A ameaça do presidente Donald Trump de cobrar um pedágio de 20% sobre toda a carga transportada pelo Estreito de Ormuz pode ter cobrado um preço maior que o esperado pelo governo americano. Após o anúncio feito nesta segunda-feira, 13 de julho, os principais índices de ações de Nova York encerraram o dia no vermelho, enquanto o petróleo disparou mais de 10%, renovando os temores inflacionários e levando o mercado a precificar juros mais altos nos Estados Unidos.

Segundo a ferramenta FedWatch, da CME Group, que monitora as apostas do mercado futuro de juros americanos, as probabilidades de o Federal Reserve (Fed) elevar os juros em ao menos 50 pontos-base — duas altas de 25 pontos cada — até o fim de 2026 superaram 57,5% nesta segunda-feira. Até o início do dia, o mercado precificava 47,6% de duas altas e, há uma semana, 33,9%.

Nessa segunda-feira, os temores sobre os efeitos da escalada geopolítica no Golfo Pérsico foram amplificados pelo discurso do diretor do Fed e membro votante do FOMC, Christopher Waller, na New York Association for Business Economics, em Nova York.

Em uma fala que vai na contramão dos desejos do presidente Donald Trump por cortes de juros, Waller alertou que, se o núcleo da inflação desta semana vier mais uma vez acima do esperado, “o FOMC precisará considerar o aperto da política monetária no curto prazo”.

O Índice de Preços ao Consumidor americano (CPI, na sigla em inglês) de junho será divulgado nesta terça-feira, 14 de julho.

Waller foi explícito ao traçar um paralelo com o erro de 2021, quando o Fed demorou a reagir à inflação. “Sou determinado a evitar repetir o mesmo equívoco”, disse o diretor.

O consenso é de desaceleração da inflação cheia em 12 meses, de 4,2% em maio para 3,8%, com o CPI mensal recuando 0,1%. Já o núcleo do CPI anual, que exclui energia e alimentos e é o indicador que Waller disse monitorar com mais atenção, deve ficar estável em 2,9%, pelas projeções de mercado, e em 0,2% frente ao mês anterior.

Com o núcleo rodando persistentemente acima da meta de 2% e a escalada em Ormuz ameaçando reverter a queda recente do petróleo, porém, qualquer surpresa para cima amanhã pode ser o gatilho que falta para o início de um novo ciclo de aperto.

Na próxima decisão do FOMC, marcada para 28 e 29 de julho, a probabilidade de alta de 25 pontos-base chegou a 43,3% nesta segunda-feira — contra 34,2% há um dia e apenas 8,3% há um mês. Em setembro, o mercado precifica 76% de chance de ao menos uma alta acumulada desde o nível atual.

“As falas de Waller de hoje e a última ata do FOMC, na semana passada, mostram que o FOMC se tornou cada vez mais aberto à possibilidade de altas de juros para combater a inflação”, escreveu o Goldman Sachs em relatório.

Embora espere uma dinâmica mais favorável nos próximos meses para o CPI cheio, o cenário para o núcleo da inflação deverá ser mais desafiador, segundo economistas do banco.

“A inflação do núcleo do PCE deve permanecer ligeiramente mais persistente, com média de 0,23% nos próximos três meses, em parte devido à pressão contínua sobre os preços imputados de serviços financeiros pela alta das bolsas e ao aumento de preços em software e acessórios, cujo peso no núcleo do PCE é 30 vezes maior do que no núcleo do CPI”, afirma.

Quem também espera um núcleo de inflação mais persistente é o Bank of America. Segundo os economistas do banco, o CPI cheio de junho deve ter recuado 0,09% em relação a maio, com a queda dos preços da gasolina. Para o núcleo do PCE, o BofA projeta alta de 0,29% no mês, o que levaria a taxa anual a 3,4%. “Isso deve fortalecer o argumento para altas de juros no curto prazo”, afirmou o banco.