Nova York - “O Mozart da Arte Ocidental”. Esta era a forma como o pintor renascentista italiano Raffaello di Giovanni Santi, ou apenas Rafael (1483–1520), era conhecido. Prodígio e prolífico, o artista morreu aos 37 anos, deixando centenas de obras, além de afrescos que revestem quatro espaços no Vaticano, comissionados pelo Papa Julius II.
Grande parte destas obras foi trazida a Nova York para compor a exposição Raphael: Sublime Poetry, em cartaz até 28 de junho de 2026, no Metropolitan Museum of Art, em Nova York. A mostra, que não viajará para outros museus, disponibiliza um guia em áudio narrado pela atriz Isabella Rossellini.
As 200 obras estão expostas em galerias com cores sóbrias que contrastam com as cores vívidas das pinturas, e arcos no teto que lembram igrejas. Ali estão desenhos, pinturas, tapeçarias e artes decorativas, muitas delas inéditas nos Estados Unidos, entre as quais figuram três tapeçarias que pertenciam a Filipe II, rei da Espanha, e que até agora nunca foram exibidas fora de Madri.
O nome da mostra faz referência ao pai de Rafael, o poeta e pintor Giovanni Santi. Por séculos, as obras de Rafael foram objeto de desejo de colecionadores em toda a Europa. Muitas de suas obras monumentais, como A Madonna do Peixe e O Êxtase de Santa Cecília (presentes nesta mostra), foram saqueadas por Napoleão e levadas a Paris no final da década de 1790 para formar o novo museu do imperador. Essas obras foram devolvidas à Itália e à Espanha por volta de 1815.
De origem modesta nas regiões de Urbino e Úmbria, Rafael ascendeu meteoricamente ao passar por Florença, onde se destacou ao lado de Leonardo da Vinci e Michelangelo, até os seus últimos anos em Roma, onde alcançou altas esferas da sociedade e trabalhou para a corte papal. Ele atuava nos altos círculos intelectuais, onde pintura e poesia eram interligadas.
“Penso em Rafael como o maior influenciador de todos os tempos”, diz a historiadora de arte Carmen Bambach, curadora da mostra, ao NeoFeed. “De 1510 até o final do século XIX, ele foi idolatrado como o maior artista do Renascimento italiano, acima de Leonardo da Vinci e de Michelangelo”, afirma ela, que dedicou mais de sete anos ao preparo da exibição, reunindo peças de coleções internacionais.
“Embora a tradição histórica talvez coloque Rafael em terceiro lugar, ele é igualmente grandioso, diferenciando-se por sua personalidade artística extremamente refinada”, afirma Bambach, ressaltando seu carisma. “Ao longo de 20 anos, ele tornou-se um extraordinário pintor narrativo, um contador de histórias que captava instantaneamente o enredo de uma cena no momento mais dramático”, completa.
Logo na entrada da exposição, há o que se acredita ser um autorretrato de Rafael aos 15 anos, e a mostra segue em ordem cronológica, dividida em seções em torno de temas-chave. Entre eles, a obra Madonna e o Menino, e uma série de portraits, incluindo o de sua amante, Margherita Luti, intitulado La Fornarina (“A pequena padeira”), e os de Bindo Altoviti e La Muta, três obras que merecem destaque. Ainda há uma sala dedicada à projeção dos afrescos do Vaticano.
“Ao lado de pinturas e gravuras, reunimos 144 desenhos preparatórios, o que nos permite o privilégio de ‘espiar por cima do ombro’ do artista 500 anos mais tarde, entrando em sua mente enquanto criava estas composições sublimes”, diz a curadora.
Rafael também se destacou como arquiteto, designer de tapeçarias e cenários teatrais e pesquisador da Roma Antiga. Por vezes, ele também foi poeta, como seu pai. Sabe-se ainda que ele gostava de uma boa festa e que foi um empreendedor que soube equilibrar sua carreira ao difundir seu estilo por meio de colaborações com outros artistas, assistentes e gravuristas.
“Durante sua última década de vida, Rafael produziu inúmeros projetos simultaneamente, com grande organização, o que talvez explique por que morreu de excesso de trabalho, e não apenas de uma febre decorrente de sua vida amorosa, como afirmou Vasari”, diz Bambach, referindo-se a Giorgio Vasari (1511–1574), pintor, arquiteto e escritor do Renascimento italiano, conhecido como o “pai da história da arte”.
Segundo Vasari, Rafael faleceu na Sexta-feira Santa, em 6 de abril de 1520, no dia em que completou 37 anos, vítima de uma “febre violenta” provocada por excessos de “prazeres amorosos” com sua amante. Como registrou o historiador, ele, porém, escondeu a causa dos médicos, que o trataram erroneamente com sangrias, levando-o à morte.
Talvez a forma mais poética seria dizer que Rafael morreu de amor — e não de burnout. Ele está enterrado no Panteão, em Roma, um desejo seu.