Cannes — Nem Vin Diesel acreditou quando soube que Velozes & Furiosos (2001) comemoraria os seus 25 anos no Festival de Cannes. “No festival de cinema mais prestigiado do mundo, onde todo artista quer ser reconhecido?”, perguntou o ator, que é o rosto da franquia bilionária inspirada na cultura automotiva.
De fato, Cannes celebra, em primeiro lugar, o cinema de arte e de autor. E nesse segmento, em que os candidatos escolhidos pela comissão de seleção disputam a cobiçada Palma de Ouro, o filme de ação marcado por corridas de rua ilegais e por roubos não se encaixa. Por si só, o gênero ação é visto com certo preconceito nessa arena.
Mas o festival, atualmente em sua 79ª edição na Riviera Francesa, também tem um forte apelo business. A maior feira de filmes do planeta, com movimentação de € 500 milhões a € 1 bilhão a cada edição, é realizada paralelamente à mostra competitiva, com projeções de gala no Grand Théâtre Lumière.
E Velozes & Furiosos é inegavelmente um modelo de sucesso. Lançado em 22 de junho de 2001 nos Estados Unidos, o primeiro filme arrecadou mundialmente mais de US$ 207 milhões, tendo sido realizado com apenas US$ 38 milhões.
Foi o que bastou para o título inaugurar uma franquia de filmes que já ultrapassa a marca dos US$ 7,4 bilhões de bilheteria mundial, com 10 longas-metragens lançados. E a franquia figura na oitava posição no ranking das mais rentáveis de todos os tempos — liderado pelas produções do Universo Cinematográfico Marvel, com mais de US$ 32 bilhões, com 37 títulos.
“Não tenho certeza se teríamos incluído Velozes & Furiosos na competição”, brincou Thierry Frémaux, diretor-geral do Festival de Cannes, em encontro com a imprensa, do qual o NeoFeed participou. “Mas o filme é um fenômeno na história contemporânea do cinema”, completou ele, justificando a presença do título da Universal Pictures no Boulevard de la Croisette.
Velozes & Furiosos foi selecionado para a mostra Cannes Classics, dedicada à memória e história do cinema. E ganhou uma projeção na Séance de Minuit, com a presença do astro Vin Diesel, das atrizes Michelle Rodriguez e Jordana Brewster e da filha do ator Paul Walker, morto em um acidente de carro em 2013, quando o sétimo longa estava em produção. “A sessão da meia-noite é perfeita por ter esse espírito de aventura”, completou Frémaux.
Ele destaca que o “cinema feito para as massas” é respeitado em Cannes. E é importante para os estúdios também, por dar muito dinheiro. São muitos filmes. E com mais um a caminho”, continuou o diretor-geral, referindo-se ao 11º longa, que está em produção e tem estreia prevista para 2028.
Mas o que faz de Velozes & Furiosos um sucesso? “Este foi o filme que apresentou o conceito de fraternidade ao nosso milênio”, arriscou Vin Diesel, ao abordar a popularidade da franquia, no Lumière, diante de mais de 2 mil pessoas que lotavam a sala.
A noção de “família” e “amizade” faz parte do impacto cultural da franquia. É o que trouxe uma camada de profundidade aos roteiros, indo além das histórias que destacam os corpos musculosos, o barulho dos motores dos carros e as corridas eletrizantes.
Todo o universo aqui foi desenvolvido a partir do vínculo improvável do corredor de rua Dominic Toretto (Vin Diesel) e do policial Brian O’Conner (Paul Walker), infiltrado para investigar a gangue que usa carros envenenados para roubar caminhões com eletrônicos. Eles começam a saga como adversários, mas, como O’Conner se envolve com a irmã de Toretto, o policial acaba virando criminoso.
Além da ideia de “família” (seja natural ou adotada), que tocou o público, Velozes & Furiosos construiu um legado por avançar nas cenas de ação. A franquia se tornou uma referência para superproduções no gênero, ao ir mais longe em cada novo filme, em termos de manobras arriscadas. E sem recorrer exageradamente aos efeitos especiais nas cenas de perseguições, batidas e outras loucuras, como fazer carros saltarem de paraquedas.
A franquia ainda foi uma das pioneiras ao apostar em um elenco etnicamente diversificado, o que ajudou no seu alcance global. A sua longevidade também se explica por sua capacidade de se reinventar, de trazer novos personagens e de popularizar a cultura automotiva, com os chamados “carros tunados”, os que passam por modificações mecânicas e estéticas, ganhando a personalidade do dono.
Tudo isso levou o imaginário de Velozes & Furiosos a cruzar fronteiras, transformando-se em uma franquia de mídia, que hoje abrange também curtas-metragens, série de TV em animação, videogames, brinquedos, videogames, show de carros e atrações de parques temáticos.
Desde março, o Petersen Automotive Museum de Los Angeles ainda apresenta a exposição A Fast & Furious Legacy: 25 Years of Automotive Icons. A mostra inclui alguns dos veículos que ajudaram a dar velocidade à saga. Como o Dodge Charger preto de 1970, um dos mais populares da franquia, pilotado por Vin Diesel.
Outro destaque é o Toyota A80 Supra laranja de 1993, que Paul Walker dirigiu na primeira aventura. O veículo foi emprestado ao museu pelo colecionador que arrematou o carro em leilão, em 2015, com um lance de US$ 185 mil. Foi com o Supra que o ator rodou a cena final, em um racha com Vin Diesel, que acaba capotando o seu Dodge Charger.