O mercado financeiro recebeu com otimismo, na quinta-feira, 29 de janeiro, o modelo de privatização da Copasa (Companhia de Saneamento de Minas Gerais), anunciado na véspera pelo governo estadual mineiro – que detém 50,3% de participação na empresa.
O Itaú BBA considerou o modelo positivo, reiterando a recomendação de compra de ações da empresa, mesma avaliação do BTG Pactual. Outros analistas do mercado ouvidos pelo NeoFeed destacaram que, a despeito da pequena queda do preço da ação no início do pregão – atribuída não a uma desaprovação ao modelo proposto, mas como realização de lucros por parte de investidores –, alguns detalhes, como a boa saúde financeira da estatal, reforçam a expectativa positiva para o leilão, que deve ocorrer até abril.
Um detalhe, porém, foi destacado pelos analistas. Ao optar por se desfazer de todas as suas ações da Copasa e usar os recursos da venda para abater parte da dívida de Minas Gerais com a União, hoje em R$ 177 bilhões, o governo mineiro na prática vai abrir mão dos ganhos de capital decorrentes da valorização dos papéis da empresa sob a gestão privada – vantagem obtida, por exemplo, pelo governo paulista na venda da Sabesp, quando manteve uma participação acionária na nova empresa.
Considerada uma das gigantes do setor de saneamento do País – juntamente com Sabesp, Aegea e Sanepar –, a Copasa cobre 637 municípios mineiros, atendendo cerca de 12 milhões de consumidores, e tem relevância estratégica, pois é considerada uma das estatais mais eficientes e atrativas ao mercado. As ações da empresa tiveram valorização de 16,15% no mês e 135,38% nos últimos 12 meses.
Sua privatização se dará por meio de uma oferta secundária de ações. Por esse modelo, o governo mineiro vai estruturar uma oferta pública (follow-on) somente com as ações de que dispõe. Após a venda, o governo reduz ou encerra sua participação acionária, caracterizando a privatização.
Como o processo será via oferta secundária dos papéis da estatal detidos pelo governo mineiro, não serão emitidas novas ações pela Copasa. A empresa, portanto, não receberá recursos diretamente com a operação – o valor arrecadado irá para os cofres do governo estadual.
A estrutura da transação inclui uma participação de 30% para um investidor estratégico, que poderá aumentar sua participação adquirindo ações adicionais dentro da oferta. O investidor de referência deverá atender a critérios de qualificação predefinidos, incluindo capacidade financeira e experiência no setor de infraestrutura comprovadas e compromisso com a meta de universalização.
Além disso, o governo estadual poderá manter uma participação de 5% se pelo menos um investidor estratégico participar da oferta, ou vender toda a sua participação se não houver investidor estratégico. Espera-se que o estatuto social da Copasa estabeleça um limite de 45% para os direitos de voto de qualquer acionista ou grupo de acionistas, independentemente de sua participação econômica.
O modelo anunciado pelo governo mineiro inclui ainda cláusulas de bloqueio. O investidor estratégico estará sujeito a um bloqueio de quatro anos sobre as ações adquiridas na oferta base. Além disso, 50% da participação permanecerá bloqueada até dezembro de 2033 ou até o atingimento das metas de universalização, o que ocorrer primeiro.
A privatização da Copasa foi aprovada pela Assembleia Legislativa de Minas Gerais em dezembro, com 53 votos a favor e 19 contra. A sessão durou mais de 9 horas, marcada por obstrução da oposição e protestos de servidores. Com a fase legislativa concluída e o modelo de privatização definido, o processo passa para uma série de etapas corporativas, técnicas e de governança necessárias para preparar o lançamento formal da oferta de privatização da Copasa.
Venda secundária
Ilan Abertman, analista de Equity Research da Ativa Investimentos, observa que ainda falta conhecer alguns detalhes do processo. Mas destaca como ponto favorável o modelo de operação por meio de uma venda secundária, na qual apenas o Estado venderá sua participação, sem a emissão de novas ações (oferta primária).
“Essa estrutura é benéfica, pois evita a diluição dos acionistas atuais”, diz Abertman, citando também a definição do acionista de referência, assim como o percentual de ações que o Estado irá vender, como pontos relevantes, por impactar a configuração do controle.
Segundo ele, o modelo proposto inclui amarras contratuais para alinhar interesses e garantir os objetivos de longo prazo, como um período de lock-up de 4 anos para o acionista de referência.
“Essa estrutura busca atrair um parceiro estratégico ou consórcio com grande porte e know-how capaz de realizar os vultosos investimentos necessários até 2033”, emenda, referindo-se ao prazo estipulado pelo Marco Regulatório do Saneamento para a universalização de serviços, garantindo 99% da população com água potável e 90% com coleta e tratamento de esgoto. A empresa detém bons índices: atingiu a meta de tratamento de água e já oferece 85% de tratamento de esgoto.
O Itaú BBA, em relatório para clientes coordenado pelo analista Filipe Andrade, afirma que o modelo traz mais visibilidade aos termos de governança e à estrutura da transação, representando mais um passo concreto rumo à privatização.
O informe, porém, chama a atenção para três pontos a serem monitorados. Serão necessários, por exemplo, esclarecimentos adicionais sobre a estrutura da transação, incluindo o mecanismo de precificação e discussões sobre o preço mínimo com o Tribunal de Contas do Estado.
Outro ponto a acompanhar é o progresso na assinatura dos novos contratos de concessão e da prorrogação dos contratos existentes, com mais detalhes sobre os termos, obrigações e metas, particularmente no contrato de Belo Horizonte, que o banco acredita estar em um estágio mais avançado. Por fim, o relatório cita a necessidade de aprovações e autorizações necessárias para a conclusão do processo, incluindo a obtenção de isenções de dívida.
“Reiteramos nossa recomendação de compra para as ações da Copasa”, reforça o relatório do Itaú BBA, que fixou preço-alvo da ação em R$ 55,90 - 8,8% maior em relação ao fechamento de quarta, 28. O banco pondera que, embora as ações já reflitam um cenário de privatização, ainda são visíveis alguns gatilhos de curto prazo antes da privatização e riscos de alta para a tese.
Perda futura
Bernardo Viero, analista da Suno Research, afirma que o modelo de privatização anunciado, somente com venda de ações existentes por parte do governo mineiro, é positivo do ponto de vista de arrecadação.
Mas, por outro lado, ao se desfazer de todas ou de uma parcela das suas ações, o governo de Minas não ficará totalmente exposto às eventuais otimizações e ganhos de eficiência que a empresa poderá destravar com uma oxigenação vinda da nova gestão privada.
“Observamos isso tanto no caso da Axia Energia (ex-Eletrobras) quanto no caso da Copel, em que mesmo abrindo mão do controle, pela manutenção de fatias relevantes das ações, tanto a União quanto o Estado do Paraná aproveitaram um ganho de capital substancial pela valorização dos papéis na medida em que a lucratividade das companhias aumentou”, afirma Viero.
Esse detalhe ganha relevância ao notar que o valor de mercado da empresa, hoje em R$ 19,47 bilhões, representa apenas 11% da dívida do governo mineiro com a União.
Neste aspecto, a dimensão operacional da Copasa reforça essa possibilidade de perda de ganhos futuros do governo mineiro caso se desfaça de todas as ações da companhia. A estatal hoje detém 637 concessões de água e 308 concessões de esgoto – o que coloca a Copasa entre as empresas com maior cobertura territorial do País, atendendo mais municípios que Sabesp e Sanepar.
Os dados do terceiro trimestre de 2025, o último balanço disponível, comprovam a atratividade que a estatal deve ter no futuro leilão de privatização. A Copasa apresentou crescimento moderado de receita (+3,4%), estabilidade no Ebitda (+0,2%) e leve queda no lucro líquido (-2%). Embora a dívida líquida tenha crescido em 17%, em relação ao mesmo trimestre de 2024, indo para R$ 6,06 bilhões, a alavancagem é considerada satisfatória – a relação dívida líquida/Ebitda está em 2,1 vezes.
Dado o tamanho da operação da Copasa, poucas são as empresas do setor de saneamento com potencial interesse em arrematar a estatal mineira. Analistas citam a Aegea, Iguá e, com menor chance, Águas do Brasil.
Entre os grupos financeiros, um nome forte citado é o da Equatorial Energia, com histórico de de transformar estatais ineficientes em operações lucrativas. Fundos e operadores de infraestrutura também são lembrados. A lista inclui CCR, Pátria, Vinci e Brookfield, que podem entrar como investidores estratégicos ou minoritários relevantes
“A tendência é do leilão ter bastante demanda, ainda mais considerando que hoje estamos em um momento com o mercado mais aquecido em relação ao período da transação semelhante na Sabesp”, diz Viero, da Suno.