“Se queremos que tudo continue como está, é preciso que tudo mude.” A frase de Tancredi Falconeri em O Leopardo, de Giuseppe Tomasi di Lampedusa, é perfeita para definir o momento que o mercado global de vinhos premium está atravessando.

Com o aquecimento global alterando o ciclo das videiras, para manter a excelência de seus rótulos, alguns dos mais renomados produtores começaram a romper com selos de denominação de origem tradicionais, como AOC e DOC.

À primeira vista, a decisão parece contraditória. Mas as ondas de calor mais frequentes, estiagens prolongadas, limites varietais, restrições de manejo no vinhedo e exigências sensoriais rígidas começaram a mostrar os limites de um sistema desenhado para outra realidade climática. O selo AOC, o mais antigo, por exemplo, foi criado em 1935. E o DOC, em 1963.

“As denominações estão expondo uma fragilidade que sempre existiu, que é a de confundir proteção territorial com garantia de qualidade”, afirma Cédric Grelin, head de importação da Mistral, em conversa com o NeoFeed. “Durante décadas essa equação funcionou porque o clima era estável e as castas tradicionais produziam, naquelas condições, os melhores vinhos possíveis naquelas parcelas de sua composição. Só que isso está mudando.”

O caso mais eloquente vem de Bordeaux. Este ano, o lendário Château Lafleur estreou no circuito en primeur com uma mudança histórica: a prestigiada denominação Pomerol não está mais estampada em seu rótulo. Em seu lugar está a classificação Vin de France, que começou a ser cunhada nas garrafas da safra 2025. A mudança foi comunicada no ano passado pela família Guinaudeau, em carta enviada a distribuidores e formadores de opinião.

Nela, os proprietários da vinícola de apenas 4,5 hectares, fundada em 1872, explicam o porquê da decisão: “Não se trata de uma negação do passado, mas de um compromisso com o futuro".

De acordo com o comunicado, o sistema de denominação atual impõe restrições, como a proibição de certas técnicas de manejo hídrico e densidades de plantio, o que impede a proteção das videiras do estresse extremo.

"No Lafleur, nossa lealdade é com o terroir e com a excelência do que entregamos aos nossos colecionadores. Mudamos para permanecer os mesmos... No fim, o que importa é a assinatura da família no rótulo, o único lastro de qualidade”, lê-se no comunicado.

Ao lado do próprio Château Lafleur, um dos vinhos mais disputados de Bordeaux e uma referência no universo do colecionismo, estão outros produtos da casa: Les Pensées de Lafleur, Les Perrières de Lafleur, Les Champs Libres, Grand Village Rouge e Grand Village Blanc.

Além dos produtores premium, casas de prestígio também passaram a abandonar os selos tradicionais e, em nome da qualidade, passaram a adotar sistemas mais flexíveis, como o IGP e o IGT.

No Domaine de Baronarques, da família Rothschild, seu La Capitelle de Baronarques deixou a AOC Limoux rouge e é comercializado como IGP Haute Vallée de l’Aude desde a safra de 2023. Para preservar o equilíbrio e a elegância do vinho, teve de mudar a composição oficial, dando maior peso à Syrah do que à Merlot em sua composição.

Na região, para garantir o selo AOC, a Merlot precisa ter maior presença.

Agora, os rótulos dos vinhos do Château Lafleur trazem apenas a inscrição "Vin de France"

O Domaine de Baronarques, da família Rothschild, é outra vinícola francesa a questionar a validade das denominações mais tradicionais

O vinho La Capitelle de Baronarques deixou a AOC "Limoux rouge" e é comercializado como IGP "Haute Vallée de l’Aude" desde a safra de 2023

Na Catalunha, Espanha, a família Torres conseguiu incluir a uva Forcada, resistente ao calor, no selo DO "Penedès

Pierre Lurton produziu, em Bordeaux, o Anthologie de Marjosse Cuvée Chardonneret, um branco 100;% Chardonnay com o selo "Vin de France" porque a casta é proibida pelas regras locais

Produzido pela tradicional família Antinori, o Tignanello é um dos "supertoscanos"

Há também projetos de alto prestígio que já foram criados sem se preocupar com os selos de denominação.

No Château Marjosse, propriedade pessoal de Pierre Lurton – o nome por trás dos celebrados Cheval Blanc e d’Yquem –, produz-se o Anthologie de Marjosse Cuvée Chardonneret, um branco 100% Chardonnay produzido em Bordeaux, que circula no mercado como Vin de France porque a casta é proibida pelas regras locais.

Nos anos 1970, produtores da Toscana passaram a fazer vinhos de alta qualidade fora das regras das DOCs e tiveram de rotulá-los como simples "vinho de mesa". Casos como Sassicaia e Tignanello ganharam prestígio e preços superiores aos de rótulos oficiais. Os supertoscanos, como são chamados, levaram a Itália a criar, em 1992, a categoria IGT, mais permissiva.

Pressão de prestígio

Para o consumidor que ainda está construindo repertório, a denominação geográfica continua sendo uma referência importante. Para o público mais experiente, a reputação do produtor construída ao longo do tempo pesa mais do que a classificação impressa no rótulo.

O lado curioso dessa mudança de paradigma está sendo cada vez mais escancarado nos leilões e em outras operações do mercado secundário.

“Vinhos rotulados burocraticamente como Vin de France ou IGT estão alcançando preços superiores aos de rótulos da mesma região que têm denominação oficial”, conta Grelin.

Mas nem todos os viticultores renunciam ao sistema facilmente. Na Catalunha, Espanha, a família Torres escolheu usar seu prestígio para pressionar por mudanças na lei. Demorou muito, mas o trabalho de recuperação de castas ancestrais frutificou em 2018, quando a uva Forcada, resistente ao calor, foi autorizada pela DO Penedès.

Graças a todos esses movimentos, uma resposta oficial parece tomar forma em Bruxelas. O novo regulamento europeu (UE 2026/471), o Wine Package, entrou em vigor em março de 2026, visando dar maior flexibilidade para a produção de vinhos — prevendo desde o financiamento de sistemas de irrigação até a autorização de castas mais resilientes.

A implementação ainda depende da adesão de cada conselho regional, os órgãos locais que detêm o poder final de atualizar os estatutos de cada denominação e autorizar, na prática, as mudanças aprovadas.

Enquanto o debate institucional avança em um ritmo bem mais lento que o da urgência nos campos, os produtores continuam buscando soluções para que a burocracia das leis não interfira na qualidade e na alma de seus vinhos. O desfecho de como será o pacote da regulamentação que está em trâmite ainda é incerto.

Mas Grelin faz uma ponderação importante: “O risco real está na flexibilização sem ancoragem. Grandes marcas com poder de lobby podem obter concessões que lhes favorecem individualmente sem que o benefício se distribua pela denominação, criando um sistema de dois pesos, em que se serve os poderosos e onera-se os menores”, afirma.

Para evitar distorções, o especialista defende: "Os organismos reguladores precisam atuar com maior vigilância nos próximos anos, garantindo que as reformas climáticas sejam sistêmicas e equitativas — e não apenas instrumentos de concentração de mercado”.