A Microsoft entende que todo jogo tem uma saída antes do game over. É dessa maneira que a companhia anunciou a maior reestruturação da história da Xbox, uma divisão que concentra investimentos de US$ 80 bilhões, mas que não consegue superar seus principais concorrentes.
Nesse movimento de restart, a Microsoft anunciou o corte de cerca de 20% da força de trabalho da Xbox (3,2 mil pessoas), além da venda ou separação de quatro estúdios de desenvolvimento e a abertura de um processo de consulta sobre um quinto, o Arkane Lyon, que pode resultar em fechamento.
O corte na Xbox faz parte de uma rodada maior de 4,8 mil demissões na Microsoft, cerca de 2% da força de trabalho global da empresa. O corte se soma a uma onda de demissões que já atinge cerca de 154 mil profissionais de tecnologia só no primeiro semestre de 2026, com empresas como Meta, Oracle, Amazon e Cognizant reduzindo equipes.
A reorganização na divisão de games da Microsoft reflete margens de lucro até dez vezes menores que as de empresas comparáveis do setor, segundo a própria CEO da Xbox, Asha Sharma, que assumiu o cargo em fevereiro de 2026 no lugar de Phil Spencer.
"Nosso negócio hoje não está saudável", escreveu Sharma em carta interna aos funcionários, na qual definiu a mudança como a "reestruturação mais significativa" da história da divisão.
Entre os fatores que motivaram a decisão está também a estagnação do Xbox Game Pass, serviço de assinatura de jogos que não cresceu na velocidade esperada.
O objetivo da Microsoft é simplificar operações e reposicionar a divisão, mas o contraste com os rivais evidencia a fragilidade da estratégia da companhia.
E o timing não poderia ser pior: a ação da Microsoft acumula queda de pouco mais de 19% em 2026, o pior desempenho entre as gigantes de tecnologia no período.
Enquanto a Xbox tenta se reestruturar, a Nintendo vive o melhor ciclo de sua história. O Switch 2, lançado em junho de 2025, vendeu 19,86 milhões de unidades em menos de um ano (até 31 de março), impulsionando a receita da companhia para cerca de US$ 14,5 bilhões, um crescimento de 98,6% em relação ao ano anterior.
Jogos como Mario Kart World alcançaram 14,7 milhões de cópias no mesmo período e ajudaram a quase dobrar as receitas da Nintendo, consolidando a empresa como a exceção no mercado de consoles.
A Sony também avança e o PS5 segue em expansão, sustentado por exclusivos de estúdios como Naughty Dog e Insomniac, ao mesmo tempo em que a companhia reforça parcerias com desenvolvedores independentes e amplia presença em mercados emergentes como China e Índia.
O PlayStation Plus já reforça sua estratégia híbrida de hardware e serviços: 40% da base total de assinantes do serviço já está concentrada nos planos superiores (extra, deluxe e premium), uma migração que a Sony credita à sua rentabilidade recorde no último ano e à ampliação da base de receita recorrente.
Pressão de todos os lados
No mercado de streaming, a pressão é ainda maior. Segundo estimativas da consultoria Mordor Intelligence, o setor de cloud gaming deve alcançar cerca de US$ 6,23 bilhões em 2026, com aproximadamente 482 milhões de usuários globais (os números variam conforme os institutos, mas apontam para uma tendência consistente de crescimento acelerado).
O Xbox Game Pass, com cerca de 40 milhões de assinantes, enfrenta concorrência crescente do GeForce Now e do próprio PlayStation Plus, que avançam em ritmo mais acelerado.
A reorganização da Xbox é, portanto, uma tentativa de preservar o investimento bilionário e buscar eficiência em um mercado em rápida transformação.
Mas o timing expõe vulnerabilidades: enquanto a Microsoft corta custos e revisa sua governança, Nintendo e Sony ampliam receitas e base de usuários. Agora, a Microsoft precisa provar que sua aposta de US$ 80 bilhões pode se sustentar diante de rivais que prosperam em meio às mudanças do setor.