$ 400 milhões que são a base insubstituível da cadeia de produção de semicondutores avançados, impulsionada pelo setor de IA. E a Synopsys tem duopólio global em software de design de chips.
O Brasil não está no radar da Why Capital. Andrade diz que essa decisão não é ideológica, e sim matemática. O universo de empresas brasileiras é pequeno — cerca de 350 listadas — e apenas uma fração delas apresenta retornos sobre capital que se aproximam do padrão americano.
“Só 20 empresas da Bolsa Brasileira tiveram ROIC acima de 20% em 2025”, afirma. Nos Estados Unidos, esse número passa de 500. A diferença de escala, profundidade e liquidez cria um ambiente em que é mais fácil encontrar negócios com vantagens competitivas duradouras, monopólios discretos e capacidade de reinvestimento — exatamente o tipo de empresa que a gestora procura.