Um levantamento inédito realizado pela operadora de energia Bow-e com mais de 200 consumidores em todo o País, que NeoFeed teve acesso em primeira mão, revela que 72,6% dos entrevistados gostariam de decidir de qual empresa comprar energia elétrica a partir de 2028.
Essa é a data em que a opção estará disponível a todos os consumidores residenciais com a abertura do mercado livre de energia – hoje restrito a indústrias e empresas de grande e médio porte, com preços até 30% mais baixos que os oferecidos pelas distribuidoras de energia do mercado cativo.
A explosão do interesse pelo mercado livre de energia contrasta com um alerta crescente no setor: a abertura prevista para 2028 pode não entregar tarifas muito menores em relação às atuais do mercado cativo, no qual estão inseridos os consumidores residenciais atendidos pelas distribuidoras de energia.
Distorções na formação dos preços da eletricidade, agravadas pelo acionamento mais frequente de térmicas e por modelos que elevam artificialmente o custo da energia, ameaçam a promessa de tarifas mais baixas.
Ou seja, se nada mudar, o consumidor residencial pode até ganhar o direito de escolher, mas não deverá encontrar preços competitivos no mercado livre comparados aos de hoje. A tendência é que o índice de desconto encolha na época de abertura para até metade do praticado atualmente no mercado livre na comparação com o mercado cativo.
O levantamento da Bow-e – empresa do Grupo Bolt especializada em geração distribuída (GD) e operadora de energia por assinatura para clientes residenciais – também chama a atenção por outra constatação: cerca de 60% dos consumidores desconhecem que poderão escolher seu fornecedor de energia a partir de 2028.
Atualmente, o mercado livre atende cerca de 85 mil unidades consumidoras de alta tensão, movimentando cerca de R$ 283 bilhões por ano. São indústrias, shoppings, grandes comércios, hospitais e data centers, por exemplo, responsáveis por 42% de toda a eletricidade consumida no País. Comércios, serviços e pequenas empresas atendidos em baixa tensão, mas com carga relevante, poderão aderir em novembro do ano que vem.
A partir de novembro de 2028, os demais consumidores em baixa tensão - incluindo residências – poderão migrar. O potencial é imenso: a composição atual de 85 mil unidades consumidoras do mercado livre poderá saltar, em tese, para 90 milhões de clientes, multiplicando por mais de 1.000 vezes o tamanho atual quando estiver consolidado, com um potencial inicial de novas receitas anuais de aproximadamente R$ 12,5 bilhões, com expansão gradual esperada ao longo de 2 a 3 anos de adesão dos novos consumidores.
Por isso, a abertura em 2028 é uma oportunidade histórica, mas cercada de desafios estruturais significativos, captados pela pesquisa da Bow-e.
“Os dados mostram que existe uma demanda espontânea por liberdade de escolha antes mesmo de o consumidor conhecer a mudança regulatória”, afirma Ciro Neto, CEO da Bow-e. “Isso significa que o desafio do setor não será despertar interesse, mas ampliar o acesso à informação para que as pessoas entendam como o mercado funciona e, a partir disso, tomem decisões conscientes quando a abertura ocorrer."
Em um cenário de aperto financeiro para os orçamentos familiares, o fator determinante para a mudança de fornecedor de energia confirmado pela pesquisa é o preço da tarifa, apontado por 67,4% dos entrevistados como o principal critério de escolha. Qualidade do atendimento (11,6%), energia de fontes renováveis (7,4%) e programas de benefícios (7,4%) aparecem em seguida.
"O preço naturalmente será a porta de entrada para a competição, mas conforme o mercado amadurece, fatores como qualidade do atendimento, transparência e serviços agregados passam a ser determinantes para fidelizar esse consumidor no ambiente livre", conclui.
Energia cara
Os problemas enfrentados atualmente pelo setor elétrico, incluindo a crise de liquidez das comercializadoras, somada à volatilidade do mercado de curto prazo e ao risco de retração dos contratos de longo prazo, porém, adicionam incerteza ao futuro.
Levantamento recente do Centro de Liderança Pública (CLP) - organização suprapartidária, dedicada a formar lideranças e qualificar políticas públicas – dá uma dimensão dos gargalos do setor elétrico.
O estudo avaliou o custo da energia residencial em 138 países, ajustado pela PPC (paridade do poder de compra), quando se usa a taxa de câmbio como referência para comprar a mesma quantidade de bens e serviços em cada país.
Sob essa metodologia, a tarifa brasileira é de US$ 0,357 por quilowatt-hora (kWh), cerca de R$ 1,83. O valor supera o praticado em cerca de 70 países, incluindo China (US$ 0,155/kWh); Canadá (US$ 0,146/kWh) e Noruega (US$ 0,095/kWh).
Ou seja, o Brasil possui uma conta de luz residencial mais cara do que a de diversos países, apesar de dispor de uma das matrizes elétricas mais baratas e limpas do mundo - em 2025, quase 90% da geração elétrica veio de usinas hidrelétricas, eólicas e solares. O gargalo vem à tona ao se constatar que o custo efetivo da geração representa apenas 30,4% da conta paga pelo consumidor. Quase dois terços da fatura são compostos por encargos, impostos e custos de rede.
O estudo do CLP simulou cenários para uma redução desses custos e concluiu que, no mais ambicioso, uma reforma estrutural no setor elétrico poderia reduzir a tarifa em até 32%.
A revisão da Conta de Desenvolvimento Energético (CDE, que repassa os custos à conta de luz) e dos subsídios do setor, por exemplo, reduziria a tarifa em 10%. Com o combate às perdas técnicas e não técnicas (como furtos de energia) do sistema, a queda chega a 19%, enquanto uma reforma regulatória mais ampla, sem mudança na carga tributária, levaria a uma redução de 23%. Para chegar à redução da tarifa em 32% seria necessário cortar pela metade a carga tributária.
“O Brasil não sofre principalmente de falta de geração barata”, afirma Daniel Duque, head de inteligência técnica do CLP, que assina o estudo. “O problema é que uma parcela significativa do preço final da eletricidade decorre de escolhas regulatórias, encargos e tributos que afastam a tarifa do seu custo real.”
Acúmulo de encargos
Para Ciro Neto, da Bow-e, essa contradição — geração barata e tarifa cara — é central no debate do setor elétrico brasileiro.
“O consumidor de baixa tensão, que historicamente financiou a baixa tarifa dos clientes de alta tensão no mercado livre por meio do pagamento de encargos que subsidiavam renováveis, perdeu o direito ao desconto da energia incentivada com a nova regulação”, ressalta. “Trata-se de uma injustiça estrutural: quando esse consumidor residencial poderia usufruir do incentivo que ajudou a construir, o benefício foi extinto para novos entrantes.”
Em relação à formação de preços de energia com a abertura do mercado livre em 2028, as perspectivas dos consumidores residenciais não são boas. O executivo da Bow-e explica que os preços para 2028 já estão definidos com base nos Leilões de Reserva de Capacidade (LRCAP) realizados este ano e no Celar (sigla para Custo de Energia de Longo Prazo Ajustado pelo Risco).
O LRCAP define o limite regulatório de contratação de térmicas e hidrelétricas para abertura do mercado. Já o Celar é o indicador de referência que as comercializadoras usam para formar preços futuros de energia, especialmente em contratos de médio e longo prazo no mercado livre, de 2027 até 2032.
Na prática, isso significa que os preços de energia para 2028 já estão sendo montados por modelos que incorporam risco elevado, especialmente acionamento de térmicas, hidrologia ruim, incerteza regulatória e a volatilidade de preços do mercado livre - e dificilmente recuarão.
Segundo ele, as comercializadoras que se anteciparam já compraram energia com desconto e têm previsibilidade na formação de preços, que deve variar de acordo com os contratos fechados. “Com reajuste médio das tarifas das concessionárias estimado em 8%, projetamos um desconto entre 5% e 12% para o cliente final no mercado livre em 2028, muito inferior aos 30%–35% observados na abertura do mercado de alta tensão”, adverte.
Medidas de curto prazo avaliadas por Ciro têm potencial para reduzir custos do sistema, mas ainda de forma limitada. A primeira é a adoção de medidores inteligentes e do modelo Open Energy, hoje em consulta pública na Aneel, a agência reguladora do setor elétrico. Esses equipamentos permitem medir o consumo hora a hora e atribuir valor à energia conforme o comportamento real da carga, abrindo espaço para eficiência energética e tarifas mais alinhadas ao uso.
A segunda medida é o leilão de baterias, pensado para reduzir o acionamento de termelétricas nos horários de pico, suavizando a tarifa.
Embora promissora, o efeito combinado dessas iniciativas não deve gerar reduções superiores a 20% para o consumidor final: “São medidas importantes para mitigar custos, mas insuficientes para reverter a tendência estrutural de alta provocada por distorções de preço e maior uso de térmicas”, diz.
Operadoras de energia terão de crescer em um ambiente turbulento até a abertura total do mercado livre para consumidores residenciais. A Bow-e, que hoje atende cerca de 30 mil clientes, projeta chegar a 1 milhão até 2031/2032 — apenas 1% do mercado endereçável, o que mostra o enorme potencial disponível.
Para sustentar essa expansão, Ciro Neto afirma que o foco será reduzir o Custo de Aquisição de Cliente (CAC) - valor total que uma empresa gasta para conquistar um novo cliente - e automatizar o atendimento.
O executivo prevê uma forte consolidação entre comercializadoras. “Hoje existem entre 300 e 400 agentes, e a expectativa é que apenas os mais preparados sobrevivam”, diz. A combinação de erros de precificação e modelagem já levou diversas empresas à recuperação judicial, evidenciando a seleção natural em curso no setor.