O mercado brasileiro de biocombustíveis está prestes a integrar seu último elo, juntando-se ao etanol, ao diesel verde (HVO), ao combustível sustentável de aviação (SAF) e ao biodiesel.

O biometano – combustível renovável derivado do biogás, produzido pela decomposição de materiais orgânicos, vegetais ou animais – já se tornou realidade antes mesmo da conclusão de seu marco regulatório, com crescimento de 75% da produção nacional entre 2024 e 2025.

Ao fim de 2023, quando o biometano ainda engatinhava, a ANP (agência reguladora de óleo e gás) registrava 6 plantas autorizadas. Em junho de 2026, eram 21, com outras 48 em processo de autorização.

O arcabouço regulatório da ANP está praticamente concluído – faltam apenas notas técnicas e a entrada em operação, prevista para setembro, do sistema de registro e rastreabilidade, com o início das emissões dos Certificados de Garantia de Origem de Biometano (CGOBs), que comprovarão o mandato aprovado pela Lei do Combustível do Futuro.

A ABiogás, entidade das empresas que produzem biogás e biometano, estima potencial de produção de 120 milhões de m³/dia de biometano se todo o potencial técnico nacional for explorado — volume equivalente a 62% do consumo de diesel do País. Hoje, a capacidade instalada é de apenas 1,33 milhão de m³/dia, evidenciando o espaço para expansão.

No ritmo atual, o biometano deve confirmar a previsão da ABiogás de atrair R$ 246 bilhões de investimentos até 2035 e gerar 110 mil empregos, numa cadeia que envolve petróleo, distribuição de gás, setor sucroalcooleiro, aterros e pecuária — o que explica o apelido “pré-sal caipira”.

O sucesso antecipado se deve à amplitude de uso. No Brasil, as duas grandes fontes são os resíduos urbanos (capturados em aterros sanitários) e os resíduos do agronegócio (pecuária, vinhaça, agricultura).

Sua vantagem industrial frente ao gás natural está na redução da pegada de carbono buscada pelas empresas, com uso nas mesmas aplicações — aquecimento, transporte, indústria — sem grandes adaptações, podendo ser injetado na rede existente.

O biometano também substitui GLP, gás natural e diesel na descarbonização de frotas, onde o setor aposta no maior crescimento. O transporte marítimo movido a bio-GNL também avança, impulsionado pelas regras rigorosas da Organização Marítima Internacional (IMO), embora com maior tração na Europa.

A Gás Verde, maior produtora de biometano da América Latina, identificou ainda o CO₂ verde como subproduto da conversão de biogás em biometano. Diferente do CO₂ fóssil, ele é purificado a partir de resíduos orgânicos e substitui o dióxido de carbono fóssil em setores como bebidas gaseificadas e congelamento de alimentos.

“O debate energético mundial mudou de patamar”, afirma Josiani Napolitano, presidente executiva da ABiogás. “A transição energética deixou de ser só uma agenda ambiental e passou a incorporar temas como segurança energética, competitividade industrial e soberania nacional.”

Economia circular

A Gás Verde reflete o crescimento do segmento. Está presente em seis estados com 11 plantas, sendo 2 de biometano e 9 de energia elétrica a biogás.

A empresa produz 160 mil m³/dia nas unidades de Seropédica (RJ) e da Ecourbis Ambiental, esta em parceria com a Orizon Valorização de Resíduos, a partir do biogás gerado na destinação de resíduos sólidos das zonas Sul e Leste de São Paulo.

Seropédica, maior unidade do País, produz 180 mil m³/dia e está sendo ampliada para até 280 mil m³/dia, tornando-se o maior complexo de biometano do mundo. A empresa também constrói sua primeira planta no Nordeste, em Igarassu (PE), com operação no segundo semestre e mais de 60% da produção já negociada.

Com biometano de aterros no Rio e em São Paulo, a Gás Verde abastece indústrias como Ternium, Saint-Gobain, Haleon, Henkel, Vesuvius, Nestlé, Knauf, Stellantis, Grupo L’Oréal e Ambev.

No 13º Fórum do Biogás, realizado em São Paulo nesta semana, o CEO Marcel Jorand anunciou que a empresa pretende mais que triplicar a produção até 2028 e vê no transporte pesado a demanda mais aquecida.

“O setor industrial é, atualmente, o principal destino do biometano produzido pela companhia, mas o perfil de novos clientes tem mudado, majoritariamente, estão vindo do transporte”, afirmou. Em parceria com a Gás Verde, a L’Oréal criou o primeiro ponto dedicado de biometano da América Latina em Jarinu (SP), abastecendo 100% da frota.

Essa “segunda onda” do biometano no transporte pesado avança por duas razões: contratos indexados ao IPCA, sem volatilidade do diesel e do gás natural, cujos preços são atrelados ao dólar; e requisitos operacionais, como abastecimento ágil — um caminhão é abastecido em oito minutos, mais adequado para longas distâncias do que soluções elétricas.

Em acordo com a Companhia Municipal de Limpeza Urbana (Comlurb), do Rio de Janeiro, o biometano de Seropédica abastece 100 caminhões da companhia — os veículos que abastecem o aterro rodam com o combustível produzido ali.

Para Milton Pilão, CEO da Orizon, a substituição do diesel em frotas urbanas pode gerar um mercado duas vezes maior para o biometano no Brasil em relação ao potencial industrial.

“Mas a infraestrutura e a regulação ainda são desafios a serem superados a nível nacional”, advertiu Pilão, durante o Fórum do Biogás. “A liderança de São Paulo na incorporação progressiva do biometano à frota ajudará a destravar a agenda de descarbonização da mobilidade urbana no restante do País.”

A Prefeitura de São Paulo usa biometano diretamente no transporte pesado, tanto na frota de ônibus quanto na frota de 600 caminhões de coleta de lixo. Existem ainda movimentos estaduais no Paraná – com a criação de um programa de corredor sustentável - e iniciativas no Rio de Janeiro. O BNDES apoia com financiamentos ligados ao Fundo Clima.

A Ultragaz também faz planos ambiciosos. A empresa espera quase dobrar seus clientes até o fim do ano, passando de 23 para 40, segundo Fabiana Molina, diretora Jurídica e de Relações Institucionais. A aposta é no mercado voluntário.

“Uma série de clientes tem compromissos ambientais… e esses clientes têm chegado até nós com esse pleito”, afirmou ela, citando a substituição do diesel por biometano como “grande alavanca de crescimento”.

A base desse novo mercado foi criada pela Lei do Combustível do Futuro, de 2024, detalhada por decreto e resoluções da ANP.

A legislação instituiu mandato de descarbonização para o mercado de gás natural, com compra obrigatória de CGOBs por produtores e importadores de gás fóssil – o que gerou gritaria no setor de gás natural. As regras evitam dupla contagem de atributos ambientais.

“O certificado identifica a origem do biometano e registra sua cadeia de produção”, afirma Josiani Napolitano, da ABiogás. “Mais do que um documento, ele cria um padrão de confiança.”

O mandato começa este ano com meta de 0,5% de redução de emissões de gases de efeito estufa (GEE) no mercado de gás natural, a serem cumpridas por produtores e importadores, e pode chegar a 10% em dez anos, com meta plurianual de 2027 em diante prevista para publicação em novembro.

Na prática, esse movimento consolida o marco regulatório do biometano, criando demanda previsível e sustentando investimentos intensivos em capital.