A China é o maior fenômeno da economia global dos últimos 50 anos. Desde a abertura econômica do país asiático no fim de 1978, sob a liderança de Deng Xiaoping – que marcou a transição de uma economia planejada e isolada para uma economia de mercado -, o PIB chinês aumentou nada menos que 86 vezes, enquanto a renda per capita do país cresceu 58 vezes.
Pesquisadores de várias universidades do mundo já se debruçaram sobre as políticas do governo chinês neste período para alavancar as empresas estatais e privadas no cenário internacional, com investimento em pesquisa, desenvolvimento subsidiado e amplo acesso ao crédito, entre outras iniciativas.
Um levantamento acadêmico recém-divulgado, liderado pelo pesquisador-chefe do Banco Central Europeu (BCE), Luc Laeven, no entanto, traz uma revelação surpreendente: o foco das empresas chinesas em adquirir ativos corporativos no exterior entre 2012 e 2021 teve como interesse maior a transferência de tecnologia.
Esse motivo está por trás de cerca de US$ 3,3 trilhões em ativos corporativos globais adquiridos no período por investidores chineses, estatais e privados, fortemente concentrados na Europa (42% do investimento no exterior) e na América do Norte (38%).
Os investimentos, de acordo com o estudo, concentraram-se em setores de alta intensidade de conhecimento, busca essa que aumentou após o lançamento da iniciativa governamental Made in China 2025.
O programa, anunciado em maio de 2015, tinha como objetivo central transformar a China em uma potência industrial de alta tecnologia, reduzindo a dependência de tecnologias estrangeiras e elevando a competitividade global das empresas chinesas. Nesse sentido, conclui a pesquisa, a transferência de tecnologia contribuiu de forma central para o recente avanço chinês.
O estudo surpreende pela forma com que chegou à conclusão. Leven, diretor-geral do departamento de pesquisa do BCE, e três coautores - a professora Jenny Bai, da Universidade de Georgetown; e Hong Ru e Yaojun Ke, da Universidade Tecnológica de Nanyang - reuniram um conjunto de dados em nível micro com 161.773 empresas em 159 países.
Em seguida, construíram cadeias de propriedade complexas para rastrear o capital através de paraísos fiscais offshore até sua origem final — que, segundo eles, representam mais de 80% dos ativos globais de empresas não financeiras.
Foi dessa forma que descobriram os US$ 3,3 trilhões em ativos corporativos globais adquiridos por investidores chineses no período analisado. De acordo com o levantamento, quase dois quintos desse investimento fluíram por meio de pelo menos um paraíso fiscal.
“Esse dado é relevante porque revela uma presença global chinesa substancialmente mais ampla do que indicam as estatísticas oficiais de IED (Investimento Estrangeiro Direto)”, diz o estudo.
Os autores estimam que quase US$ 800 bilhões em participações chinesas são captados por meio das Ilhas Cayman, representando quase metade dos ativos corporativos não financeiros do país no conjunto de dados.
Na prática, os ativos estrangeiros controlados por chineses expandiram-se a uma taxa de 20% ao ano, atingindo US$ 2,1 trilhões, ou aproximadamente 3% dos ativos corporativos globais em 2021.
Estratégia
Outros dados captados pelo levantamento permitem concluir os objetivos por trás dessas aquisições. Segundo os pesquisadores, os investidores chineses — particularmente as empresas estatais — visam estrategicamente empresas estrangeiras com uso intensivo de P&D e vinculadas à cadeia de suprimentos.
Após a aquisição, as empresas-alvo aumentam o estoque de capital e os gastos com P&D, mas esses investimentos não geram maior produção de patentes, cujo resultado foi descrito pelos pesquisadores como “não apenas infinitesimalmente pequeno, mas também estatisticamente insignificante”.
Além disso, os lucros das empresas-alvo sofreram um impacto negativo: o retorno médio sobre os ativos caiu 1,1 ponto percentual em comparação com o grupo de controle de empresas não chinesas no mesmo período.
Considerando que o retorno médio sobre os ativos das empresas não chinesas analisadas no conjunto de dados é de apenas 4%, esse impacto nos lucros parece significativo.
Em vez de especular se os proprietários chineses são simplesmente incompetentes em administrar empresas ocidentais, os pesquisadores buscaram uma razão para essa contradição entre elevado investimento em empresas estrangeiras e baixo retorno. E descobriram algo estratégico na matriz chinesa que sugere uma explicação alternativa.
“Encontramos evidências de ‘efeitos indiretos’ de inovação: enquanto as empresas-alvo não apresentam aumento no registro de patentes, as empresas matrizes chinesas experimentam um aumento acentuado no número de patentes concedidas após sua primeira aquisição em uma economia desenvolvida”, indica o estudo.
Ao fim do ano fiscal em que as empresas chinesas adquiriram sua primeira subsidiária em um mercado desenvolvido no exterior, o número médio de patentes registradas pelas matrizes chinesas mais que triplicou. Para as empresas estatais chinesas, o número médio de patentes registradas quadruplicou.
Ou seja, as patentes foram usadas pela matriz chinesa no mercado interno. Ao analisarem seus dados para verificar se padrões semelhantes aparecem em investimentos externos de outros países, os pesquisadores descobriram que esse padrão é exclusivo da China.
Assim, o estudo elenca algumas possibilidades. Uma delas é que os investidores que compram empresas estrangeiras com a intenção de desviar lucros precisam lidar com a retenção de impostos — deixando um saldo negativo para as autoridades fiscais estrangeiras.
Desviar propriedade intelectual pré-patente — se é que isso realmente aconteceu — pode ser uma forma de evitar a fiscalização de governos estrangeiros, impulsionar o desenvolvimento econômico doméstico e também extrair valor sem pagar impostos incômodos. Ou seja, a velha e surrada sonegação fiscal.
A ideia de que a transferência de tecnologia é uma das principais razões para o investimento chinês no exterior não é nova, apenas confirmada pelo estudo.
“A China representa, portanto, um modelo distintamente estatal de propriedade global que aceita um desempenho mais fraco no curto prazo para internalizar a capacidade tecnológica em seu país”, enfatizam os pesquisadores, em sua conclusão.
A rigor, o estudo reforça a conhecida estratégia chinesa de mirar o longo prazo, como já havia anunciado Deng Xiaoping em 1978.
As transformações causadas pelo crescimento chinês na economia global podem ser resumidas em dois indicadores. Um deles mostra que a China já representa 17,3% do PIB global, algo em torno de um sexto da economia mundial. Outro revela a participação chinesa no comércio global, respondendo por 11,6% das exportações e 10,6% das importações mundiais.
Sem transferência de tecnologia, esses indicadores não seriam tão expressivos. A ironia é que a China, que usou a exigência de transferência de tecnologia para autorizar a entrada de indústrias estrangeiras no país depois de 1978, agora se mostra radicalmente contrária à iniciativa semelhante adotada pela União Europeia para revitalizar sua indústria.