Depois de quase três décadas dedicadas à construção do Grupo CRM, período em que liderou a expansão da Kopenhagen, criou a Brasil Cacau e participou da venda da companhia para a Nestlé, Renata Vichi decidiu mudar o foco da própria carreira. A executiva está estruturando um ecossistema voltado à longevidade, tema que reúne seu segundo livro, um podcast, uma newsletter e novas teses de investimento.
A proposta é ampliar um debate que, na sua avaliação, ainda permanece excessivamente concentrado na saúde e pouco conectado aos desafios de quem lidera empresas.
Em entrevista ao Bravamente, programa de Carlos Burle em parceria com NeoFeed, Renata contou que passou a estudar longevidade ao perceber que a maior parte do conteúdo produzido sobre o assunto aborda alimentação, exercícios e medicina, mas raramente trata da construção de carreiras duradouras ou da capacidade de um executivo sustentar alta performance ao longo de décadas.
"Não aguentamos correr 42 quilômetros de sprint. A gente precisa adequar o pace (ritmo), mas também não deve se eximir dos sprints quando for necessário", afirma.
Para ela, acelerar em determinados momentos é inevitável, desde que isso não comprometa a capacidade de seguir crescendo no longo prazo. "Existe diferença entre sofrer e se sacrificar", disse.
Um dos momentos mais marcantes da sua trajetória ocorreu durante a criação da Brasil Cacau. Na época, a Kopenhagen tinha capacidade ociosa na fábrica e cerca de 2 mil interessados em abrir franquias, mas ampliar a operação utilizando a mesma marca poderia comprometer seu posicionamento no segmento premium.
A solução foi criar uma segunda rede, que começou a operar com cerca de 150 produtos e 12 lojas inauguradas praticamente ao mesmo tempo. O projeto coincidiu com um período delicado da vida pessoal, em que Renata passava por uma gravidez de risco que resultou em um parto prematuro.
"Eu saí do hospital carregando o meu filho Bruno e a minha filha Brasil Cacau. Foram os meus dois bebês", lembra ela.
Anos depois, outro desafio pessoal coincidiu com um momento importante profissional. Foi no processo de venda do Grupo CRM para a Nestlé que Vichi recebeu o diagnóstico de câncer de mama. A experiência reforçou sua decisão de estudar longevidade de forma mais profunda.
Aos 44 anos, a executiva começou a praticar surfe e diz ter encontrado na modalidade uma metáfora para a liderança. "Eu nunca conheci um esporte que exige tanta concentração e estar no momento presente", afirma.
Renata defende que inteligência emocional não é consequência da maturidade, mas resultado de disciplina. Terapia, meditação, leitura e períodos reservados para escrever fazem parte de uma agenda que ela considera tão importante quanto reuniões de negócios.
Hoje, ao olhar para a nova fase da carreira, ela resume a principal mudança de perspectiva em uma frase que pretende transformar em marca da sua atuação fora do varejo: antes de liderar um CNPJ, é preciso aprender a cuidar do próprio CPF.