O rali da bolsa brasileira, com alta de mais de 37% em um ano, não foi suficiente para esfriar o apetite dos gestores de ações. É o que mostra a pesquisa “Perspectiva dos Gestores” da Empiricus, feita com 26 gestoras de fundos de ações long only entre os dias 1 e 9 de março.

Somadas, as gestoras que participaram da pesquisa têm um patrimônio total de cerca de R$ 86,7 bilhões sob gestão em fundos de renda variável long only e long bias.

O levantamento mostra uma indústria mais exposta ao risco, concentrada em empresas grandes e líquidas, mas com disposição crescente para capturar um eventual upside adicional da bolsa local.

A prova disso é que o caixa das gestoras de ações recuou para 6,8%, ante 9,6% no mês anterior, enquanto a mediana caiu de 8% para 5,2%. Em paralelo, a fatia de gestores com caixa igual ou inferior a 2% subiu de 19% para 27%.

Em outras palavras, uma parcela maior da indústria voltou a operar mais próxima do fully invested, reduzindo a postura defensiva que havia ganhado espaço nos últimos meses.

Nem mesmo o conflito com o Irã diminuiu o otimismo dos gestores, que apenas estão com uma postura mais cautelosa em relação à exposição ao petróleo. Mais da metade das gestoras informou ter exposição ao setor abaixo do Ibovespa, enquanto 26,9% disseram não ter nenhuma posição em petróleo. Nenhuma casa declarou exposição acima do índice.

Ainda assim, quando provocados a avaliar o efeito do conflito sobre as teses do setor, 17 gestores apontaram impacto positivo apenas de curto prazo, sem mudança estrutural. Apenas um voto indicou efeito negativo de curto prazo, enquanto não houve respostas sugerindo mudança estrutural positiva ou negativa.

Na estimativa para o preço do petróleo em 12 meses, entre os que se sentiram confortáveis para responder, a faixa mais citada foi entre US$ 70 e US$ 80 por barril, seguida por abaixo de US$ 70.

E o otimismo com a bolsa segue para o médio prazo. Quando perguntados sobre as expectativas para os próximos seis meses, a maioria segue apontando para estabilidade no nível de caixa sem indicação de aumento à frente. Mostrando que os gestores ainda não enxergam necessidade de se proteger mais.

Na verdade, os gestores acreditam que podem ter retornos maiores. A expectativa de retorno (TIR nominal) média dos portfólios subiu de 19,3% para 20,3%, enquanto a mediana permaneceu em 19,2%. Metade das respostas já aponta uma TIR acima da média histórica de cada fundo, numa reversão em relação ao mês anterior.

A maioria dos gestores continua classificando o mercado como barato, com uma parcela menor, mas ainda relevante, vendo a bolsa como bem precificada.

A pesquisa também mostra que 53,6% da alocação média está concentrada em empresas grandes e líquidas, com valor de mercado superior a R$ 20 bilhões. As faixas inferiores aparecem bem atrás: 17,2% em companhias de até R$ 5 bilhões, 13,7% entre R$ 5 bilhões e R$ 10 bilhões, e 11,1% entre R$ 10 bilhões e R$ 20 bilhões.

A aposta é concentrada em empresas com balanços saudáveis e estruturas de capital moderadas. A alavancagem média ponderada das empresas investidas ficou praticamente estável, em 1,7 vezes dívida líquida sobre Ebitda, com mediana de 2 vezes.

A preferência setorial ficou com utilidades públicas, seguida do setor financeiro e varejo. Setores que mostram a busca por previsibilidade de geração de caixa, exposição a nomes sensíveis ao ciclo doméstico e interesse por teses ainda descontadas.

O otimismo dos gestores, porém, ainda não chegou ao investidor. No recorte mensal, predomina a percepção de captação neutra, o que sugere perda gradual de intensidade dos resgates.

Mas, no acumulado de 12 meses, a leitura continua majoritariamente negativa. Varejo, private wealth e family offices aparecem como as principais fontes de saídas de recursos, com fundos de pensão na sequência.

Segundo dados da Anbima até fevereiro, os fundos de ações sofreram resgates líquidos de R$ 6,9 bilhões, com o pior desempenho entre as classes de fundos.