O mercado brasileiro está sujeito a um “apagão” ou a uma contração relevante de operações entre 20 e 24 de abril, graças aos feriados que paralisam as principais praças de negociação financeira do País: o feriado nacional do Dia de Tiradentes, terça-feira 21, e a celebração estadual do Dia de São Jorge, na quinta 23, padroeiro do Rio de Janeiro.

Os feriados são propícios a finais de semana prolongados – característica do calendário deste ano que pode, no limite, interferir em estatísticas de varejo, serviços e preços por mudança no comportamento do consumidor. Para o investidor, o descasamento de agenda em relação às negociações financeiras globais impõe risco adicional. Não necessariamente perdas.

A bolsa brasileira, B3, sediada na capital paulista, estará fechada na terça-feira, 21. Mas a folga carioca dois dias depois não deve ser desprezada pela representatividade de gestoras com forte presença na capital fluminense. A semana mais curta e esvaziada de indicadores locais poderá ser dedicada, contudo, a outras questões que direta ou indiretamente afetam preços de ativos.

Entre elas, as negociações entre EUA e Irã quanto ao conflito no Oriente Médio com o fim do cessar-fogo previsto para terça, 21; a sabatina no Senado americano, também na terça, de Kevin Warsh, indicado por Donald Trump para substituir Jerome Powell na presidência do Federal Reserve; a formalização, até quarta-feira 22, da adesão de governos estaduais à medida de subvenção ao diesel importado pelo Brasil; e possível anúncio de medidas para renegociação de dívidas que o governo Lula vem divulgando a conta-gotas.

A agenda ainda poderá ceder espaço à repercussão de debates travados entre 13 e 18 de abril no Fundo Monetário Internacional e Banco Mundial. E que resultaram, em suma, na constatação de que guerra e petróleo nas alturas conspiram para menor crescimento e mais inflação no mundo – contexto em que o Brasil sai menos prejudicado por ser exportador líquido de petróleo.

No governo, a semana também deverá ser concisa, uma vez que o presidente Lula e a comitiva que o acompanhou em viagem à Espanha, Alemanha e Portugal, com início em 16 de abril, devem encerrar o périplo na terça-feira, 21. Em Brasília, a semana começará na quarta-feira.

A visita de Lula à Europa para eventos políticos, comerciais e encontros com empresários deslocou 14 ministros e presidentes de estatais – BNDES e Petrobras são destaque. Em pauta, discussões e/ou entendimentos sobre minerais críticos, Defesa, Transportes, Energia, Infraestrutura, Finanças e acordo Mercosul – União Europeia que terá início provisório em 1º de maio.

Petróleo “ajuda” Brasil, mas a conta vem

Para o governo e para o setor privado é confortável a avaliação de que o Brasil tem uma situação melhor do que vários países com a guerra que levou o petróleo às alturas. “A afirmação é verdadeira, mas deve ser analisada com cautela”, observa Étore Sanchez, economista-chefe da Ativa Investimentos.

Ao NeoFeed, o economista observou que a exportação líquida de petróleo pelo Brasil se reflete também nas empresas exportadoras, valorizando seus papéis. Entretanto, diz, numa análise setorial, sobretudo de empresas que usam petróleo e derivados como insumo, a alta do petróleo encarece a produção. E a dificuldade de repassar a alta de preços baixa a produtividade e eleva o custo da economia como um todo.

Sanchez concorda que a arrecadação tributária sobe, mas pela inflação que cobrará seu preço. Por exemplo, com pressões para reajustes salariais. Processo que, recorda, o País viveu na década de 1980. A alta do petróleo faz mais: também escancara fragilidades do Brasil.

Uma delas é a dependência de fertilizantes que pode encarecer a mesa do brasileiro, especialmente, quanto a produtos que envolvem longa cadeia de produção. Outra fragilidade é macroeconômica, fiscal. “E no cenário atual a questão fiscal ganha relevância. Os agentes ficam mais receosos de investir ante um conflito de magnitude inimaginável. Decisões de investimentos e consumo são adiadas, o que pode afetar, inclusive, a arrecadação do governo.”

Para Sanchez, quando maior o choque externo, maior é o impacto fiscal. “E se ainda exigir gastos, como está ocorrendo com o diesel, pior. É claro que enquanto tiver a cortina de fumaça da guerra, o fiscal fica para trás. Mas uma hora essa cortina baixa e a realidade aparece”, alerta.

As eleições de outubro no Brasil são relevantes para os investidores, diz Sanchez. “No passado, as informações tinham alcance mais restrito. Existia, inclusive, a barreira do idioma. Os investimentos ocorriam num sentido institucional. Hoje, porém, com acesso praticamente instantâneo às informações, o investidor é cauteloso até porque o retorno das aplicações depende da direção que o País vai tomar.”

“No cenário atual, se falamos de Flávio Bolsonaro ou de Lula estamos falando de projetos fiscais e de um conceito de nação absolutamente distintos. Se um tende a privilegiar a iniciativa privada o outro defende maior participação estatal. Então, como investir, por exemplo, em papéis de Construção ou Educação, a partir das plataformas de um ou de outro? E como investir em setores que promovem desenvolvimento e de retorno a longo prazo. Às vezes, 15, 20 ou 50 anos, caso de Infraestrutura? Que Brasil teremos lá na frente?”

Quanto ao vigor da Bolsa e à ampla oferta de capital estrangeiro que pode sugerir que o Brasil mudou de patamar para os estrangeiros, o economista-chefe da Ativa entende que se algo tivesse mudado, o risco Brasil não deveria estar alinhado aos seus pares.

Ele explica que há uma confusão quanto ao fluxo de recursos destinado à Bolsa e para o Brasil. “Não vejo capital externo ‘novo’ entrando na Bolsa. Mas temos capital estrangeiro aqui e que estava, por exemplo, aplicado em títulos do Tesouro que venceram. Em fevereiro, foram resgatados R$ 350 bilhões de papéis. Em março, R$ 170 bilhões.

A Bolsa está se beneficiando dessa rotação. Mas todo esse dinheiro foi reaplicado em títulos ou parte aproveitou o bom momento da Bolsa, a liquidez presente, e mudou de mercado?”