Na última semana de abril de agenda lotada de dados fiscais e mercado de trabalho no Brasil, em 72 horas, seis bancos centrais darão seu recado sobre os impactos econômicos do conflito no Oriente Médio que completará dois meses. E que está longe de acabar, apesar do cessar-fogo por tempo indefinido anunciado por Donald Trump.

Por ordem cronológica, discutem política monetária, de 28 a 30 de abril, Banco do Japão, Federal Reserve, Banco Central do Brasil, Banco do Canadá, Banco Central Europeu e Banco da Inglaterra.

A guerra EUA e Irã não tende a impor ação coordenada clássica às decisões monetárias. Mas os bancos centrais estão, sim, com o “dedo no gatilho” para conter efeitos inflacionários da escalada do petróleo. E a adoção de um discurso mais conservador está no script.

A condição imperativa para as decisões coincidentemente concentradas neste final de abril é o choque de oferta do petróleo representado pelo fechamento do Estreito de Ormuz e avarias de toda ordem em estruturas de produção sobretudo de óleo e gás.

A interrupção do fluxo da commodity, ainda que intermitente como visto nas últimas semanas, mantém pressão sobre preços e custos logísticos que resultam em mais inflação disseminada globalmente e perspectiva de queda de crescimento econômico.

“O choque de oferta é recessivo e inflacionário”, observa Gino Olivares, economista-chefe da Azimut Brasil Wealth Management. “Resta aos bancos centrais cuidar da inflação porque a alta do petróleo e sua escassez vão provocar a queda da atividade. Um exemplo desse efeito é o impacto no transporte aéreo.”

A redução dos voos é inevitável e a alta das passagens idem. Quanto aos voos, a política monetária não pode fazer nada. Portanto, a escolha a ser feita, por bancos centrais e governos, é se a atividade cairá com mais ou com menos inflação.”

Em entrevista ao NeoFeed, Olivares alerta que o conflito não é um choque isolado. “Do ano 2000 para cá, tivemos a pandemia, um choque de oferta e demanda; a invasão da Ucrânia, um choque de oferta; o tarifaço de Trump, outro choque de oferta há apenas um ano; e, há dois meses, a eclosão da guerra no Irã.”

Os choques podem ser transitórios, acrescenta Olivares, mas as economias receberam um soco no queixo atrás do outro, em cinco anos, e sem tempo para recuperação. No pós-pandemia, lembra o economista, a inflação disparou, os BCs reagiram, subiram os juros e a inflação cedeu, mas não voltou às metas. Portanto, a guerra do Irã chegou sem que o trabalho dos BCs estivesse terminado.

Meta de inflação

Também professor no Insper e ex-economista da Gerência de Estudos Econômicos do BC do Peru, Olivares avalia que o Banco Central Europeu e o Banco da Inglaterra são os primeiros da fila a elevar juros. As economias europeias foram as mais atingidas pelos choques e os ciclos monetários estavam concluídos ou quase.

No Brasil, a expectativa de Olivares é de que ocorra um corte de 0,25 ponto no dia 29 para a instituição honrar o compromisso com o ciclo de “calibração” da política monetária. Entretanto, o Copom deve deixar claro que o sarrafo subiu para reduções.

“O corte de março ocorreu, na verdade, por conta do compromisso assumido por Gabriel Galípolo de janeiro para março. E ele entrega o que promete para construir e manter a credibilidade da instituição. A decisão de março, de manter o balanço de risco, apesar da piora, foi para evitar uma explicação para a redução da Selic”, diz.

Olivares lembra, porém, que em Washington, onde participou da reunião do FMI e do Banco Mundial, o diretor Paulo Picchetti reconheceu que o balanço de risco foi agravado. “É uma sinalização. A redução de mais 0,25 ponto deve ocorrer, mas o ritmo da flexibilização será alterado. E a perspectiva é a apontada pela Focus: no fim do ano, a Selic estará mais elevada do que se estimou antes da guerra.”

Também deverá estar velado ou explicitamente apontado nos comunicados dos BCs, o cenário de estagflação, visto como ameaça real pelas autoridades monetárias que, por ora, praticam as seguintes taxas básicas: Banco do Japão, 0,75%; Federal Reserve (Fed), 3,5% a 3,75%; BC do Brasil, 14,75%; Banco do Canadá, 2,25%; Banco Central Europeu (BCE), 2%; e Banco da Inglaterra, 3,75%.

O Fed, que deverá manter sua taxa, atravessa um momento peculiar. Mudará de presidente em 15 de maio, com o comando passando de Jerome Powell para Kevin Warsh se ele, indicado por Donald Trump, for aprovado pelo Senado americano.

Em audiência, na terça 21, Warsh defendeu a independência do Fed, disse que Trump nunca pediu compromisso com a redução do juro e demonstrou inquietação com a meta de inflação. Entretanto, simultaneamente, Trump voltou a criticar Powell por estar “atrasado no corte de juro” e disse esperar comportamento diferente do sucessor.

No Brasil, inquietação com a meta brota no documento elaborado pelo PT para o 8º Congresso Nacional do partido, a partir da sexta, 24. Entre as propostas que, em tese, devem embasar o programa econômico para uma gestão Lula 4.0, está rever a meta de inflação, delimitar a autonomia do BC, alterar mandatos de sua diretoria que voltariam a ser coincidentes com o mandato presidencial e manter o juro abaixo de 10%.

Um abacaxi para Galípolo descascar nos próximos meses que antecedem a eleição e mais dois anos à frente, caso Lula seja reeleito. Embora programa de governo não faça cócegas no mercado financeiro, após longo período calado Lula já manifesta contrariedade com o ritmo de redução da Selic. Um empecilho para reequilibrar a vida financeira de milhares de brasileiros endividados – mas eleitores.