Nova York - Se o inverno das startups foi o período marcado pela escassez de capital, o momento atual é o início de um novo ciclo de investimentos, marcado por empresas que amadureceram, aprenderam a gerir caixa, buscar rentabilidade e manter o crescimento mesmo com escassez de recursos.

“Hoje temos muitas empresas maduras, em estágio avançado de governança, estrutura de capital e modelo de negócio”, diz Thiago Maceira, responsável pela área de tecnologia do Itaú BBA, ao NeoFeed.

Trata-se de um ecossistema mais sólido e empreendedores de múltiplas jornadas. O interesse do investidor estrangeiro segue contínuo, não explosivo.

Para Maceira, o Brasil é visto como um mercado grande, com digitalização em curso e uma população naturalmente early adopter, uma característica impulsionada por ineficiências estruturais que forçam a inovação, como o Pix.

O executivo do Itaú BBA aponta três verticais com forte potencial nos próximos 12 a 24 meses: automação de atendimento ao cliente, automação de processos como onboarding e crédito, e o uso de dados para gerar insights.

Por outro lado, setores como e-commerce e marketplaces já estão consolidados, dominados por grandes players como Mercado Livre, Magalu e Amazon, o que reduz o espaço para novas iniciativas de nicho.

Nesta entrevista, Maceira afirma que o “inverno” ficou para trás e , embora os juros altos ainda dificultem a alocação em risco, há capital disponível para bons negócios - prova disso são as quatro captações feitas pelo próprio banco neste ano.

Leia, a seguir, os principais trechos da entrevista:

Como você avalia o momento do Brasil para esses investidores?
O ecossistema passou por uma primeira fase de crescimento, de 2019 a 2023, com a digitalização atraindo investimentos. A pandemia trouxe uma necessidade intrínseca de desburocratização, o que deu um empurrão. Depois, tivemos o ciclo chamado de “inverno da tecnologia” lá fora – uma escassez de capital que forçou os empreendedores brasileiros a gerenciar melhor suas empresas e buscar rentabilidade.

Qual foi o resultado?
O ecossistema brasileiro fez isso muito bem. A grande maioria das empresas continuou crescendo, ficando rentável, gerando caixa. Passamos por um ciclo quase completo. Hoje, os empreendedores têm empresas muito mais maduras em gestão e entendimento do próprio negócio.

Por que o investidor estrangeiro voltou a se interessar pelo Brasil?
O investidor estrangeiro olha para um país gigante em PIB, que ainda está no meio do caminho da digitalização – o Brasil deve estar na metade do que vemos na China e nos Estados Unidos. E os brasileiros são, por definição, early adopters de tecnologia, tanto no B2B quanto no B2C. Essa combinação é poderosa: mercado grande, população grande, economia grande, nível médio de digitalização que vai acelerar, e uma população acostumada a testar coisas novas. Até porque o Brasil tem cadeias de valor muito ineficientes: o brasileiro não inova porque gosta, mas porque precisa de uma solução melhor. Ouvi de um investidor americano: “É muito mais difícil inovar nos Estados Unidos porque as coisas funcionam bem’. O Pix é um exemplo. Ele foi criado porque o resto não funcionava.

Esse interesse está explodindo agora?
Não acho que seja uma explosão, é contínuo. Todo o investimento em inteligência artificial nos Estados Unidos desvia um pouco o foco dos mercados emergentes, mas é positivo ver um interesse contínuo. Já temos vários fundos baseados aqui ou na Costa Oeste com frequência de monitoramento do Brasil, sempre conhecendo os empreendedores.

Quais segmentos mais interessam atualmente?
Nos últimos dois a três anos, houve uma mudança importante. Na primeira fase, houve muito investimento em B2C, ou seja, consumidor final. Hoje, o interesse é muito grande em B2B, desde enterprise até small e medium business. O interesse em empresas focadas no consumidor final diminuiu, porque exigem muita escala e investimento, e já existem players vencedores. No B2B, ainda há muito espaço.

O que mais tem chamado a atenção?
Um segundo tema é toda a parte de data analytics e data applications – os investidores têm bastante interesse. O Brasil continua atraindo muito interesse no mundo de fintech, desenvolvemos um ecossistema supercomplexo e sofisticado, com muitas empresas boas. Aliás, o Brasil continua sendo a única região do mundo onde o dinheiro destinado a fintech é o maior proporcional.

E não há interesse por novas tecnologias?
Sim, há um interesse novo no que chamamos de novas tecnologias. Empresas da América Latina, e do Brasil em particular, estão criando aplicações para IA ou soluções de IA – isso tem atraído muito investidor. É difícil o Brasil ter muitas empresas de modelos foundation, porque o investimento necessário é enorme, mas há uma oportunidade gigantesca de aplicação de IA. Tenho visitado muitas empresas e fico surpreso com o grau de criatividade e avanço na aplicação de IA no dia a dia.

Existem exemplos de empresas?
Vou dar exemplos de áreas, para não deixar ninguém magoado. A primeira é o customer service, automação de relacionamento com o consumidor. Tem muita coisa legal vindo, com bots e IA. A segunda é a automação de processos – onboarding, know your customer, documentação, crédito – que também estamos vendo muita coisa legal. Finalmente tem um uso forte de dados para transformá-los em insights. E aqui haverá uma grande corrida.

Em que sentido?
A maioria das empresas já estruturou e organizou dados nos últimos cinco anos, mas agora, se não fez isso, precisa fazer. Essas três áreas já estão com avanços rápidos, com empresas focadas em verticais criando soluções específicas. Acho que veremos boas notícias nos próximos 12 a 24 meses.

Essa é a tese de vocês para esse período ou há outras?
Aqui no banco, temos uma cobertura bastante grande. Há quase dez anos, decidimos nos posicionar de maneira relevante no setor de tecnologia, criando um grupo dedicado. Hoje, atendemos mais de 1,5 mil startups dentro do banco, com serviços de especialização. Temos clientes de fintechs, agritechs, healthtechs, ERPs, softwares, B2C, marketplaces; de tudo. Conseguimos ter uma visão de quadro do setor como um todo. Não temos preferência ou foco específico. Onde estão a maioria das discussões hoje é em softwares verticais – há muita coisa acontecendo, alguns tentando se posicionar por causa do risco da IA, outros por causa da oportunidade. Mas a atividade de software no Brasil deve continuar, e a de fintech também.

O que ficou para trás e não chama mais atenção?
Uma área que já teve uma consolidação muito grande é a de e-commerce. Entre 2015 e 2023 foi a explosão do e-commerce. Hoje, virou um negócio de escala muito grande – vemos muito menos empresas de nicho pequeno. Você tem Mercado Livre, Magalu, Amazon, e os asiáticos vindo. São players muito grandes. Vemos menos iniciativas nessa área. As iniciativas estão mais no mundo de integração de merchants e interação com consumidor. O mesmo caminho segue o mundo dos marketplaces. O Brasil virou um mercado grande, e esse é um mercado de multiescala.

Há cerca de três anos falava-se em crise de liquidez, mas não de oportunidade, embora os valuations das startups estivessem esticados. O que mudou?
O Brasil passa por ciclos. Gosto de olhar o que estamos produzindo no mundo real. Estamos criando empresas que resolvem problemas reais. Em algum momento, falaram em bolha, mas 60% do que faço hoje – delivery no iFood, compras na Shopee ou na Dafiti, contabilidade da minha empresa pequena em software de gestão brasileiro, folha de pagamento em software – tudo isso é resolvido por empresas brasileiras. Estamos resolvendo problemas reais. Independentemente de o mercado estar mais quente ou menos, isso não vai mudar. Olho para quem cobre o setor há 15 anos: o nível de maturidade e sofisticação das empresas é outro. Temos vários founders de terceira ou quarta jornada, que agora são investidores de outras empresas.

Qual a lição de quem estava em 2015?
Não tem comparação. Olho para 2015 e brinco: como eu era otimista com aquele setor? Era quase pré-história. Isso me deixa muito otimista.

Quais são os desafios para os próximos anos?
O Brasil ainda tem carências importantíssimas de eficiência e produtividade. Nosso maior desafio para os próximos quatro anos, independentemente do governo, é aumentar a produtividade. E o setor que vai permitir isso é o de tecnologia. Se continuarmos dando acesso a capital – capital de risco, venture capital, growth capital – temos muito a aportar no Brasil. Do ponto de vista da economia real, o impacto do setor de tecnologia vai crescer e crescer muito. Acho inconcebível que na Bovespa o setor de tecnologia seja tão pouco representativo. Vamos ter algum aumento no casamento entre a importância do setor para a economia e o que ele será no mercado de capitais e M&A – o M&A já é grande parte disso. Continuo muito otimista.

O que essa crise das startups provou?
Provou que conseguimos navegar por águas mais nervosas. Os empreendedores aprenderam demais. Hoje tenho empreendedores com muito mais os pés no chão, entendimento do negócio. O mercado está mais sólido. Construímos alicerces ao passar por um ciclo grande, o que vai permitir crescimento. Estou mais otimista do que antes. A verdade é que todo mundo saiu inteiro, os barcos estão funcionando, corrigidos, andando, remando forte. O mercado brasileiro tem espaço para dobrar e triplicar nos próximos anos.

Saímos definitivamente do inverno das startups?
Não gosto muito de frases de efeito. Claramente não estamos mais no inverno. Hoje há acesso a capital para as empresas boas. Ainda não é um momento em que o mercado está 100% bom, mas para quem tem bom negócio, conseguimos capital. É um momento de estabilização. Ainda há espaço para melhorar, mas enquanto tivermos esses níveis de taxa de juros, a alocação em capital de risco é difícil – o custo de oportunidade é grande. Ainda há certa escassez de capital, mas ele existe e está fluindo. Para bons negócios, você tem acesso a capital – diferente do inverno, em que ninguém conseguia captar. Nós mesmos fechamos quatro captações este ano, um bom número, com mais no pipeline.

Qual é ou será o papel do M&A?
Cada vez mais, fusões e aquisições vão ficar relevantes. Eu disse isso ao NeoFeed [no programa Café com Investidor], errei um pouco o timing, porque achei que seria mais rápido, mas começamos a ver claramente uma consolidação. Investidores estratégicos internacionais fazendo investimentos no Brasil, players nacionais consolidando. Nos Estados Unidos, já é prática comum. Como parte do amadurecimento do nosso setor, veremos muita fusão e aquisição para ganho de escala, sinergia e rentabilidade. Estamos no circuito normal.

Nas conversas recentes com investidores estrangeiros, algo surpreendeu a ponto de fazer você repensar alguma tese?
O que me surpreendeu foi o nível de ansiedade que vi na Costa Oeste com o tema de inteligência artificial. Poucas vezes vi esse nível. É uma ansiedade dupla: de um lado, preciso investir e participar dessa revolução. Há uma procura insana. Do outro, uma preocupação intensa sobre quais dos investimentos atuais vão sofrer com a IA. Hoje, a prioridade da maioria dos players financeiros e estratégicos de tecnologia é como se posicionar nesse mundo de IA.

No Brasil também?
Isso virá rapidamente para o Brasil. Já vemos as discussões, vários painéis falando de IA, as empresas brasileiras já reagindo. Estamos no primeiro minuto do primeiro tempo. Vai ter muita coisa para rolar, um efeito transformador. Como temos cadeias de valor ineficientes, não há problema em partir do zero, refazer, recomeçar. É o momento de repensar o negócio. Me surpreendeu o nível de ansiedade porque sempre vemos empolgação com novas tecnologias, mas aqui está além disso. Muito provavelmente, nos próximos dois anos, veremos uma cota das empresas brasileiras entendendo os impactos nos negócios, se posicionando e facilitando o uso de IA por toda a economia brasileira.