O potencial das substâncias psicodélicas para tratamentos psiquiátricos levou a Eli Lilly a fechar um acordo para adquirir a empresa de biotecnologia AtaiBeckley, apoiada pelo bilionário Peter Thiel, fundador do PayPal, da Palantir e da gestora de capital de risco Founders Fund, por até US$ 3,8 bilhões.

O acordo prevê o pagamento de US$ 2,8 bilhões pela AtaiBeckley, cujos tratamentos estão em fase de testes clínicos, além da possibilidade de mais US$ 1 bilhão mediante o cumprimento de metas relacionadas à evolução dos medicamentos.

A aquisição avalia a AtaiBeckley, presidida pelo bilionário alemão Christian Angermayer, com um prêmio em relação ao seu valor de mercado de quase US$ 2 bilhões registrado no pregão de quarta-feira, 15 de julho, e de 40% sobre a cotação média dos últimos 30 dias.

Negociadas na NasdaqGM, segmento da Nasdaq voltado para empresas de médio porte, as ações da AtaiBeckley subiam 34,14% antes da abertura do pregão, por volta das 9h40 (horário local), cotadas a US$ 7,19.

Fundada em 2025 a partir da combinação entre a atai Life Sciences e a Beckley Psytech, a AtaiBeckley tem focado no desenvolvimento de tratamentos derivados de uma substância sintética administrada por spray nasal para tratar a depressão resistente, condição em que os pacientes não melhoram mesmo após o uso de antidepressivos convencionais.

Segundo a Eli Lilly, os tratamentos da AtaiBeckley buscam restaurar essas conexões e estimular a formação de novas ligações cerebrais. A proposta é atuar de forma diferente dos antidepressivos tradicionais, que agem principalmente alterando os níveis de substâncias químicas responsáveis pela comunicação entre os neurônios.

A aquisição é a mais recente de uma série de negócios fechados pela Eli Lilly neste ano. A farmacêutica vem aproveitando os robustos fluxos de caixa gerados pelos medicamentos para perda de peso e diabetes, como Zepbound e Mounjaro, para adquirir companhias de biotecnologia em estágio inicial.

Somente neste ano, a Eli Lilly investiu até US$ 28,8 bilhões na aquisição dessas empresas, segundo levantamento do Financial Times (FT). Entre as compras estão a da Centessa Pharmaceuticals, fabricante de medicamentos para distúrbios do sono, por até US$ 7,8 bilhões, e a da Kelonia Therapeutics, empresa de biotecnologia oncológica, por até US$ 7 bilhões.

A compra da AtaiBeckley também ocorre em um momento em que os psicodélicos vêm perdendo o estigma e sendo cada vez mais aceitos como substâncias com potencial medicinal.

Nos últimos anos, cientistas têm retomado pesquisas iniciadas na década de 1940 sobre o potencial terapêutico dessas substâncias. Os primeiros resultados mostram que o LSD, a psilocibina — principal substância ativa dos cogumelos alucinógenos — e o MDMA, uma das substâncias presentes no ecstasy, podem ajudar no tratamento da depressão, do estresse pós-traumático e de outras doenças psiquiátricas.

Os investimentos nesse tipo de terapia também ganharam força após o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, assinar, em abril, uma ordem executiva para acelerar a aprovação de medicamentos à base de psicodélicos. O secretário de Saúde americano, Robert Kennedy Jr., é um entusiasta do tema.

A aquisição também representa uma volta da Eli Lilly ao segmento de tratamentos psiquiátricos. Antes de lançar medicamentos para perda de peso, que levaram a companhia a atingir US$ 1 trilhão em valor de mercado, a farmacêutica foi uma das principais fabricantes de medicamentos psiquiátricos, comercializando tratamentos para depressão, entre eles Prozac e Cymbalta.