Em abril de 2025, quando o BS2 anunciou a compra de uma fatia minoritária – não revelada - da Paag, o racional desse movimento era claro: avançar em direção ao volume elevado de transações do mercado de bets no Brasil, uma das especialidades da fintech mineira, fundada em 2021.
O resultado dessa aposta, porém, não foi o esperado. Contrariando as probabilidades, o acordo, que incluía a possibilidade da compra de 100% da Paag não se concretizou, o que abriu as portas para que outro player entrasse nessa disputa, cujo desfecho foi antecipado agora ao NeoFeed.
Fintech pernambucana de infraestrutura financeira e de pagamentos conhecida até pouco tempo como Z.ro Bank, o Z.ro Global Payments está anunciando a compra da vertical de pagamentos da Paag, em um acordo cujos termos financeiros não foram revelados, e que também envolve troca de ações.
“Não estávamos negociando, mas vínhamos tendo conversas informais com a Paag quando vimos a notícia do BS2. E a sensação foi de que tínhamos perdido uma oportunidade”, diz Edisio Pereira Neto, cofundador e CEO do Z.ro. “E tenho certeza que, na época, o mercado todo pensou a mesma coisa.”
Procurado pelo NeoFeed, o BS2 informou que assinou um memorando de entendimento para a aquisição de parte da Paag. “No entanto, em razão de divergências contratuais identificadas ao longo das negociações, a operação não teve continuidade”, afirmou, em nota, a empresa.
Neto, por sua vez, ressalta que, por restrições contratuais da própria Paag, não tem informações sobre as negociações malsucedidas entre a fintech e o BS2. Ele não guarda segredo, porém, sobre os motivos que levaram o Z.ro a adquirir o braço de pagamentos da companhia.
“O Banco Central subiu a régua por conta de vários escândalos recentes e, nesse cenário, já estamos vendo um cenário de consolidação no setor de pagamentos”, diz. “Então, estamos comprando mercado. A Paag processa 200 milhões de transações por ano e estamos trazendo isso para o nosso ecossistema.”
Para se ter uma dimensão do impacto da incorporação desses números, o Z.ro processa atualmente 500 milhões de transações anualmente. O racional da transação não se restringe, porém, a esse volume. Nesse primeiro movimento inorgânico da empresa, uma outra questão está, literalmente, em jogo.
Segundo Neto, uma parcela relevante das transações processadas pela Paag está concentrada no segmento de jogos – que inclui games para celulares e, principalmente, o mercado das bets. Essa última área envolve apenas players autorizadas pelo governo federal.
“Das cerca de 80 bets reguladas no País, o Z.ro atende aproximadamente 40 e, a Paag, 30. E com apenas uma sobreposição nessa base”, afirma. “Essa transação nos traz uma consolidação em um mercado que tem alta volumetria”.
Um estudo da Tendências Consultoria e da Peers Consulting+Technology mostra que as apostas online tiveram uma receita bruta de R$ 37 bilhões no Brasil em 2025, primeiro ano de operação desse mercado sob a regulação sancionada no fim de 2023. O País já é o quinto maior mercado global do setor.
De olho nessas cifras e a partir da aquisição, o Z.ro está criando uma vertical de iGaming, que será tocada por João Fraga e Ricardo Vidal, respectivamente, CEO e CSO da Paag, que, no acordo, também passam a ser sócios da fintech pernambucana.
Do B2C a outras fronteiras
Na soma dessas forças, o Z.ro projeta que a participação da vertical na sua receita irá evoluir de 25% para 35%. Dividindo espaço com linhas como o processamento de transações locais para multinacionais que operam no Brasil, num modelo de remessas que integra pagamentos, câmbio e criptomoedas.
Essa não foi, porém, a tese inicial da fintech, que nasceu em 2019, no Porto Digital, no Recife, como um banco multimoedas, centrado no B2C. “Em seis meses, tivemos mais de 1 milhão de downloads do aplicativo. E, junto com eles, vieram um milhão de problemas que não tínhamos mapeado”, diz Neto.
Ao identificar que “90% desses problemas” estavam relacionados ao seu parceiro de banking as a service da época, a empresa decidiu investir, já em 2020, no desenvolvimento de uma infraestrutura própria e na obtenção de licenças – entre elas, a de Instituição de Pagamentos – junto ao Banco Central.
O movimento coincidiu, pouco tempo depois, com o lançamento do Pix, que turbinou a demanda por essa sua infraestrutura. Em contrapartida, a fintech viu players como BTG, Nubank e PicPay avançarem em seu espaço no B2C. E, com menos poder de fogo, entendeu que era hora de pivotar seu negócio.
Como resultado dessa guinada para o B2B, a companhia atende hoje 200 empresas. Entre elas, Binance, Foxbit, a peruana PaySafe e o Grupo JPCM, administrador de shoppings no Nordeste, além de clubes de futebol como o Sport. E concorre, em diferentes nichos, com nomes como eBanx, dlocal e o próprio BS2.
Na outra ponta, a operação no B2C será encerrada no fim do mês. Enquanto fecha essa porta, a empresa está dando sequência aos seus planos com a abertura de uma nova fronteira: o mercado da América Latina. O que explica o fato de ter sido rebatizada, em abril, como Z.ro Global Payments.
Com o entendimento de que os pagamentos instantâneos, na esteira do sucesso do Pix, vão ganhar escala global, essa estratégia já se traduziu na abertura de operações no México, Argentina, Chile e Peru. E em uma licença obtida na Suíça que permite operar pagamentos cross border em todo mundo.
Como parte desses esforços, que incluíram um aporte, até aqui, de R$ 10 milhões, a fintech nomeou Rafael Lavezzo como CEO dessa frente global, que é atendida por 150 profissionais, alocados no Brasil e nesses países. E já vislumbra novas operações, em 2027, com mercados como Colômbia no radar.
“Somos uma empresa muito pé no chão, sem queima de caixa. E essas operações já nascem para ser lucrativas desde o início”, afirma Neto. “Nossa estimativa é de que essa divisão global responda por 30% do nosso resultado. E que, em algum momento, essa participação chegue a 40%.”
Nessa direção, Neto ressalta que a empresa não precisa de recursos externos – sua única captação veio em 2020, com um aporte de R$ 30 milhões da Multinvest. Mas ele não descarta as conversas com potenciais sócios estratégicos para acelerar sua escalada na América Latina. E já busca novos M&As.
“Já temos advisors buscando outros negócios, isso está integrado à nossa estratégia, seja uma aquisição ou mesmo joint ventures locais estratégicas”, afirma. “Temos conversas em andamento e esperamos anunciar outros acordos em breve. Tanto no Brasil como no exterior.”