O presidente argentino, Javier Milei, amarga o pior momento de seu mandato desde que assumiu o cargo, em dezembro de 2023.

Apesar do programa duríssimo de reformas econômicas, que chegou a gerar superávit fiscal inédito e alguns avanços macroeconômicos notáveis, a inflação ainda está elevada – 32,6% ao ano em abril –, o desemprego continua alto (7,5%) e a atividade industrial e o comércio seguem em queda.

Em outra frente de más notícias, um escândalo de corrupção envolvendo seu chefe de gabinete minou a popularidade do presidente argentino, que atingiu o nível mais baixo desde a posse, com 63% da população reprovando seu governo.

Para completar o quadro, Milei viu esta semana mais de 1 milhão de estudantes ocuparem as ruas de Buenos Aires por causa do corte de 45,6% do orçamento de educação, no quarto protesto contra o atual governo. Por trás das manifestações, o drama dos salários dos professores e do setor público em geral, que caíram cerca de 30% em termos reais nos últimos três anos.

A rigor, a gestão Milei pode ser dividida em dois marcos. O primeiro teve início após a posse, como presidente argentino encarando o desafio de escapar da armadilha populista num país mergulhado numa economia paralisada, com medidas para normalizar os gastos públicos a níveis compatíveis com o equilíbrio fiscal, abrir a economia ao comércio internacional e evitar ser influenciado pelas oscilações políticas durante o processo.

Os resultados positivos obtidos foram refletidos nas eleições legislativas de meio de mandato em outubro passado, com vitória expressiva e inesperada do governo. Esse apoio à sua agenda radical de cortes de custos e liberalização permitiu que ele aprovasse uma série de reformas no Congresso.

A partir deste ano, teve início o novo marco do governo, com o presidente argentino colecionando mais reveses que avanços. Embora a economia esteja crescendo, a normalização dos preços regulamentados e a abertura à concorrência internacional impactaram o setor privado.

Novos setores estão se expandindo, como energia, mineração e agricultura, enquanto outros que tradicionalmente se beneficiavam da economia fechada e inflacionária, como as indústrias de substituição de importações e, especialmente, o setor têxtil, estão se contraindo.

Parte das críticas à política econômica de Milei é voltada para sua priorização da redução da inflação em detrimento da promoção do crescimento.

Até o ano passado, essa estratégia trouxe resultados – a inflação caiu de 25% ao mês na posse, em dezembro de 2023, para 1,5% em maio de 2025. Desde então, começou a refluir, subindo por dez meses consecutivos. A inflação de abril, porém, ficou em 2,8%, uma desaceleração em relação aos 3,7% registrados em março.

Algumas medidas do governo contribuíram para essa escalada, como cortes de subsídios à energia. O choque do petróleo em março impactou o preço da carne bovina, que disparou em meio à crise global.

Tripé e escândalos

O tripé inflação-juros-câmbio é um dos grandes desafios do governo. A estratégia de Milei incluiu a defesa de um peso valorizado como ferramenta no combate à inflação.

Hoje, a moeda opera dentro de faixas amplas e tem mostrado apreciação ao longo de boa parte do ano. Esse movimento é impulsionado, em parte, pelos juros elevados, que atraem capital para o país.

O avanço da produção de petróleo e o crescimento acelerado das exportações também contribuíram para fortalecer o peso, especialmente em um contexto de aumento dos preços provocado pelo conflito no Irã.

Apesar disso, a moeda forte tem trazido efeitos negativos para a indústria, já que torna os produtos importados mais competitivos. O setor da construção civil, intensivo em mão de obra, também sofre, permanecendo em profunda recessão. Pesquisas mostram que os baixos salários e o desemprego são agora as maiores preocupações dos argentinos.t

Em abril, o FMI revisou a projeção de crescimento do PIB para 3,5% em 2026, após um crescimento de 4,4% em 2025. As grandes esperanças residem na expansão da extração de petróleo e no investimento internacional em gás e mineração.

"Olhando para o futuro, parte da transição deve incluir uma aceleração do programa de infraestrutura, implementado em grande parte pelo setor privado, não houve investimento em estradas nos últimos três anos", escreveu Nicolás Dujovne, ministro da Economia durante o governo Mauricio Macri, em artigo no jornal La Nacion.

"Uma política monetária mais clara e robusta ajudará a reduzir parcialmente a discrepância que observamos entre os indicadores macroeconômicos e as dificuldades microeconômicas", acrescentou Dujovne.

Mas as boas notícias para Milei ficaram comprometidas por um tipo de problema pouco comum em seu governo: as denúncias de corrupção. Por enquanto, são duas, mas suficientes para derrubar a popularidade do presidente argentino, que sempre apontou o dedo para os escândalos envolvendo o peronismo.

O caso mais explosivo envolve o chefe de gabinete da Presidência, Manuel Adorni, alvo de uma investigação federal por suspeita de enriquecimento ilícito. Procuradores analisam relatos de viagens de luxo, entre elas uma estadia em Aruba paga em dinheiro vivo, incompatível com seu salário oficial.

Também apuram o uso de um jato particular em uma viagem familiar ao Uruguai e a compra de um apartamento por um valor considerado anormalmente baixo, viabilizada por um empréstimo sem juros.

Adorni nega qualquer irregularidade, enquanto Milei saiu em sua defesa intensificando ataques à imprensa - numa manobra claramente com o objetivo de desviar a atenção para o caso.

O presidente argentino chegou a chamar a imprensa argentina de “escória imunda”, divulgando uma imagem gerada por IA retratando um repórter com uniforme de presidiário. A tensão culminou na proibição temporária da entrada de profissionais de imprensa na Casa Rosada, revertida apenas em maio, sob regras mais rígidas de credenciamento.

Esta semana veio à tona que o advogado encarregado de defender Adorni é o mesmo de um envolvido num caso obscuro, envolvendo o lançamento da criptomoeda LIBRA, promovida por Milei nas redes sociais em fevereiro do ano passado.

Após apoio público do presidente, o ativo disparou e, em seguida, desabou, gerando perdas estimadas em US$ 250 milhões para pequenos investidores, enquanto grandes detentores venderam no pico.

Milei negou qualquer vínculo com o projeto, mas registros telefônicos obtidos por investigadores indicam sete ligações, na mesma noite da publicação, entre o presidente e um empresário ligado à criptomoeda, agora defendido pelo mesmo advogado de Adorni.

Embora não haja provas de pagamentos ou de que Milei tenha recebido benefícios, promotores o classificaram como pessoa de interesse no caso. Todos os envolvidos rejeitam acusações de irregularidades, mas o episódio reforça a pressão sobre um governo já marcado por confrontos com a imprensa e suspeitas de favorecimento privado.