Uma mudança completa de planos depois que uma explosão no módulo de serviço impediu a espaçonave de alcançar a Lua e forçou os tripulantes à luta pela sobrevivência. A história retratada na missão Apollo 13, aquela cuja frase "Houston, we have a problem" ficou famosa, foi a analogia utilizada na última carta da Kinea para se referir à mudança de rota das políticas monetárias.
“Em várias frentes, a missão mudou. O plano original era um mundo de inflação convergindo, juros caindo e tecnologia gerando caixa. Mas os últimos meses mostraram que a trajetória ficou mais complexa”, escreve a gestora, que conta com R$ 150 bilhões sob gestão.
Com a inflação acima da meta “há tempo demais” nos Estados Unidos, a expectativa da Kinea é de que o novo presidente do Federal Reserve, Kevin Warsh, precise escolher uma política monetária mais dura para “trazer a nave de volta à Terra”. “Isso significa condições financeiras mais apertadas, juros americanos mais altos e dólar mais forte.”
Embora o FOMC tenha mantido a taxa em 3,5% a 3,75% por unanimidade em 17 de junho, o dot plot do comitê passou a sinalizar viés de alta, com a mediana para o fim de 2026 subindo de 3,4% para 3,8%. Na esteira da decisão, o mercado passou a precificar uma chance próxima de dois terços de pelo menos uma alta de juros até dezembro, ante cerca de 43% no início do mês.
Segundo a Kinea, a questão não é mais se os Estados Unidos subirão juros, mas quando e em que intensidade. Para aproveitar esse movimento, a gestora afirma ter mantido posição comprada em dólar, enquanto vê um cenário contrário ao peso mexicano e ao euro.
A necessidade de uma mudança de rota, segundo a Kinea, também se aplica ao Banco Central brasileiro. Na decisão mais recente, o Copom cortou a Selic em 0,25 ponto percentual pela terceira vez consecutiva, reduzindo a taxa para 14,25%. Mas já não se espera um ciclo longo de cortes. Após diversas revisões de juros para cima, o boletim Focus passou a prever apenas mais uma redução até o fim do ano, levando a Selic a 14%.
“O Brasil sobe juros, mas não consegue cortá-los de volta para níveis normais. O que antes parecia uma taxa emergencial começa a se parecer com uma nova taxa de equilíbrio”, afirma a gestora.
Na avaliação da Kinea, o fiscal voltou a adicionar risco, enquanto a economia segue aquecida e o mercado de trabalho apertado. “O que chama atenção é que, mesmo nesse nível, o Banco Central não consegue iniciar um ciclo consistente de cortes.”
Com o desemprego historicamente baixo no país, a Kinea ainda vê o risco de que o fim da escala 6x1 eleve os gastos com mão de obra, resultando no repasse de custos e, consequentemente, mais inflação.
Como consequência, diz a Kinea, mesmo quando o choque externo melhora, as curvas de juros do país são precificadas mais devagar. “O Brasil fica para trás porque o problema não é apenas petróleo, guerra ou Fed. É fiscal, mercado de trabalho, crédito, câmbio e prêmio de risco estrutural.”
A Kinea adiciona que a perspectiva do Fed deve ser outro limitante do ciclo de queda de juros no Brasil. Mas, segundo a gestora, o mais provável ainda é que o Banco Central continue baixando a Selic, em vez de começar a subir. “[Mas] a retomada do ciclo irá depender de uma combinação de fatores, externos e domésticos.”
No Brasil, a gestora afirma ter mantido baixa exposição direcional na bolsa e dado preferência a operações long and short, enquanto tem operado juros em “tamanho bastante reduzido” e sem exposição relevante em real.