Um Land Rover Defender, uma câmera e uma estrada na África: esse era o combo que fazia o português Ricardo Pessoa feliz em sua juventude. Apaixonado por carros e fotografia desde muito jovem, ele não esperava acabar dedicando parte da vida a restaurar o modelo quadrado e rústico da montadora britânica. Um hobby meticuloso que virou negócio global.
Sediada em Lisboa e com quase 14 anos de mercado, a Coolnvintage (CNV) reforma no máximo 15 veículos por ano. Cada um exige, em média, 2 mil horas de trabalho manual e pode levar até um ano para ficar pronto. O preço: a partir de € 200 mil.
“Comecei desenvolvendo os carros para mim, mas, aos poucos, as pessoas demonstraram interesse e se tornou um negócio”, conta Pessoa, em entrevista ao NeoFeed. De pouquinho em pouquinho, seguiu a empresa até a fila de espera chegar aos atuais três anos.
No bairro de Campo de Ourique, no centro histórico lisboeta, a oficina tem espaço suficiente para trabalhar 30 carros por ano — o que reduziria o acúmulo de pedidos. Mesmo assim, Pessoa não pensa em expandir. Isso quebraria uma das características centrais da CNV: o envolvimento direto do fundador em cada projeto.
“A verdadeira arte exige tempo, humildade e repetição. Só então se torna arte (...) A maestria é conquistada lentamente. Não pode ser apressada”, escreve Pessoa no manifesto da empresa. “Criamos objetos feitos para durar. Não para impressionar. Não para serem substituídos. Mas para serem usados, mantidos e transmitidos de geração em geração.”
O empresário leva esses princípios tão a sério que, caso o pedido de um cliente não se alinhe ao perfil estético da CNV, o negócio não é fechado. “Se nos pedirem um carro todo bordado, com monogramas, por exemplo, eu não vou fazer”, diz Pessoa.
A equipe da CNV conta hoje com cerca de 15 pessoas. No início, elas eram contratadas pela experiência — em geral, engenheiros e técnicos de grandes montadoras alemãs, conforme reportagem no jornal londrino Financial Times. Pessoa, no entanto, percebeu que essa não era a peneira mais adequada — a paixão, sim.
O trabalho é predominantemente manual, mas Pessoa recorre ao uso das novas ferramentas tecnológicas em algumas etapas da restauração. Uma das mais usadas é a impressão 3D, fundamental para refazer peças iguais às originais.
“Ela nos permite fazer inclusive peças de qualidade superior”, explica. “Ou seja, eu consigo fazer as mesmas dobradiças das portas, iguais às que saíram no carro, substituindo, porém, o ferro por alumínio — garantindo que aquele componente nunca vai enferrujar.”
Nas estimativas do empresário, um Land Rover que tenha passado pela oficina de Campo de Ourique não precisará de reparos por 30 anos.
Assinado o contrato, até o Land Rover ficar pronto, o cliente recebe mensalmente “mimos” da CNV, como fotografias artísticas da restauração feitas por Pessoa. É uma forma de manter lá em cima a expectativa pela chegada do veículo. Dá certo.
A base de clientes da marca é composta por homens ao redor dos 50 anos, que já atingiram todos os seus objetivos financeiros e agora estão em busca de dois dos bens mais preciosos da contemporaneidade: tempo e liberdade.
“Essas pessoas já tiveram tudo, já mostraram tudo, já sentem que não têm nada a provar e começam a pensar em si próprias”, diz o empresário. “E esse carro normalmente está associado a uma propriedade, onde a pessoa passa tempo com amigos, vive experiências. Então ele se torna sinônimo de coisas boas.”
Dois em cada dez clientes têm mais de um automóvel da CNV. Em geral, para acompanhar a aquisição de segundas ou terceiras residências de lazer.
A Land Rover nasceu em 1948, dentro da fábrica Rover Company, fundada em 1878 por John Kemp Starley e William Sutton. No início, fabricava bicicletas — a Rover Safety Bicycle estabeleceu o design padrão das bicicletas modernas, rodas de tamanho igual e tração por corrente. O primeiro carro, o Rover 8HP, só viria na virada dos séculos XIX e XX.
Inspirado nos jipes militares americanos, o engenheiro Maurice Wilks, designer-chefe da Rover Company, pensava na reconstrução agrícola depois da Segunda Guerra Mundial: um veículo robusto, barato e fácil de consertar para ser usado em fazendas. Assim, foi criado o primeiro Land Rover.
O imaginário de exploração e uso em condições difíceis atravessou décadas e ainda hoje ajuda a explicar o apelo da marca. É nesse universo que se insere a clientela da CNV, que se espalha por diversos países.
Os Estados Unidos, que representavam 50% do negócio no início, hoje são responsáveis apenas por 25%. “Os americanos não gostam de esperar todo esse tempo por um produto”, conta Pessoa.
Os clientes japoneses representam outros 25%, enquanto 35% são da Europa. Os 15% restantes estão distribuídos por países como Kuwait, Filipinas, Tailândia, Paraguai e Argentina. E do Brasil? Nenhum. A culpa é, em grande parte, segundo o fundador, dos altos impostos de importação.
“Nós já pensamos diversas vezes em desenvolver um carro no Brasil, em parceria com um grande amigo meu que tem uma oficina especializada em Land Rover, o que evitaria a alta taxação do produto, mas esse projeto ainda não saiu do papel”, afirma.
Apesar de o negócio não deixar muito tempo livre para Pessoa, o empresário continua produzindo anualmente, pelo menos, um veículo para si próprio: “Eu normalmente uso esse carro por um ano e revendo para algum interessado em seguida, passando a focar no meu novo projeto”.