Em um movimento pouco usual e preciso, o governo dos Estados Unidos se uniu ao do Japão na semana passada para, juntos, estruturarem uma intervenção no mercado cambial do país asiático para conter uma queda recorde do iene – que na sexta-feira ameaçou atingir o seu nível mais baixo em relação ao dólar em quatro décadas.

A manobra foi consolidada na tarde de segunda-feira, 3 de agosto, com o iene recuperando sua cotação para cerca de 156 por dólar, saindo de uma mínima pré-intervenção próxima a 164 por dólar de sexta-feira – pior cotação desde 1986.

"Os mercados estão tratando isso como uma questão cambial, mas é muito mais do que isso", escreveu Nigel Green, CEO da consultoria financeira de Vere Group, em nota aos clientes.

"Quando duas das maiores economias do mundo entram no mercado juntas pela primeira vez em mais de uma década, estão dizendo aos investidores algo sobre a tensão crescente no sistema financeiro global, e não apenas sobre uma taxa de câmbio", complementou.

A participação dos EUA na intervenção do iene pode ter sido uma tentativa de permitir que os japoneses suavizassem as oscilações de sua moeda sem criar mais pressão de mercado sobre os títulos do Tesouro dos EUA – cujas reservas o BC japonês venderia para segurar o iene.

A preocupação com treasuries procede: as taxas de juros de longo prazo dos EUA têm subido nos últimos meses, com o rendimento dos títulos do Tesouro de 30 anos atingindo novas máximas desde 2007 nos últimos dias, sendo cotado na faixa de 5,23% na segunda-feira, 3 de agosto.

A intervenção dos EUA nos mercados cambiais de outro país é rara. Os EUA haviam contribuído pela última vez para o fortalecimento do iene em 1998, quando a economia global estava abalada pela crise financeira asiática.

Este ano, o governo Trump comprou pesos argentinos para ajudar o presidente Javier Milei a fazer caixa de reservas cambiais em dólares como parte do pagamento de uma parcela do empréstimo do FMI à Argentina – mas o movimento não afetou os indicadores americanos, nem o Japão se encontra na mesma situação econômica que a Argentina.

O governo japonês possui abundantes reservas cambiais e a economia do país está crescendo novamente após décadas de estagnação e queda de preços. Ainda assim, o iene tem sofrido pressão devido a uma combinação de preocupações dos investidores, incluindo em relação à política fiscal, à dívida pública - a maior entre os países ricos - e à inflação crescente.

Assim como outras moedas asiáticas, o iene também vem enfrentando dificuldades devido à fuga de capitais para os EUA em busca de maiores retornos com o boom da inteligência artificial. A guerra com o Irã aumentou a pressão sobre as moedas do Japão e de outros importadores de energia.

Desde abril, o Japão já queimou cerca de US$ 120 bilhões de suas reservas cambiais para sustentar o iene, sem conseguir evitar novas desvalorizações – só nas últimas semanas, cerca de US$ 50 bilhões foram usados para conter a sangria do iene.

Motivos de sobra

Nos comunicados oficiais e declarações na segunda, 3, o governo americano passou a mensagem de que a operação não passava de um ato de ajuda a uma nação aliada.

Falando a repórteres a bordo do Air Force One, o presidente Donald Trump disse que o Japão havia pedido ajuda e que os EUA estavam felizes em atender ao pedido.

“Eles queriam um pouco de ajuda e nós sempre estamos aqui para o Japão”, disse ele. “O Japão tem sido muito bom para nós, com a exceção, é claro, de Pearl Harbor."

Mas não demorou para que analistas e a imprensa americana revelassem os reais interesses dos EUA em evitar a queda brusca da moeda japonesa.

Uma desvalorização recorde do iene poderia indiretamente afetar os rendimentos dos títulos do Tesouro dos EUA. Na prática, a variação dos rendimentos dos títulos americanos no mercado internacional com a venda japonesa poderia impactar a política monetária dos EUA, causando aumento das taxas de juros - que já estão subindo devido a preocupações fiscais e incertezas sobre a política do Federal Reserve.

Outras razões levaram a Casa Branca a impulsionar a ação conjunta dos dois países. Uma queda rápida e desordenada do iene poderia afetar outros ativos, atrelados ao carry trade – movimento no qual os investidores globais tomam empréstimos em ienes a custos baixos e compram ativos com rendimentos mais robustos no exterior, aproveitando o contexto histórico do Japão de taxas de juros ultrabaixas.

A desvalorização do iene também dificulta o financiamento, por parte das empresas japonesas, de um investimento planejado de US$ 550 bilhões nos EUA, conforme acordo comercial que Trump fechou com os japoneses no ano passado - numa barganha para não impor tarifas ao governo da primeira-ministra Sanae Takaichi.

No final da semana passada, o Departamento do Tesouro fez alusão indireta ao seu envolvimento com a intervenção no mercado cambial, com uma publicação nas redes sociais do secretário Scott Bessent falando de "uma relação sólida e estreita coordenação".

Em um evento para a imprensa em Camp David, com fotógrafos presentes, Bessent tinha um bloco de notas à sua frente com uma lista de tarefas que dizia: "Comprar ienes japoneses (JPY) no valor de 5 a 10 bilhões de dólares".

Na segunda, pela manhã, ambos os governos confirmaram a iniciativa. "As ações coordenadas de câmbio de sexta-feira contrariaram os movimentos desordenados do iene", escreveu Bessent no X. "Não hesitaremos em participar de novas intervenções conjuntas."

A imprensa americana, no entanto, afirma que os dois governos parecem ter utilizado ferramentas complementares. O Federal Reserve de Nova York, agindo em nome do Tesouro, teria vendido euros para comprar ienes. Na prática, o Tesouro dos EUA estava agindo para fortalecer a taxa de câmbio iene-euro.

Aparentemente, a iniciativa alcançou seu objetivo de fortalecer o iene nos mercados cambiais globais, sem que o governo japonês vendesse títulos da dívida pública americana em larga escala.

De acordo com o portal Axios, para isso, o programa de recompra do Fed - a pouco usada Linha de Recompra de Autoridades Monetárias Estrangeiras e Internacionais – foi oferecido às autoridades japonesas como uma maneira de tomar empréstimos em dólares usando títulos do Tesouro como garantia, em vez de vender esses títulos diretamente.

A ministra do Tesouro do Japão, Satsuki Katayama, confirmou esse movimento ao admitir que o Japão planeja usar uma linha de crédito criada durante a pandemia para obter dólares do Federal Reserve, em vez de vender suas reservas de títulos do Tesouro para financiar futuras intervenções.

De iene, por sinal, Bessent entende – o atual secretário do Tesouro ganhou cerca de US$ 1 bilhão ao apostar contra o iene nos anos 1990, quando trabalhava no Soros Fund Management.

Bessent identificou na época que o Japão não conseguiria sustentar sua política cambial diante de fragilidades econômicas internas, liderou a estratégia de vender ienes em larga escala e, quando o governo japonês foi forçado a deixar a moeda se desvalorizar, o fundo recomprou ienes muito mais baratos, cristalizando o lucro extraordinário.