Em meio à crise econômica, guerras, instabilidade política, desigualdades, pressão no trabalho e vida hiperconectada, a incidência da ansiedade tem aumentado significativamente — em todas as faixas etárias e contextos sociais. Mas o pior não é isso. O mais aterrador é que nós podemos estar dependentes desse estado de hipervigilância.

Essa é a tese defendida pelo psicoterapeuta britânico Owen O’Kane em seu novo livro, Viciado em ansiedade: Como quebrar o hábito. Na obra, ele defende que os fatores externos influenciam, claro, o desenvolvimento do transtorno, mas conta muito também a forma como lidamos com as incertezas da vida contemporânea.

É nesse ponto que o estudo de O’Kane se torna provocativo: todos têm responsabilidade sobre a própria ansiedade. E não reconhecê-la leva à passividade — o que tende a agravar ainda mais o quadro ansioso, em um ciclo permanente de sofrimento.

“Essa hipótese desafia a visão tradicional e convida o leitor a refletir sobre sua própria relação com esse estado emocional”, escreve um dos maiores especialistas em saúde mental da atualidade.

Não se trata de culpa, mas de responsabilidade. Ao se reconhecer parte da engrenagem, é possível identificar e abandonar os mecanismos que sustentam a ansiedade. A mudança, segundo o autor, oferece uma possibilidade real de transformação.

Com três décadas de experiência e famoso como terapeuta residente na BBC Radio 5 Live, onde auxilia ouvintes a compreender e lidar com problemas de saúde mental no dia a dia, O’Kane diz que nós “aprendemos” a ser ansiosos e que esses hábitos, deixados a seu próprio curso, se consolidam ao longo do tempo.

“Essa abordagem amplia o entendimento da ansiedade, deslocando-a de um fenômeno puramente reativo para um processo que pode ser perpetuado por padrões internos”, observa.

Ele recorre à experiência clínica para exemplificar o que diz. Não é raro que os pacientes demonstrem desconforto ao perceber que estão melhorando: “Esse momento evidencia como o transtorno pode funcionar como uma espécie de mecanismo de segurança”.

Por mais paradoxal que pareça, a ansiedade oferece benefícios imediatos, como uma ilusória sensação de controle.

Essa falsa “blindagem” impacta a química cerebral. E, em estado de hiperatenção, o organismo aumenta a síntese de uma série de substâncias relacionadas ao estresse. O cérebro, no entanto, não foi projetado para viver em constante modo de alerta.

Com 272 páginas, o livro custa R$ 59,90 (Foto: Editora Fontanar)

O'Kane passou a infância em Belfast, durante os piores anos dos conflitos na Irlanda do Norte, o que deflagrou quadros de ansiedade (Foto: newscientist.com)

Na fisiopatologia da ansiedade, quando os níveis desses hormônios excitatórios baixam, o organismo passa a demandar mais estresse para se sentir funcional. “Isso ajuda a entender por que o transtorno pode se tornar viciante: o corpo associa esse estado à proteção e vigilância”, explica O’Kane.

Em um dos momentos mais interessantes do livro, o psicoterapeuta compartilha sua história pessoal. Ele passou a infância em Belfast, durante os piores anos dos conflitos na Irlanda do Norte. Nesse cenário de violência, ele foi profundamente marcado pelo medo — tornando a ansiedade uma constante em sua vida.

Mas o controle veio quando O’Kane percebeu que poderia influenciá-la.  Se hábitos emocionais podem ser aprendidos e reforçados ao longo do tempo, também podem ser modificados.

O especialista, no entanto, não se livrou definitivamente da ansiedade. Aliás, ninguém jamais o conseguirá. A ansiedade é inerente à condição humana — uma ferramenta ancestral de sobrevivência que nos coloca em estado de alarme em situações de ameaça.

O problema surge quando um evento que deveria ser pontual se transforma em rotina.

Crítico ferrenho das “soluções rápidas” oferecidas frequentemente pela indústria do bem-estar, O’Kane defende que o caminho para uma vida mais livre e equilibrada baseia-se em esforço, consciência e transformação gradual.

Sua intenção, observa, é que o paciente rompa com o “vício” da ansiedade, assuma responsabilidade e reconstrua a relação consigo mesmo. Pode ser penoso no início, mas só assim ela deixa de ser um estado "incontrolável".

Conhecido por sua abordagem acessível e bem-humorada, preocupado em traduzir para o leitor leigo conceitos complexos, o psicoterapeuta recorre novamente à autoexposição para ilustrar “como a ansiedade se instala de forma gradual, envolvendo corpo e mente”.

Aconteceu em uma biblioteca, quando começou a estudar para o livro. Em um determinado momento, O’Kane se percebeu distraído.

Em pouco tempo, ele foi acometido por uma tensão física e dor no peito. Enquanto isso, surgiram pensamentos acelerados e autocríticos e o psicoterapeuta passou a duvidar de sua capacidade e a antecipar cenários negativos.

O’Kane sabia o que estava acontecendo, pois já percorrera esse caminho antes. Por meio de técnicas de respiração e atenção plena, gradualmente, ele recuperou o equilíbrio emocional. Ao refletir com mais clareza, compreendeu: a ansiedade foi desencadeada por uma situação nova e potencialmente assustadora — escrever Viciado em ansiedade.