Ainda que ao ritmo devagar e sempre, o Brasil cresce. A inflação mira o teto da meta sem explodir. O real segue apreciado ante o dólar. E a Selic, se não declina tanto quanto o desejável, tampouco emperra o ciclo de flexibilização monetária recém-iniciado. Manter a inflação nos trilhos, ainda que pressionada, requer serenidade e cautela na condução da política monetária – reza a cartilha seguida à risca pelo BC e apoiada pelo mercado.

Nessa trilha, o cenário econômico está longe de ser dos piores e atrai investidores. Na prática, porém, o movimento observado especialmente no primeiro trimestre, de pesado ingresso de dólares na bolsa brasileira, diz mais sobre o contexto internacional do que sobre o Brasil.

O quadro pode mudar com a proximidade das eleições ou eventos que ampliem a volatilidade dos ativos, como ocorreu na quarta-feira, 13 de maio, em função do vazamento do áudio que trouxe Flávio Bolsonaro pedindo dinheiro a Daniel Vorcaro, dono do Master, para bancar um filme dedicado ao ex-presidente Jair Bolsonaro.

O evento sacudiu o mercado, que aposta em Flávio como opção em favor de mudança na política econômica caso vença a eleição presidencial. Na quinta, 14 de maio, os preços sofreram correção. Mas o episódio poderá alterar o rumo da disputa e favorecer ainda mais o presidente Lula que, para o mercado, está “devendo” na política fiscal e exagerando nas benesses à população que poderão render votos e um quarto mandato.

Antes do evento “áudio” que colocou em cena o risco político, no ano, até meados de abril, R$ 69 bilhões de estrangeiros aportaram em ações da B3 – mais que o dobro de R$ 25,5 bilhões de 2025 inteiro. Em menos de um mês, contudo, R$ 18,3 bilhões deixaram o mercado. O saldo no ano até 12 de maio caiu a R$ 50,7 bilhões.

“Assim como a entrada de capital estrangeiro teve pouco a ver com o Brasil, a saída de recursos até agora também tem pouco a ver”, observa Alexandre Mathias, sócio da Meridian Investments. Ao NeoFeed, o estrategista com passagem pelo Itaú Unibanco, Bradesco Asset, Petros e Monte Bravo, não vê o movimento dos estrangeiros como aposta exagerada.

“Na verdade, foi uma boa aposta que se pagou. O dinheiro entrou no País com o câmbio a R$ 5,40 ou R$ 5,50 e Ibovespa 10% mais baixo. O investidor ganhou 15% ou 20%, o que explica realização de lucros mesmo”, avalia.

Mathias observa que, nos últimos nove meses, o ingresso de capital estrangeiro no Brasil se consolidou, primordialmente, como reflexo da dinâmica global. O pano de fundo foi a transição no regime de alocação, com menor concentração em ativos dos EUA, enfraquecimento do dólar e a busca por mercados líquidos e descontados fora do eixo norte-americano.

“Este processo foi deflagrado pelo comportamento errático de Trump desde o início da guerra tarifária, mas também impulsionado pela percepção de que os juros nos EUA cairiam; e caíram. Somam-se a isso incertezas sobre o valuation de empresas ligadas à inteligência artificial, um tema que permanece sub judice.”

Para o economista, o Brasil emergiu como um dos principais beneficiários dessa recomposição de posições em mercados emergentes, Europa, commodities e ativos de valor, não à toa. “O país atraiu fluxos naturalmente pois reúne três características raras: mercado acionário líquido, bolsa descontada em dólar e com elevada exposição a commodities e bancos.”

“Qualidade” e “defeito” favorecem o Brasil

A magnitude dessa dinâmica é evidenciada, diz Mathias, pela desproporção entre os mercados. Enquanto os ativos de renda fixa e variável nos EUA somam cerca de US$ 120 trilhões, o valor de mercado total das ações na B3 gira em torno de US$ 1 trilhão. Como a bolsa brasileira representa menos de 1% do mercado de capitais norte-americano, pequenas alterações nos fluxos provocam deslocamentos severos de preços nos mercados locais.

“E a saída de dólares do mercado doméstico decorre de uma reversão parcial da percepção sobre o dólar que levou os investidores estrangeiros a realizarem lucros acumulados. Com a inflação americana mais persistente em função da guerra, os cortes de juros nos EUA foram postergados e as taxas voltaram a subir”, pondera Mathias.

Em um mercado consensualmente posicionado em real e bolsa, diz Mathias, qualquer alteração marginal no cenário global dispara desmontagem de posições. “Por fim, a estabilização do dólar global e a recomposição defensiva em ativos americanos pressionaram moedas e ativos emergentes”, acrescenta.

O Brasil também se destaca por uma “qualidade” e um “defeito” nada novos: ser exportador líquido de petróleo fortalece a balança comercial e amplia a oferta de dólares; ter uma das taxas básicas mais altas do mundo patrocina “carry-trade” que também ajuda a valorizar o real.

Afora a política fiscal, que vai exigir um ajuste complexo e muito duro em 2027, a economia brasileira não é preocupante, inclusive, se confirmada a reaceleração da atividade no início do ano, após enfraquecer no último quarto de 2025, quando o PIB cresceu apenas 0,1%.

Projeções apontam para alta de ao menos 1% de janeiro a março. E, na segunda-feira e terça, 18 e 19 de maio, dois indicadores de março valem com “tira-teima”: o IBC-Br, do Banco Central e o Monitor do PIB, do Ibre FGV, respectivamente.

Em paralelo ao desfecho, ainda não sinalizado, para o conflito no Oriente Médio, o mercado acompanha a mobilização do governo, que acelera o anúncio de medidas populistas, e a reacomodação da equipe econômica.

Simone Tebet e Fernando Haddad foram substituídos, respectivamente, no Planejamento e Fazenda por expoentes de confiança: Bruno Moretti, ex-secretário especial de Análise Governamental da Casa Civil, e Dario Durigan, ex-secretário-executivo da Fazenda, chancelado por Haddad. Gabriel Galípolo tornou-se o remanescente da equipe econômica. Tudo mais constante, fica no posto até dezembro de 2028.