O surfe de ondas gigantes sempre vendeu a imagem da liberdade absoluta. Mas, fora da água, até os maiores nomes do planeta descobriram que talento já não basta. Em entrevista a Carlos Burle no Bravamente, programa em parceria com o NeoFeed, Kai Lenny e Nathan Florence falaram sobre uma cobrança que extrapolou o esporte: hoje, todo profissional precisa também saber se mostrar.

O atleta, o executivo, o empreendedor, o médico e o artista vivem, em alguma medida, a mesma pressão de transformar trabalho em vitrine. “Você pode ser o melhor surfista do mundo, mas se não posta nada ou não filma nada, ninguém sabe. E nenhuma marca quer ter relação com isso”, disse Nathan Florence.

Florence lembra que, no passado, o surfista dependia de revistas, filmes de patrocinadores ou grandes plataformas para ser visto. Agora, precisa produzir, editar, publicar, narrar a própria trajetória e manter uma comunidade engajada. Não é muito diferente do que acontece em outras carreiras, em que competência deixou de ser suficiente quando não vem acompanhada de presença digital.

Kai Lenny reconhece o incômodo. Segundo ele, controlar a própria mídia dá liberdade, mas também transforma o atleta em criador de conteúdo. Hoje, estima que três quartos do trabalho acontece fora do mar: nos bastidores, nas viagens, nos compromissos com patrocinadores, nas entrevistas e na construção de relacionamento. “Às vezes você pensa: queria só poder surfar”, afirmou.

Florence, que construiu parte de sua relevância com vídeos de bastidores e viagens em busca de slabs, como são chamadas as ondas que quebram sobre lajes de pedra ou recifes rasos — uma das modalidades mais perigosas e respeitadas do surfe —, vê mais as redes como ferramenta de independência. Ao criar seus próprios canais, deixou de depender da WSL, de revistas ou de terceiros para contar sua história.

A crítica dos dois não é à exposição em si, mas à ilusão de facilidade que ela cria, já que o público quase nunca enxerga o custo, o reinvestimento, o medo, o fracasso e a rotina por trás. “A maior lição da vida é que tudo leva tempo. Nada acontece da noite para o dia”, disse Kai.