A privatização da Copasa, a estatal mineira de saneamento, pode movimentar mais de R$ 13 bilhões. Especialistas e gestores de fundos ouvidos pelo NeoFeed admitem o favoritismo no leilão de duas gigantes do setor – Sabesp e Aegea –, cujo resultado deve gerar ao final a maior campeã de saneamento do País, que passará a liderar o mercado com folgas.
Chama a atenção, porém, alguns fatores que podem virar esse jogo. Um deles é a complexidade envolvendo a operação de saneamento da Copasa. São cerca de 830 municípios, implicando lidar com centenas de stakeholders pulverizados.
Trata-se de um desafio relevante para qualquer novo controlador, inclusive a Sabesp, a maior empresa de saneamento do País, que lida em São Paulo com municípios mais concentrados.
Por isso, o mercado considera a possibilidade de uma surpresa no certame. Essa outra opção seria uma terceira via “puro-sangue”, ou seja, um consórcio formado por um grande player financeiro (banco ou fundo de investimento) e uma construtora com alta capacidade de execução, resultando em custo de capital competitivo.
“O setor está aguardando os próximos passos da privatização da Copasa e esperamos que haja grande concorrência”, afirma Christianne Dias, presidente da Associação Brasileira das Empresas de Saneamento (Abcon).
“É o maior processo de privatização do ano no setor”, complementou ela, que também foi diretora-presidente da Agência Nacional de Águas e Saneamento do Brasil (ANA).
O leilão prevê a entrada de pelo menos um investidor estratégico, que poderá ficar com até 30% da companhia. Sabesp e Aegea já confirmaram participação nessa etapa. Outros 15% dos papéis serão oferecidos ao mercado, com o governo de Minas Gerais podendo reduzir sua participação de 50,3% para 5%.
Somando a outorga mínima definida pelo governo de Minas Gerais para o leilão de privatização da Copasa, de R$ 3,1 bilhões, com a oferta secundária, que pode render entre R$ 8,8 bilhões a R$ 10 bilhões, a privatização da Copasa pode movimentar mais de R$ 13 bilhões.
Vencer o leilão, portanto, é apenas o primeiro desafio para quem assumir a Copasa. A estatal mineira ficou mais cara depois da valorização recente das ações - acumula 20,15% de alta no ano - e vai exigir investimentos relevantes para cumprir metas de universalização.
No caso das duas favoritas, como observou um gestor que não quis se identificar, cada potencial interessado tem uma fragilidade a resolver. “A Sabesp precisa explicar a lógica de expansão e governança fora de São Paulo e a Aegea deve responder ao tema de estrutura de capital, controles internos e capacidade de absorção”, adverte.
Nesse sentido, duas possibilidades fazem parte desse cenário. Não está descartada, por exemplo, a formação de consórcio incluindo uma das duas gigantes de saneamento vencedora com algum banco ou gestora para dar músculo financeiro à operação.
Entre as possibilidades de parcerias, existe da Sabesp com a Equatorial (acionista de referência da companhia paulista) e da Aegea com a Kinea ou Perfin, gestoras com as quais a empresa de saneamento se aliou para arrematar a privatização da Corsan.
Novos entrantes
O amplo leque de possibilidades para o leilão da Copasa é visto por especialistas como reflexo do momento vivido pelo mercado de saneamento.
Desde a entrada em vigor do Marco Legal de Saneamento, em 2020, já foram realizados 64 leilões. O grande volume de capital exigido para cumprir as metas do marco - 99% da população com acesso à água potável e 90% da população com coleta e tratamento de esgoto, ambas até 2033 – facilita a chegada de novos entrantes no setor.
Roberto Marinho, sócio-fundador da Yards Estruturados - empresa de investment banking com atuação no setor de infraestrutura -, afirma que o setor viveu grande euforia há cerca de três anos, com ativos hiperprecificados, como no Rio de Janeiro, onde a estatal Cedae dividiu a concessão em quatro blocos.
O executivo lembra que a Aegea arrematou dois blocos da Cedae e participa de um terceiro por meio de um consórcio com o GIC, fundo soberano de Singapura, que tem participação acionária na gigante de saneamento, assim como Itaúsa e o Grupo Equipav.
Marinho atribui os problemas recentes da Aegea - precisou republicar seu último balanço financeiro por supostas inconsistências contábeis – à alta inadimplência no Rio, subestimada à época do leilão. Ele cita outros casos de má precificação, como no Ceará e, mais recentemente, na Paraíba (Cagepa), onde a espanhola Acciona venceu com margem mínima.
Embora cite a Sabesp como favorita no leilão da Copasa, pondera que a Aegea, apesar do balanço pressionado, segue no jogo. “A resiliência da Itaúsa, sua principal acionista, será decisiva: com apoio mantido, a Aegea permanece forte”, diz.
Marinho não vê espaço dno leilão de uma gestora com participação-chave na Copasa - a Perfin, que detém 15% das ações da estatal mineira. “A Perfin precisaria de um controlador experiente ao lado para suportar o volume de investimentos; o vencedor não se define apenas pelo tamanho do cheque, mas pela qualidade da execução”, adverte.
Fontes do mercado financeiro preveem a Perfin buscando, no máximo, um aumento de participação na Copasa para 20% via compra de ações no mercado secundário, o que lhe daria mais peso na empresa.
Por isso, Marinho aposta na chamada terceira via, com o potencial retorno de grandes construtoras, como Andrade Gutierrez e Odebrecht.
“Essas empresas têm conhecimento profundo e capacidade de execução que players estrangeiros não possuem”, diz ele. “Poderiam se associar a fundos financeiros, formando consórcios competitivos e surpreendendo o mercado."
Um executivo do setor da construção civil ouvido pelo NeoFeed, que pediu para não ser identificado, descartou a possibilidade de as duas empreiteiras participarem do leilão.
Segundo ele, a Odebrecht jamais manifestou interesse. E a Andrade Gutierrez busca a todo custo chegar a um acordo extrajudicial com credores para reestruturar dívidas que podem ultrapassar os R$ 5 bilhões.
“Além disso, a Andrade Gutierrez está respondendo a processo administrativo importante dentro da própria Copasa, em razão de irregularidades na licitação da principal estação de tratamento de esgoto prevista no atual ciclo de investimentos da estatal”, diz essa fonte.
Procuradas, as duas empresas se posicionaram. Por meio de nota, a Andrade Gutierrez afirmou que não tem o que comentar sobre o assunto. A Odebrecht foi na mesma linha, afirmando que a empresa prefere não se manifestar sobre o leilão da Copasa.
Outros gestores e consultores, porém, citam a Acciona como uma empresa com esse perfil de empreiteira como nova entrante no setor de saneamento. A gigante espanhola virou um player relevante em infraestrutura pesada no País, com presença em três frentes principais - integra o consórcio que administra o Aeroporto de Congonhas e é responsável pela construção e operação da Linha 6-Laranja do Metrô de São Paulo, o maior projeto de PPP de mobilidade da América Latina, além de saneamento.
Na semana passada, a Acciona fechou contrato com a Cagepa, sob o modelo de Parceria Público Privada (PPP), para oferecer o serviço de água e saneamento básico de 85 municípios na Paraíba, com investimento de R$ 4,2 bilhões. A empresa espanhola também toca concessão de saneamento da Região Metropolitana de Maceió, originalmente da BRK Ambiental (adquirida pela Acciona).
Procurada, a Acciona nega intenção de participar da privatização da Copasa, nem sozinha nem por meio de consórcio.
Não é só cheque
Para Diego Fernandes, sócio do escritório Roenick Fernandes Advogados e especialista em contratos de infraestrutura, as possíveis parcerias entre Aegea e Sabesp com gestoras são mais prováveis de ocorrer do que uma terceira via puro-sangue.
“A leitura mais prudente é dizer que gestoras e fundos de infraestrutura podem ter papel relevante na composição de capital e na governança depois da operação, mas a disputa formal segue concentrada nos operadores que se credenciaram”, diz ele.
Para Fernandes, a Copasa não será vencida apenas por quem oferecer o maior cheque. “O mercado vai olhar para quem consegue sustentar a execução depois da compra, com capital, operador, governança, relação com municípios e capacidade de entregar universalização sem transformar a privatização em uma disputa regulatória permanente”, afirma.
Pedro Abrão Jr, advogado especialista em direito empresarial, enxerga a disputa pela Copasa sob três camadas: financeira, operacional e jurídico-regulatória. Segundo ele, não se trata de uma operação em que o mercado vá olhar apenas quem oferece o maior preço.
“O mercado tende a olhar também estrutura de capital, custo de financiamento, folga de covenants, qualidade da informação financeira e robustez de governança, especialmente depois dos movimentos recentes das agências de rating envolvendo a Aegea”, afirma Abrão. “A pergunta, portanto, não é apenas quem tem apetite, mas quem consegue absorver esse ativo com disciplina financeira, governança e capacidade efetiva de execução.”
Procuradas, Sabesp e Aegea se posicionaram sobre o leilão da Copasa.
A companhia paulista afirmou, por meio de nota, que o valor do ativo depende da visibilidade sobre a conversão e o desenho contratual dos demais municípios, inclusive da expansão do esgotamento sanitário onde hoje há lacunas de cobertura.
“Além disso, é fundamental que o processo deixe claro, com transparência, quais serão os critérios objetivos para seleção do investidor de referência: capacidade financeira, experiência comprovada de execução, compromisso com as metas de universalização, padrões de governança, integridade e qualidade do disclosure ao mercado”, diz a nota da Sabesp.
A Aegea, por sua vez, admitiu que avalia novas oportunidades com base em critérios técnicos, regulatórios e econômico-financeiros, respeitando disciplina de capital e retorno requerido.
“Os ajustes financeiros realizados em 2024 tiveram natureza exclusivamente contábil, sem impactos sobre as operações, caixa, liquidez ou cumprimento de covenants financeiros da companhia”, diz a nota da empresa.
“A Aegea mantém fundamentos operacionais sólidos, com crescimento de 21% na receita, 24% no Ebitda e 45% na geração de caixa no último ano, conforme divulgado em seus resultados de 2025.”
Sinal verde
O processo de privatização da Copasa entrou na reta final com a decisão do Tribunal de Contas do Estado de Minas Gerais (TCE-MG) de autorizar a transação, removendo o principal obstáculo ao processo.
Horas depois do anúncio, na segunda-feira, 18 de maio, a Copasa evitou cravar qualquer data para a realização do leilão com oferta de ações da empresa, alegando que a operação ainda depende de uma série de etapas e aprovações antes de sair do papel.
A cautela com que a estatal mineira se posicionou frente ao anúncio do TCE-MG foi contrastada com a reação do mercado financeiro, com as ações da Copasa liderando as altas do dia no Ibovespa, com valorização de 3,5%.
O papel CSMG3 acumula 127,9% de valorização em 12 meses, até 18 de maio. O valor de mercado da companhia de saneamento é de R$ 20,2 bilhões.
Colaborou Cristiano Zaia, de Brasília