A reversão das tarifas generalizadas impostas pelo presidente Donald Trump, decidida pela Suprema Corte, em fevereiro, desencadeou um fenômeno raro na economia americana: bilhões de dólares estão voltando para o caixa das empresas, numa espécie de estímulo acidental que chega justamente em um momento de forte pressão inflacionária, custos energéticos crescentes e incertezas geopolíticas.
A estimativa é que sejam restituídos até US$ 166 bilhões a cerca de 330 mil importadores, nos EUA, que assumiram o custo extra do tarifaço imposto por Trump a vários países. Exportadores estrangeiros que eventualmente assumiram a sobretaxação de seus produtos, porém, ficam à margem do processo.
O setor corporativo, que durante anos absorveu o impacto das tarifas sobre importações, agora assiste à liberação acelerada de reembolsos que já ultrapassam US$ 71 bilhões enviados ao Tesouro para pagamento.
A decisão da Suprema Corte anulou as tarifas impostas sob a Lei de Poderes Econômicos de Emergência Internacional (IEEPA), abrindo caminho para que importadores solicitassem reembolso por meio de um portal governamental lançado no fim de abril de 2025.
A reversão judicial transformou a política tarifária de Trump em um ciclo de “arrecadar e devolver”, no qual o valor total potencial de reembolso equivale ao valor total arrecadado.
Na prática, as tarifas não geraram receita líquida, não ajudaram a equilibrar o orçamento do governo – justificativa de Trump para sobretaxar as importações - e agora custam mais do que renderam, porque o governo também paga juros sobre os reembolsos.
O impacto fiscal causado pelo tarifaço é significativo. Entre outubro e junho, o governo dos EUA acumulou um déficit de US$ 1,4 trilhão, maior que o déficit de todo o ano fiscal anterior.
O Comitê para um Orçamento Federal Responsável projeta que o déficit total ultrapassará US$ 2 trilhões neste ano, e a perda líquida de receita tarifária contribui para esse cenário. Trump, por sua vez, tem ampliado isenções e reduzido tarifas em setores pressionados por custos, como fertilizantes e equipamentos agrícolas, o que diminui ainda mais a arrecadação.
Para as empresas, porém, o foco está no destino dos reembolsos. A PepsiCo afirmou que usará o dinheiro para compensar a inflação de commodities, que se intensificou com a escalada do conflito no Oriente Médio.
A McCormick, fabricante de temperos, também planeja direcionar a maior parte dos reembolsos para cobrir custos mais altos decorrentes da guerra com o Irã e da volatilidade energética. A Nike, por sua vez, espera recuperar quase US$ 1 bilhão, um ganho extraordinário que já ajudou a melhorar suas margens de lucro.
O Bank of America observa que os reembolsos estão sendo liberados mais rápido do que o previsto e devem ser concluídos até setembro. “Essa devolução de recursos pode funcionar como uma força desinflacionária temporária, ajudando empresas a absorver custos antes de repassá-los aos consumidores”, afirma Stephen Juneau, economista do BofA.
Ele aponta para cortes de preços no varejo maiores que o normal para esta época do ano, como o caso do BJ’s Wholesale Club, que reinvestiu os reembolsos para reduzir preços gerais em cerca de meio ponto percentual. “O efeito desinflacionário, porém, será limitado, já que muitas empresas podem optar por amortizar dívidas ou simplesmente guardar o dinheiro”, acrescenta Juneau.
Pesquisadores do Federal Reserve de Atlanta reforçam essa visão. Para eles, o impacto econômico real dos reembolsos é menor do que o valor total divulgado, porque depende da situação financeira das empresas beneficiadas.
Eles estimam que apenas um terço dos reembolsos irá para companhias classificadas como financeiramente restritas — aquelas mais propensas a usar a injeção inesperada de capital para contratar, investir ou reduzir preços. O restante deve ser direcionado para pagamento de dívidas, recompras de ações ou reservas de caixa, com efeito limitado sobre a atividade econômica.
A devolução das tarifas também cria um impasse para empresas exportadoras, incluindo as brasileiras. Como o reembolso é feito diretamente ao comprador americano, companhias como a Eucatex e setores do agronegócio precisam recorrer a ações judiciais ou negociações comerciais para tentar recuperar perdas acumuladas durante a vigência das tarifas.