Criada em torno de yoga, bem-estar e equilíbrio, a Lululemon vive hoje uma disputa nada zen, com seu fundador, Chip Wilson, tentando voltar a influenciar os rumos da companhia mais de 10 anos após ter saído sob alegações de conflitos de interesse.

A varejista de artigos esportivos divulgou uma carta em que se posiciona contra Wilson, depois que o fundador indicou três nomes para disputar as três vagas do conselho de administração em votação na assembleia anual de 25 de junho. O board pede aos acionistas que votem nos candidatos da companhia — Chip Bergh, Esi Eggleston Bracey e Teri List — e rejeitem a chapa do fundador.

A disputa deverá ser definida por um grupo de investidores de peso. Wilson ainda é o maior acionista individual da Lululemon, com cerca de 9% do capital. Mas a base acionária é pulverizada e tem entre seus principais sócios as quatro maiores gestoras de ativos do mundo — Vanguard, BlackRock, State Street e Fidelity — que, juntas, somam mais de US$ 37 trilhões sob gestão. Na Lululemon, as posições dessas gestoras são, respectivamente, de 7,2%, 7%, 4,1% e 3,9%.

Entre os acionistas da companhia também está Michael Burry, investidor que ficou famoso por antecipar a crise do subprime de 2008. No último informe público da Scion Asset Management, ele dobrou sua posição na companhia, de 50 mil para 100 mil ações.

A ofensiva de Wilson se apoia no argumento de que a Lululemon perdeu parte de sua alma criativa e precisa recolocar produto, marca e consumidor premium no centro da estratégia. Para as três cadeiras em disputa, ele indicou Laura Gentile, ex-executiva de marketing da ESPN; Eric Hirshberg, ex-CEO da Activision; e Marc Maurer, ex-CEO da On.

Na carta, a Lululemon afirmou que Wilson deixou o conselho há mais de uma década por “razões bem documentadas” e que, desde então, vem “atacando a companhia e o conselho há muitos anos, prejudicando a marca e os acionistas”. Segundo a empresa, o fundador tenta “recuperar a influência sobre a companhia que ele cobiça desde que saiu”, tem “visões ultrapassadas” sobre o posicionamento da marca e “conflitos de interesse preocupantes”.

A empresa também classificou suas táticas como “disruptivas” e “prejudiciais à marca”, afirmando que elas prejudicam acionistas, afastam clientes e minam o trabalho dos funcionários.

Wilson foi CEO da Lululemon desde sua criação, em 1998, até dezembro de 2005, e seguiu no conselho, do qual foi presidente até dezembro de 2013. A saída definitiva veio em fevereiro de 2015, quando deixou o board após a companhia concluir que a Kit and Ace, marca criada por sua mulher e seu filho, concorria com a Lululemon.

Quem assina a carta da Lululemon aos acionistas é Martha Morfitt, presidente do conselho da companhia. Morfitt entrou no conselho em 2008, quando Wilson ainda era uma das figuras centrais da empresa, e conviveu com o fundador no board até sua saída, em 2015.

A tentativa de Wilson de reconquistar influência ocorre em meio a críticas sobre a perda de fôlego da Lululemon no mercado americano, dúvidas sobre a capacidade de inovação da marca e uma forte queda das ações, que recuam 42,6% desde o início do ano. A própria companhia reconhece a necessidade de “reenergizar o motor criativo de produto”, acelerar a inovação e reforçar o posicionamento premium da marca.

No quarto trimestre fiscal de 2025, encerrado em 1 de fevereiro, a companhia registrou receita líquida de US$ 3,6 bilhões, alta de 1% em relação ao mesmo período do ano anterior. O lucro líquido caiu de US$ 749,5 milhões para US$ 586,9 milhões, enquanto o lucro por ação diluído recuou de US$ 6,14 para US$ 5,01.

Até a votação, em 25 de junho, Lululemon e Wilson tentarão convencer uma base acionária majoritariamente institucional a decidir quem terá voz no próximo ciclo da companhia: o fundador que diz querer recuperar a alma criativa da marca ou o board que afirma estar protegendo a empresa do próprio criador.

Até agora, nenhum dos grandes investidores se posicionou sobre o tema. Burry também não detalhou uma tese específica para a Lululemon, mas disse que as ações da companhia fazem parte de uma “queda de baleias longe do espetáculo principal” — em referência a grandes empresas abandonadas pelo mercado enquanto as atenções se concentram na inteligência artificial.