Os Exchange Traded Funds (ETFs) representam cerca de 1% do mercado brasileiro de fundos. Para o J.P. Morgan Asset Management, essa baixa penetração mostra que o país está no começo de um ciclo que já avançou em outras geografias.
“Os ETFs ativos são a maior mudança estrutural da indústria de gestão de investimentos global hoje. Cada mercado está em um estágio, mas a tendência é a mesma e a evolução vai continuar”, diz Travis Spence, global head de ETFs do J.P. Morgan Asset Management, em entrevista ao NeoFeed.
Com cerca de US$ 4,3 trilhões sob gestão, a gestora entende que o mercado brasileiro ainda tem opções muito limitadas para investidores. E talvez por isso seja pequeno.
No primeiro trimestre deste ano, o J.P. Morgan Asset Management lançou no mercado local o ETF JEPI39, um fundo de índice com gestão ativa por meio de um Brazilian Depositary Receipt (BDR). Até o fim deste ano, a gestora projeta ter quase 10 dos seus melhores produtos no Brasil.
O BDR do J.P. Morgan Equity Premium Income ETF, o produto escolhido para estrear no Brasil, é o maior ETF ativo do mundo, com cerca de US$ 45 bilhões sob gestão.
Esse ETF dá acesso, em reais e pela B3, a uma estratégia ativa de ações americanas que combina seleção de papéis com venda de opções de compra, mecanismo conhecido como derivative income. A proposta é manter exposição ao mercado acionário dos Estados Unidos, mas com menor volatilidade e distribuição mensal de renda em dólar.
Embora ainda representem cerca de 10% dos ativos da indústria global de ETFs (com cerca de US$ 22 trilhões), os ETFs ativos têm ganhado tração nos fluxos de investimentos: foram 25% da captação líquida em 2025 e 38% neste ano, segundo o J.P. Morgan.
A gestora americana é a segunda maior de ETFs ativos do mercado americano, com US$ 221 bilhões sob gestão de um mercado de mais de US$ 1,7 trilhão. No mundo, ela tem US$ 370 bilhões em ETFs, dos quais US$ 280 bilhões são em ETFs ativos.
Em visita ao Brasil, Spence falou com o NeoFeed sobre o crescimento dos ETFs ativos, quais estratégias devem liderar a expansão global, como os ETFs começam a disputar espaço com os fundos tradicionais e por que o J.P. Morgan quer fazer do Brasil uma das frentes dessa expansão.
Confira, a seguir, os principais trechos da entrevista:

Por que os ETFs ativos viraram a nova fronteira da indústria?
O mercado está entrando em um momento em que a oportunidade é muito mais ampla. Não se trata mais apenas das Magnificent Seven [sete magníficas, Alphabet, Amazon, Apple, Meta, Microsoft, Nvidia e Tesla] ou das ações de tecnologia. Há um conjunto maior de setores, indústrias e geografias com potencial de crescimento de lucros. Para nós, isso significa mais oportunidades para a gestão ativa. Temos visto muito interesse em estratégias ativas de ações americanas, ações globais e internacionais, e também um crescimento muito forte em renda fixa ativa.
Qual é a importância de uma estratégia ativa em renda fixa?
Na renda fixa, especialmente, a maioria dos investidores quer gestão ativa, e de certa forma, precisa dela. Ao longo do tempo, a gestão ativa tende a superar a passiva em renda fixa em ETFs. E o veículo ETF está se tornando uma forma preferida de acessar esse mercado, porque é mais eficiente, mais fácil de acessar e adiciona camadas de liquidez a um mercado que muitas vezes é difícil de investir.
Isso significa uma migração dos mutual funds para ETFs como algo estrutural?
Sim. Isso se volta à preferência por um veículo mais evoluído, mais fácil de acessar, mais fácil de negociar, líquido e transparente. Os mutual funds continuam relevantes em várias partes do mercado, mas o crescimento virá dos ETFs. Acredito que os ativos em mutual funds devem se estabilizar em alguns segmentos e provavelmente continuar a cair ao longo do tempo. Os ETFs ativos são a maior mudança estrutural da indústria de gestão de investimentos hoje. Essa mudança acontece em ritmos diferentes em cada mercado, mas a tendência é a mesma, e a evolução vai continuar.
O que deve sustentar o crescimento dos ETFs nos próximos anos?
Há uma série de fatores, mas o ponto de partida é uma conscientização maior e uma preferência crescente pelo veículo ETF, que estamos vendo em todos os tipos de investidores. Os ETFs ativos continuam sendo um dos principais motores de crescimento da indústria. Nos últimos cinco anos, eles cresceram ao dobro da velocidade da indústria total de ETFs. E essa adoção ainda está apenas começando.
Essa expansão ainda continua?
No ano passado, os ETFs ativos representavam cerca de 10% dos ativos da indústria, mas capturaram 25% dos fluxos líquidos. Neste ano, essa participação já está em 38%. Também estamos vendo emissão recorde de novos ETFs ativos. Nos próximos dois ou três anos, isso deve se traduzir em fluxos ainda maiores, porque haverá mais produtos disponíveis e uma gama mais ampla de opções para os investidores.
Qual é o perfil de investidor que vai impulsionar esse crescimento?
Há dois grupos de investidores que devem impulsionar esse crescimento. O primeiro é o varejo, especialmente fora dos Estados Unidos. Na Europa, por exemplo, a participação do investidor de varejo em ETFs cresceu muito nos últimos anos, em parte com o avanço de neobanks, robo-advisors e plataformas digitais, onde o ETF é o veículo preferencial. O segundo grupo são os investidores institucionais, como fundos de pensão, seguradoras e fundos soberanos. Eles tradicionalmente usavam ETFs para posições táticas e de curto prazo. Agora, começam a usar ETFs como alocações centrais de portfólio. Com uma indústria global de ETFs de US$ 22 trilhões e um mercado de ETFs ativos de US$ 2,3 trilhões, esse mercado ficou grande demais para ser ignorado.
O que um ETF ativo entrega que um fundo tradicional não entrega?
Uma forma simples de dizer é que o ETF é apenas um veículo, assim como um mutual fund. Mas o ETF tem várias vantagens em relação aos fundos tradicionais. Em muitos casos, é um veículo mais eficiente, transparente, fácil de negociar e fácil de acessar. A maior parte das estratégias ativas em mercados públicos, como ações e renda fixa, pode ser feita dentro do ETF. Desde que os ativos subjacentes sejam negociados de forma ativa, é possível ter uma estratégia completamente ativa em um ETF. É importante reforçar isso porque muitas pessoas associam ETFs apenas a gestão passiva ou uma gestão ativa de índices. Mas esses produtos são geridos ativo a ativo. Há gestores de portfólio e analistas de research fazendo o mesmo trabalho que se esperaria em um mutual fund, só que dentro do veículo ETF.
Quais estratégias estão ganhando mais espaço?
Dentro dos ETFs ativos, vemos três grandes áreas de crescimento: ações core, renda fixa core e estratégias baseadas em derivativos. Em renda fixa ativa, o crescimento tem sido muito forte. O mercado de ETFs de renda fixa ainda é majoritariamente passivo, mas, quando olhamos para os mutual funds, a maioria é ativa. Então há uma mudança importante começando a acontecer. A outra categoria muito relevante, e que se conecta ao que estamos fazendo no Brasil, é a de derivative income. Muitos investidores estão um pouco preocupados com o nível atual dos mercados. Os preços das ações estão caras, ou são percebidas como caras. Então eles querem continuar investidos em ações, mas com alguma proteção contra quedas e com renda recorrente.
Por que renda fixa ativa e derivative income são apostas importantes?
Em renda fixa, a gestão ativa é particularmente importante porque o mercado é mais complexo e menos padronizado. O ETF se tornou uma forma eficiente de acessar esse mercado, com mais liquidez e facilidade operacional. No caso de derivative income, o investidor quer permanecer exposto ao mercado acionário, mas também quer renda e alguma proteção. O JEPI foi desenhado para isso: oferecer uma renda maior do que a obtida apenas com dividendos e reduzir a volatilidade em relação a uma exposição ampla ao mercado acionário americano. O que dizemos sobre essa estratégia é que renda é o resultado. O investidor continua exposto ao mercado de ações, recebe renda mensal e conta com uma estrutura que busca reduzir a volatilidade e oferecer proteção parcial em momentos de queda.
Como o Brasil entra na estratégia de ETFs do J.P. Morgan?
O Brasil é um mercado em estágio inicial para ETFs, mas acreditamos que pode ter um crescimento muito forte. Uma das principais conclusões das conversas que tivemos nos últimos dias é que ainda há opções muito limitadas para o investidor brasileiro. O mercado local tem sido muito passivo e focado em investimentos domésticos. Há poucas opções para o investidor acessar mercados globais de forma simples. O JEPI39 começa a mudar isso. Nosso plano é trazer muitas das nossas melhores estratégias para o Brasil pelo mesmo mecanismo de ETFs globais. Queremos garantir que, quando investidores brasileiros estiverem construindo suas carteiras globais, possam escolher uma gama completa de ETFs ativos do J.P. Morgan para montar portfólios com ações, renda fixa e estratégias baseadas em derivativos.